Contos Minilua: O Diário #89

Bem, e de antemão, saibam que todos os temas são aceitos. O mais importante, sem dúvida, a sua participação! E-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com!




O Diário

Por: Flávio Vieira

Olá! Eu me chamo Patrícia Fontinelli. Me senti na necessidade de divulgar os textos que meu filho Antônio escreveu em seu Diário, para ver se consigo colher informações sobre o que aconteceu a ele. O meu menino só tinha dezesseis anos, quando morreu, dia oito de janeiro deste ano. O crime ainda não foi esclarecido pela polícia, que fez pouco caso do que havia acontecido.

Eu encontrei meu filho morto, e parcialmente devorado em seu quarto, toda a casa estava banhada em sangue, porém a perícia apontou que o sangue não era dele. O texto a baixo, estava escrito em seu diário, que foi encontrado próximo ao corpo”.

Dia sete de janeiro: Olá! Diário. Hoje acordei, meio sem vontade de ir para a escola, então fingi que estava doente. Preocupada, com minha saúde, minha mãe me deixou ficar em casa. Bem! Mas, eu não fiquei necessariamente em casa. Fui para a casa do meu amigo Victor, que também não tinha ido para a escola. Nossa! Foi muito bom, nós passamos o dia todo jogando videogame, até que em uma das nossas batalhas no Tekken 6, ele me falou uma coisa.

–Antônio, eu imprimi um conto de terror muito legal, ele se chama O orfanato, eu só li a primeira parte, mas hoje eu vou ler a segunda e amanhã eu passo para você ler.

–Tá certo, mas não mude de assunto, só porque está levando uma surra. –Nos dois rimos.

Algumas horas depois me despedi do Victor e fui para minha casa. Minha mãe brigou muito comigo, porque segundo ela eu estava doente somente para ir para a escola, mas para jogar videogame, eu estava bonzinho. Não posso negar a verdade por trás disso. Fui para meu quarto e lá fiquei vendo TV até pegar no sono.

Dia oito de Janeiro: Acordei muito disposto hoje, me arrumei, tomei café e como faço todos os dias, passei na casa do Victor para ir para a escola junto com ele. Quando me aproximei, logo avistei, uma ambulância saindo de sua casa. Sua mãe estava chorando, debruçada, sobre um corpo, coberto por um lençol branco, em cima de uma maca. Corri até lá, porém, quando cheguei perto, fui contido por alguns policiais que estavam ali perto.

–O que aconteceu. –Perguntei a eles. –Me digam, o que aconteceu…

O pai do Victor se aproximou.

–Deixem ele passar. –Ele disse.

–O que aconteceu, senhor Carlos?

Ele colocou sua mão sobre meu ombro e com lágrimas nos olhos disse:

–O Victor morreu!

–O que? – As lágrimas começaram a descer involuntariamente dos meus olhos. -Mas como? Ontem mesmo, nós estávamos brincando…

–Ele foi dormir tarde porque estava lendo alguma coisa que imprimiu na Internet. Eu subi, e disse que quando terminasse ele fosse dormir, ele me respondeu, dizendo que já estava quase terminando de ler. Quando acordei, e fui acordá-lo, para ir para a escola, ele já estava morto em sua cama. Parece que o coração dele parou durante à noite.

Eu corri até a maca. Elisa, a mãe do Victor, me interceptou.

–Não vá até lá. –Ela dizia, enquanto o carro do IML saia com o corpo dele. –Venha, vamos entrar. –Elisa estava aos prantos, enquanto dizia. Nós entramos na casa.

–O que ele estava lendo? –Perguntei curioso.

–Ele estava lendo isso.

O pai do Victor, me entregou várias folhas, grampeadas.

–Posso ficar? –Perguntei.

–Pode sim. –Ele respondeu.

Sai da casa do Victor, chorando e com as folhas na mão. Ao chegar em casa, minha mãe me interrogou sobre o porquê de eu não ter ido para a escola. Ao saber o motivo, ela logo me deu razão. E o pior é que desta vez não era mentira. Subi para o meu quarto e comecei a ler o que o Victor estava lendo, na tentativa de descobrir alguma coisa.

O texto era enorme, e dividido em duas partes, mas, eu o li por inteiro. A coisa que me chamou mais a atenção, foi o final do texto, que dizia que quem tivesse lido estava condenado ao inferno. “Que bobagem” –Pensei. Deixei o texto em cima da minha mesa de centro e fui me deitar, chorei até pegar no sono, mas, mesmo com a enorme dor que sentia, dormi a tarde inteira. Durante todo o meu sono, somente a imagem do Victor me vinha a cabeça, e aos meus sonhos, até que um toque de uma mão em meu rosto me despertou.

“Esta parte, segundo a perícia, foi escrita de dentro do guarda roupas dele, estava toda borrada, e com uma marca de sangue na folha, no entanto, estava legível”.

Eu não tenho tempo para escrever, com detalhes tudo que aconteceu, mas, vou procurar ser o mais detalhista possível para descrever o que está acontecendo comigo. Não sei o que tem lá fora, porém, vou procurar manter a calma para escrever.       

Depois do toque da mão em meu rosto, eu acordei assustado, eu estava suado, como se tivesse acabado de jogar bola. Procurei o que tinha tocado em meu rosto, más não encontrei nada. Olhei pela janela do meu quarto. “Nossa! Já é noite". -Eu disse. Saí do meu quarto e desci as escadas. "Mãe" - eu gritei. Porém estava sozinho em casa. Ela sempre sai à noite com meu pai. Sentei-me no sofá e liguei a TV. Fiquei lá por algum tempo, assistindo o Programa do Ratinho.

As luzes da sala começaram a piscar, a TV saiu do ar de repente e todas as torneiras da casa foram abertas. “Mais o que é isso?”. –Eu disse assustado. Me virei para a porta da rua, e lá estava, aquela figura horrenda. Era o Victor, atrás de mim, me observando perto da porta. Ele babava como um cão raivoso, estava despido, e com um corte profundo em seu peito, que parecia ter sido feito por um bisturi ou coisa assim. O susto que levei, foi além do que meu coração poderia aguentar, eu andei para trás, até derrubar a TV no chão. Victor começou a andar até mim.

–Victor sou eu. –Eu gritei assustado.

Ele começou a fazer um som, que parecia ser feito, puxando o ar de fora para dentro.

–Victor…

Ele vomitou sangue no chão, sujando todo o tapete da sala. Eu corri desesperado até a cozinha e peguei uma faca, quando aquela sensação horrível de estar sendo observado, tomou conta de mim. Olhei para a janela da porta da cozinha, e vi um rosto de criança olhando para mim, pelo lado de fora. Sombras começaram a surgir de todos os lados da cozinha, eu podia vê-las, pelas janelas da frente. Eram homens, eles estavam andando lá fora e gritando meu nome.

Comecei a gritar por socorro, mas nada aconteceu. Olhei novamente para a porta da cozinha, a criança não estava mais na janela, ela já estava dentro da minha casa, ao meu lado, pronta para me morder. Corri novamente até a sala, mas no caminho, um braço saiu debaixo da mesa e agarrou minha perna, derrubando-me no chão. Olhei para quem me derrubou.

Era um homem de mais ou menos trinta anos, ele estava partido pela metade, seus intestinos estavam para fora, caídos no chão, e ele vomitava constantemente, uma coisa marrom, gosmenta, que estava banhando o chão e impregnando o lugar com seu odor fétido. Me levantei rápido e fui para a sala. Ao chegar, Victor estava lá. Ele estava acompanhado de duas crianças gêmeas, que sorriram sarcasticamente ao mesmo tempo quando me viram.

Elas estavam usando roupas antigas, as duas estavam com os rostos sujos de sangue, que ainda escorria pelo seu corpo, e embebia o carpete. Meu coração disparou, com batidas estrondosas em meu peito, quando vi aquilo. O medo me fez subir as escadas, o mais rápido que pude. Me tranquei em meu quarto e entrei dentro do meu guarda roupas. “Preciso avisar a alguém o que está acontecendo aqui”. –Falei baixinho.

Olhei para o lado e vi meu Diário, jogado ao lado de algumas roupas, então comecei a escrever, o que tinha feito hoje. Escrevi em paz por um tempo, mas, vi alguns movimentos lá fora. Alguma coisa estava dentro do meu quarto. Por entre as frestas do guarda roupa, eu pude ver uma sombra. Era de uma pessoa, andando para lá e para cá, mas a sombra desapareceu, repentinamente. Eu estou calado, não estou fazendo nenhum barulho. Alg…

Essa foi a última coisa que ele escreveu antes de ser encontrado morto, por mim e pelo pai dele. Eu não sei o que aconteceu depois disso, mas o que fizeram com meu filho foi brutal, foi desumano e cruel. O texto, que o pai do Victor havia entregue a ele, desapareceu, mas na fuga, a pessoa que matou meu filho deixou uma folha cair no chão, no entanto o sangue seco grudado na folha, a tornou ilegível.

Não sei se estou ficando louca, mas desde o dia em que meu filho se foi, coisas estranhas estão acontecendo em minha casa. Me sinto observada, vultos espreitam no escuro, torneiras se abrem sem ninguém estar lá para abri-las, eu escuto pegadas subindo as escadas, e pessoas sussurrando em meus ouvidos, me fazendo acordar durante a noite assustada. Tenho certeza, que alguém está lá…

Receba mais em seu e-mail
Topo