Contos Minilua: Cuidado com o que deseja

E lembrando mais uma vez que todos podem participar: homens, mulheres, adolescentes, enfim. Sintam-se a vontade! O nosso e-mail, como sempre, Jeff.gothic@gmail.com. A todos, uma excelente leitura!

Cuidado com o que deseja

Por: Fagner Mendes

Haiti,  Agosto de 1761

Havia um garotinho debaixo da mesa.

Haviam sussurros indecifráveis vindos da sala.

Havia um sentimento de pesar na velha sala de taipa, naquela noite fria do dia-de-todos-os-santos. O pobre garoto soluçava sem parar, tentando estancar os soluços colocando as mãos sobre a boca. Via-se o terror estampado em sua face. Via-se a dor nas lágrimas que escorriam por seus olhos. Olhos esses que acharam um pouco de consolo ao ver na parede o retrato pintado de Czestochowska com o menino.

 

Parecia que ela estava olhando para ele com uma compaixão singular. O garotinho saiu devagar de debaixo da mesa, como que hipnotizado, e estendeu sua mão para a imagem, que o atraía para si. Ouviram-se sons de cavalos correndo e o trincar de espadas, seguidos por sucessivos gritos do lado de fora. Os sons de desespero tiraram o garoto do seu devaneio e ele retornou novamente para debaixo da mesa. Seus pais vieram até ele correndo, assustados com lágrimas nos olhos.

– Não tenha medo, filho. Vai ficar tudo bem, ta? Vai ficar tudo bem. – disse seu pai acariciando sua face enquanto sua mãe o abraçava e o beijava fortemente.

– Mama, Papa, o que está acontecendo?

Sua mãe o olhou com olhos tristes e lacrimejantes enquanto o colocava dentro de um velho porta-trecos de madeira.

– Eu sinto muito, querido…

A porta da sala foi arrombada por um forte pancada. Os pais do garotinho correram pra cima do homem fardado que entrara com diversos soldados. E quando pobre criança entreabriu a porta para ver o que acontecia, deparou-se com a cena do homem caolho decepando as cabeças dos seus pais.

Ele tentou conter o grito. O homem caolho, ouviu um barulho vindo do porta-trecos e percebeu pela mínima fresta um olhar assustado, lacrimejantemente escuro, mas simplesmente deu as costas e sinalizou para seus homens atearem fogo na casa.

As chamas se espalharam rapidamente, sem tempo para que a criança procurasse uma saída. Em meio à fumaça, a única coisa que ele viu foi a imagem de Czestochowska ser circundada pelas chamas e mesmo assim não queimar. A pobre criança clamou por socorro, mas a fumaça o sufocou. Ao retornar a si, deparou-se sendo carregado nos ombros de um negro alto e ensangüentado, subindo as colinas e deixando para trás a visão horrível de seu vilarejo, que ardia em chamas.

O homem misterioso o pôs no chão e ainda meio atordoado, o menino pôs-se a chorar.

– Não se preocupe filho. Vai ficar tudo bem agora. Eu vi o que aqueles desgraçados fizeram com seus pais. Qual o seu nome?

– Ezili. Ezili Dantor, Sr.

(***)

Helena voltou a si, depois dessa perturbada visão.

Algum lugar das montanhas Sir Francis, San Francisco, 2008

– Hey!!! – gritou Patrick, chamando a atenção do velho possuído.

Um tiro seco ecoou pelas montanhas. A bala atravessou a testa do velho haitiano, fazendo-o cair de cima da mesa. O corpo do ancião ficou tendo espasmos no chão, enquanto um sangue negro escorria pela sua boca e seus olhos tornavam-se brancos.

Helena levantou-se da mesa e olhou para seu salvador.

-Patrick!

– Eu falei que você não iria se livrar de mim, darling.

– Patrick, por favor…

Ele se aproximou de Helena bruscamente, segurando-a pelo cabelo e arrastando para fora. A tempestade aumentou novamente e os raios iluminavam o escuro céu, revelando ainda mais pavor aos olhos da moça, quando perceberam as nuvens estavam estranhamente avermelhadas. Helena vislumbra novamente a árvore de tronco retorcido que aponta para o leste e entendeu isso como um sinal.

-Patrick, por favor. Deixe-me em paz!!!

– Eu falei pra você, amor. Eu nunca vou deixar você ir. Nunca!!!

A garota golpeia o rosto do dominador e foge para o leste da floresta, seguindo a indicação da arvore retorcida. Tiros soltos ecoam pela mata. Pedaços de tronco voam na cara de Helena, quando as balas os penetram. A pobre garota corre o mais rápido, desviando e saltando por cima de troncos caídos, tentando não escorregar em meio à lama que escorre pela encosta das árvores.

-HELENAAAAA!!!

 Os gritos de Patrick perturbam os ouvidos da moça que, cansada, pára perto de uma árvore procurando algum lugar para se esconder. Seus olhos assustados percorrem leste e oeste em busca de um abrigo, mas os gritos de Patrick estão mais próximos, o que significa que ela tem pouco tempo. Enfim ela vê um tronco grande e oco, perto de um Carvalho de tronco retorcido e desesperadamente corre para ele, entrando, sem pensar duas vezes, na sua fissura apertada, torcendo para que passasse despercebida.

Helena agora ouvia apenas o barulho das fortes gotas de chuva que caíam. A água escorria pelo chão, como se quisesse formar um rio. De repente dois pés pulam na frente do tronco, fazendo a moça segurar o grito. Os olhos dela lacrimejam imaginando o que pudesse acontecer se Patrick a pegasse, o que ela teria que suportar o resto da sua vida.

– HELENAAA!!! – Ele grita mais uma vez.

A garota fecha os olhos, visto que não consegue mexer um músculo naquele lugar apertado.

– Maldição, MALDIÇÃO!!! – grita Patrick, batendo fortemente no troco com seus punhos.

O velho tronco soltou um gemido, como se sentisse dor. Sua estrutura velha não aguentaria muitas pancadas. O desespero aumenta no corpo de Helena e isso se reflete no seu olhar desesperado, que se fecha esperando o pior. Se ele batesse mais uma vez, ela estaria perdida. Mas não, tudo se aquietou.

Helena abre lentamente os olhos, ainda quase sem respirar. Tudo voltou ao estado inicial, apenas o perturbador som da chuva a incomodava. De repente seu corpo é bruscamente arrastado para fora do tronco, fazendo com que as farpas soltas rasgassem e adentrassem em sua pele. A moça grita ao ver o rosto diabólico de Patrick.

– Sua vagabunda!!! – disse ele lhe dando um soco na cara – Porque você não aceita logo o seu destino, hein?!

– Patrick, por favor, me deixe em paz – grita a moça, desesperada, sangrando do nariz.

– Nunca, Helena, NUNCA vou te deixar!

Helena, em mais uma tentativa suicida, enche sua mão de lama e joga na cara do seu agressor, cegando-o momentaneamente. Ela tenta correr, mas escorrega e cai numa ribanceira que, por conta da escuridão, não vira. Seu corpo é violentamente jogado encosta abaixo fazendo com que toda a tentativa de frenagem seja vã. Sua cabeça bate no tronco de uma árvore e a moça perde a consciência por algum tempo.

Ao abrir os olhos lentamente, Helena sente seu corpo mais pesado, como se tivesse sido esmagada. Percebe que está à beira de um penhasco, a mais de 70 metros de altura de um rio, alimentado por duas belíssimas cachoeiras, as Gêmeas de Sir Francis. Por um instante, admirando a beleza do local, Helena esquece o pesadelo que está vivendo, mas a voz de Patrick a traz de volta do seu devaneio.

– Por que você simplesmente não aceita, Helena? Por que é tão difícil pra você se conformar? Não há como escapar de mim.

– Patrick – disse a moça, tentando, em vão, convencê-lo. – Você não vê o que está fazendo? Fazendo com você? Fazendo comigo?

-Ahhh, baby, eu vejo sim… E, sabe, isso me dá muito prazer ultimamente. Antes eu te seguia feito um cachorrinho, mas daí você me abandonou naquela prisão de loucos, sendo que minha única loucura foi te amar demais!

-Me desculpe, Patrick, eu só…

-CALA ESSA BOCA, SUA VADIA ESTÚPIDA! Eu já cansei de tanto discutir isso Helena, não tenho mais tempo! – disse ele segurando bruscamente pelos cabelos e arrastando-a para a floresta novamente.

Helena, de saco cheio de tudo, se solta bruscamente do agressor e consegue puxar a arma que estava em sua cintura. Ela se afasta e Patrick a olha friamente, sem medo, rindo ironicamente como se o que Helena tivesse feito fosse uma travessura de criança.

– Helena, Helena…- Disse ele se aproximando.

A moça atira no ar, fazendo o som da bala ecoar como um trovão pela floresta.

– Não se aproxime Patrick! – Disse a moça, recuando ao passo que ele avançava. – Eu… Eu não quero te machucar… Eu só quero que você me deixe em paz…

– Não Helena… Se tem uma coisa que você não quer é paz. Você fodeu com a minha vida, me deixou doente por você.

– Não… – chorava ela.

– Sim, baby. Por um tempo eu pensava que eu… estava ficando louco, mas depois… Depois tudo ficou claro – disse ele dando mais dois passos.

Helena atira novamente pra cima.

– Não! Pare!  – se cala por um momento olhando firmemente para Patrick. – Me desculpe, mas tentei reverter o que fiz – sua voz saiu estranhamente perturbada.

– Tentou reverter? – Patrick se irrita – ESSE É O PROBLEMA, HELENA. VOCÊ- SEMPRE-TENTA-CONSERTAR-TUDO!!! Você faz suas merdas e depois se arrepende. Eu já tava cansado de tentar ser bom pra você, de aturar seus erros e depois te desculpar. Por isso terminei com você. Mas é claro que a sua obsessão por mim tinha que terminar nisso, não é? Eu.. Eu sinto um amor tão doente por você que se você me matasse estaria me fazendo um favor. Eu não consigo mais viver assim, Helena, não consigo! Então… vai, atira! Só tem mais uma bala! – dizia ele com um brilho diferente no olhar.
Helena lembra de tudo o que fez e, afinal, Patrick estava certo. Ela só faz burrada.

– Patrick, por favor…

– Vamos,  Helena, atire! Não seja covarde!

-Patrick, não, não me faça fazer isso, por favor!!! – disse a garota, chorando desesperada, enquanto impunha a arma contra Patrick.

– Você  não tem noção do que eu planejo fazer com você. Se você soubesse você não hesitaria em apertar o gatilho. Agora você… A única maneira de você se livrar de mim é me matando. Então vamos, atira, Helena, ATIRA! – disse ele avançando bruscamente em direção a ela.

-PATRICK, NÃO!

O último tiro ecoou seco pela montanha. Um último raio riscou o céu e um enorme trovão estremece o lugar, tal qual o grito de algum deus. A tempestade perdeu força de repente, o vento diminuiu e um corpo sem vida cai no chão enlameado, fazendo um barulho abafado, oco, quase silencioso.

Continua…