Contos Minilua-Cuidado com o que deseja (parte 3) #253

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Cuidado com o que deseja (Parte 3)

Por: Fagner Mendes

Haiti, Agosto de 1791, Cerimônia Bwa Kayiman

Uma multidão de escravos se reuniu na clareira de “Bon Dieux” para presenciar a virada. Todos fugidos, cansados dos maus tratos, da carnificina, isso tinha que parar. A esperança viera na forma de um homem, “O Escolhido”, Ezili Dantor. Sua fama percorreu rapidamente as senzalas da região e o furor de liberdade tomava conta da população escrava.

Semelhantemente a uma aldeia, os escravos se amontoavam ao redor da fogueira esperando o momento. Havia muitas pessoas usando máscaras feitas com a face de animais dilacerados. Porcos, bois, cervos…

Uma cantiga antiga era cantada enquanto a luz da fogueira iluminava a mesa de pedra perto da barraca feita de taipa, onde brilhava uma cortina vermelha, banhada a sangue de cabra. Cortina essa que agia como porta de entrada para a cabana.

“Oh lespri sen nan libète
Gratis pèp ou a soti nan sa ki mal
Boule lènmi an nan dife ki p’ap janm fini
Vire zo ou a nan sann dife
Posede peyi a nan pulsates san…”

A canção era cantada de forma repetida e lenta, como se os escravos sentissem cada letra na língua. Um clamor de libertação tomava conta de todos.

Um raio riscou o céu iluminando a figura de um homem de manto escuro, olhos vermelhos, corpo negro, que segurava um boneco em uma das mãos e na outra uma faca antiga. Um boneco de pano, vestido como se fosse um rei, parecia com o rei. Um dos escravos se aproximou dele e entregou um pedaço da manta do governador. O clamor aumentou no meio da multidão, que se ajoelhou perante o homem, nu.

Dois homens usando máscaras de ferro pontudas, com chifres enrolados, se aproximaram arrastando um imenso porco negro. O animal se debatia tentando se soltar, mas não conseguia. Os homens o jogaram e amarram na mesa de pedra. O misterioso ser de capa negra se aproximou dele, o olhou nos olhos e em seguida para a multidão.

San pou san! Bradou Ezili, levantando a faca e abrindo a garganta do animal com um forte golpe.

O sangue do animal escorreu por entre os canais da mesa de pedra, caindo num vasilhame em forma de cuia, enquanto ele se debatia e tremia até a morte. Após alguns minutos, Ezili se aproximou, apanhou o vasilhame, elevou aos céus e derramou o sangue do animal sobre sua cabeça, proferindo palavras de maldição haitiana.

O fogo da fogueira aumentou grandemente. Os escravos começaram a se assustar. O homem macabro abriu seus olhos vermelho-fogo, pegou o livro de capa feita com tecido de cabra preta e proferiu pausadamente:

- Esta é uma noite da libertação, meus irmãos. Os Espíritos dos nossos antepassados estão furiosos com os nossos opressores. Eles nos ajudarão a aniquilar essa raça imunda e tomar o que é nosso por direito! Madichon pou franse! Lanmò nan franse! – bradou, levantando um grande clamor na multidão.

Ezili proferiu as palavras do livro, segurou sua faca e abriu a garganta do boneco. Um pouco longe dali, em seu leito, o governador da província teve sua garganta cortada por algo invisível. A esposa acordou pelo respingar do sangue em sua face. Os lençóis foram tingidos do vermelho sangue real…

- Que a carnificina comece! – Disse o homem de olhos vermelhos sob o clarão de outro raio.

Os escravos tomaram posse de suas lanças, arcos, flechas envenenadas e atacaram na calada da noite a colônia francesa. Atearam fogo nas casas enquanto todos dormiam, matando centenas de famílias indefesas. Outras eram arrastadas para fora e esquartejadas. As ruas tornaram-se rios de sangue que se juntavam à água da chuva, observadas pelo homem de manto negro em cima da colina cujo sorriso maléfico lhe apoderava a face.

Ele desceu às ruas, pisou no sangue francês e chegou à casa principal, para tomar o poder. A esposa do governador ainda estava desolada, jogada ao chão, como um cão. Ezili não pensou duas vezes, arrancou a cabeça da mulher e do homem já morto. Ele olhou a cabeça decapitada do governador caolho e riu. Ouviu um barulho vindo do guarda roupas e percebeu pela mínima fresta um olhar assustado, lacrimejantemente azul. Era Damian, o filho do governador.

Dantor riu consigo:

- Quanta ironia! Está vendo como o destino pode ser sarcástico, governador? – disse olhando para a cabeça imóvel do decapitado. Fingiu não ver a criança ali enquanto saia ao sobrado e levantava as cabeças como se fossem um troféu. Os negros, vencedores, bradavam pela conquista.

Um tiro seco estalou no ar. As cabeças caíram das mãos do homem de capa negra. Ele parou por um momento, olhou para o peito e viu o enorme buraco causado por uma arma francesa. Olhou para trás para ver seu assassino. Era ele, Damian Duvalier, o filho do casal decapitado.

- Modi! – Bradou, enquanto  seu corpo caía do sobrado.

Os escravos ficaram pasmos ao ver o corpo retorcido do seu líder na rua,  crânio exposto e sangue a jorrar pela calçada. Entraram na casa, mas não encontram nada além de cadáveres. O restante dos sobreviventes franceses fugiu em seus navios e o Haiti finalmente tornou-se livre. Por algum tempo…

Portland, Agosto de 2001

- Eu o conheci no metrô. Era um dia chuvoso, eu havia esquecido meu guarda-chuva e estava ensopada. Sentei-me num banco vazio, tremendo de frio olhando de um lado a outro, meio envergonhada, e percebi que tinha alguém olhando pra mim… Ele… me olhava de um jeito tão… intenso.

- Intenso? – questionou o ancião, coçando sua barba branca que contrastava com sua pele negra.

- Sim. Digo… Ele me olhava como se quisesse me possuir ali mesmo, me fez agitar a respiração. Aqueles olhos azuis me devoravam, o frio se foi totalmente do meu corpo.

Ele se aproximou me oferecendo seu casaco e conversou comigo. Eu fiquei ludibriada pela voz dele. Descemos no mesmo ponto, ele me levou em casa, me convidou pra sair… tudo perfeito. Tivemos uma noite de loucuras, perdi minha virgindade com ele e… Foi aí que tudo mudou.

Ele ficou distante, frio. Não atendia minhas ligações, até que ele simplesmente sumiu. Eu fiquei louca. Não posso perdê-lo, senhor, não posso!!!

- Então o que você quer que eu faça, lady?

- Eu quero um feitiço! Um feitiço que o prenda eternamente a mim. Um feitiço que una nossos corpos a ponto de um não viver sem o outro! Eu não posso perdê-lo, eu não suporto a ideia de vê-lo com outra! Estou disposta a tudo, nem que pra isso eu tenha que oferecer minha alma ao Diabo!

- Hummm… – retrucou o velho, olhando para a moça com um brilho malévolo no olhar – Cuidado com o que deseja, moça. Os Espíritos gostam de sacrifícios, mas a magia envolvida não pode ser  desfeita.

- Não me importa! Eu o quero pra mim! Pra sempre!!!

- Tudo bem… se é o seu desejo… – aceitou o velho, mostrando seu sorriso amarelo.

Helena entregou uma foto de Patrick, a pedido do ancião. Ele começou a fazer um boneco de palha, tecido e barro, um trabalho que fez com maestria, em alguns minutos. O coração da desolada moça batia mais forte a cada minuto. Estava desesperada, magoada, iludida. Em sua mente vinham turbilhões de sentimentos avessos. Dor, nostalgia, remorso…

- Está pronto – disse o ancião. Dê-me sua mão.

A magoada menina estendeu sua mão e sentiu a grossa e fria mão do ancião envolver seu pulso.

- San pou san! Murmurou repetidamente o velho, espetando o dedo da moça com uma agulha.

Helena tentou se soltar, mas o velho segurou com mais força seu pulso e desenhou com o sangue que saia do seu dedo uma estrela-de-salomão no peito do boneco recém-criado. O ar da sala se encheu com um pesado cheiro de carne podre e o ancião o aspirava como se fosse uma droga. Batidos de tambores surgiram do nada, um vento sobrenatural apagou as velas ao redor, deixando o lugar com a pouca luz de dois lampiões. O ancião continuou com suas palavras profanas:

- “Grande Ezili, rogo à sua grandeza
Que esta dama tenha sua ânsia saciada
Que o que ela deseja se torne real
E que nada além do sangue quebre esse elo que se faz agora!!!
San pou san! San pou san! San pou san!

Helena fechou os olhos tamanho o pavor que sentiu, os barulhos tornaram-se ensurdecedores e repente cessaram.

A garota foi abrindo os olhos, lentamente e percebeu que… Tudo estava parado. Os objetos estavam flutuando no ar, o ancião parado segurando o seu… Espera!!! Ela estava lá!!! O ancião estava segurando sua mão, mas…

“Eu morri???  Oh my God, eu estou morta??!!”

Um tremor abalou o local. Compassado, como se algum gigante se aproximasse. Helena olhou em volta e viu uma figura de capa preta, que balançava ao vento sobrenatural. Era aparentemente a figura de um homem, mas com aspecto retorcido, que se tivesse todos os ossos do corpo quebrados. Ela arquejou de frio, cruzou os braços esfregando as palmas das mãos nos ombros e caminhou em direção à porta.

O barulho dos seus sapatos no assoalho. As sombras que se formavam na parede que pareciam persegui-la…

Ela parou assustada, a alguns passos da tenebrosa figura, que levantou o rosto e revelou seus olhos vermelho-fogo. Aquela visão perturbou a amargurada moça que ficou catatônica. O rosto do Espírito Ezili estava seco, com se tivessem o dissecado, os dentes à mostra, não tinha mais nariz e seus olhos vermelhos se alocavam numa imensa caverna no lugar onde estavam seus olhos.

- Sua. Alma… – disse a tenebrosa figura, soltando um hálito quente no ar.

Helena não se movia, nem tinha forças pra pedir socorro…

O ser deu um passo em direção a ela, fazendo-a vislumbrar seus pés de bode e suas pernas cobertas de pêlos negros… Ele respirou fundo e o hálito revelou-se em forma de fumaça novamente, balançando os negros cabelos da moça.

- Sua. Alma… – repetiu a besta – Sua Alma… é… MINHA!

As mãos grotescas da fera agarraram o pescoço da moça de modo brusco, asfixiando-a.
Helena acordou ensopada de suor na sua cama, nua, ao som das batidas de alguém na porta. Era ele…

Continua….

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