Contos Minilua: Corredores sombrios #98

Bem, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!




Corredores sombrios

Por: Natanael Vieira

Branco. 

Tudo é branco. 

Teto branco, paredes brancas, tecidos brancos, cama branca, pessoas brancas. 
- Como você se sente? – Pergunta um médico de cabelos negros, um rosto claro e feições simpáticas que esboçavam um sorriso. 
Ele se aproxima de mim, põe a mão em minha testa e checa meu pulso. 
Tento lembrar-me do que me trouxe até aqui, mas pedaços de minha memória sumiram. Eu me lembrava de estar andando por uma rua à noite, depois disso, vazio. 

- O que estou fazendo aqui? – Pergunto, desesperando-me, tentando me sentar e uma dor aguda toma minha barriga. 
- Ei, ei, acalme-se, você… Levou um tiro. - Disse o médico bonitão, estendendo as mãos. 

- Um tiro? – Pergunto. 
- Sim, acertou sua barriga, mas não pegou nenhum órgão vital. Você é forte, vai se recuperar em pouco tempo. 
- E quem foi? – Pergunto. - Ainda não sabemos nem quem, nem porque, mas suspeitamos de tentativa de latrocínio, já que você chegou aqui somente com a roupa do corpo e uma bolsa totalmente vazia. 

- Meus pais sabem? 
- Já estão chegando. – Ele disse. - Do que você se lembra? Seu nome? 
- Chelsea! Eu não perdi a memória, só não me lembro de como vim parar aqui. 
- Te deixaram aqui na porta. Não sabemos quem. Agora, recomendamos que você durma um pouco. Quando acordar, encontrará seus pais. 

- Tudo bem. – Digo. Recosto-me na cama, dou uma última olhada no médico. Ele sorri para mim, dentes brancos num sorriso encantador. Viro-me para um canto e fecho os olhos. Poucos instantes e começo a dormir. Um barulho fora do quarto me desperta. Olho pela janela. Haviam grades do lado de fora. Já havia escurecido. Um relógio na parede me indicava ser 1 hora da manhã. Pergunto-me o que pode ter caído.

Sento-me com dificuldade, aliviada pela dor ter praticamente sumido. Firmo os pés e dou um primeiro passo. Meus pés ameaçam vacilar e quase chego ao chão. Uso a cama como apoio e consigo firmar os pés. A dor inicial se dissipa e logo fico em pé sem dificuldades. Caminho até a janela. Esfrego o vidro dela com a mão e tento olhar por ele.

Havia um poste de iluminação um pouco a frente. Tudo o que vejo são luzes bem ao longe. O lugar era deserto. Olho para baixo. Eu deveria estar no quarto andar. Viro-me e olho para a porta. Dou alguns passos para alcançá-la, mas no meio do caminho, algo no chão chama minha atenção. Do armário em uma das paredes escorria um líquido espesso. Esqueço a porta e me dirijo até o armário. Abaixo-me com dificuldade, a ínfima dor novamente nascendo em minha barriga. Toco o liquido vermelho com a ponta dos dedos. Analiso-o sobre a luz. Grosso.

Estendo a mão até a maçaneta e abro o armário. A porta se abre, um clique oco ecoando pelo quarto. Cubro as mãos com a boca para abafar um grito ao ver um corpo ensanguentado guardado ali. O corpo desaba sobre mim. Em desespero, empurro-o para o lado e me levanto assustada. Corro até a porta. O corredor estava deserto, exceto por um aparelho de metal caído no chão, provavelmente o que me acordara.

- Socorro! Alguém! – grito.

Começo a andar pelo corredor, apoiando as mãos na parede, buscando ajuda. Um gosto amargo me sobe pela garganta e forço a para fazê-lo voltar a seu lugar. Meu coração acelera quando um alarme agudo começa a soar em todo o hospital. Meus ouvidos latejavam. Os cubro com as mãos para tentar abafar o som e começo a correr sem rumo até que chego a um banheiro.

Aquele barulho estava me enlouquecendo. Entro e bato a porta. Jogo um pouco de água no rosto e cerro os olhos, tentando isolar aquele barulho e me concentrar em meus pensamentos. Eu jamais tinha visto aquele homem em minha vida. Quem era ele? Quem o matara? E porque estava em meu quarto? Abro a porta do banheiro para sair e um grito me escapa quando o médico bonitão aparece ali.

- Chelsea! Estava te procurando.

- Por favor, preciso de ajuda!

- O que foi?

- Tem alguém… tem um homem morto! – sussurro a palavra que me arrepia o corpo.

- Onde? – ele pergunta, me olhando com um olhar inquisidor.

- No meu quarto… – digo, ainda sussurrando.

- Me leve até ele! – ele diz. – Você o conhece.

- Acho que não… – digo e começo a correr até meu quarto. Aquele alarme estava me enlouquecendo. Chegamos lá em pouco tempo.

- Deus! – diz ele atrás de mim. É o Joseph!

- Joseph? Você o conhece? – pergunto.

- Ele trabalha aqui. É meu amigo… 
- Sinto muito… – Digo, tentando consolá-lo. 
- Quem fez isso? – Ele pergunta 
- Não sei. - Sussurro. 
- Vamos sair daqui! – Ele diz. 

Pega minha mão e corremos até o corredor. Paramos ao vermos um homem parado ali. 
- Você o conhece? – Pergunto baixinho e o vejo menear um breve não com a cabeça. 
Ele nos encara. 

- Quem é o senhor? – O médico pergunta, mas ele nada responde. 
A luz revela seu corpo, enquanto seu rosto permanecia omitido nas sombras. 
Ele começa a avançar em nossa direção com velocidade. Dez metros se tornam 9, 8, 7… Tira uma arma de seu bolso. 

- Corra Chelsea! – O médico grita e começamos a correr. Ele ia na frente segurando minha mão. Grito ao escutar um tiro e logo depois. O médico solta minha mão e cai no chão. Viro-me dentro de segundos para o ver coberto de sangue. O líquido vermelho ensopava sua roupa branca. 

- Não! – grito
- Vá Chelsea! Fuja! 

Dou uma última olhada em seus olhos e desvio o olhar para o homem que se aproximava. Me ponho a correr, aumentando a distância entre mim e o homem. Viro um corredor e avisto uma porta bem ao fim. Corro até ela, olho para trás. O homem aparece. Abro a porta assustada e meu pé vacila, me fazendo tropeçar e cair escada abaixo. Caio por três andares até que uma parede me faz parar e me levanto. Olho para a porta acima.

O homem aparece ali e começa a descer as escadas. Devido à queda, uma dor começou a se espalhar por minha barriga. Chego a uma porta mais a frente, e quando olho para cima, o homem havia sumido. 

Começo a ouvir uma conversa mais à frente. 
- Ela precisa ser recuperada. Pode causar estragos se sair dessa viva. 
- Temos pessoas atrás dela, ela não sairá viva. 
- O médico e meu homem estão atrás dela, se a vir, não deixe passar por essa porta. 
- Sabe que não deixarei. – A voz feminina diz. E logo depois, escuto um beijo. 
Com “ela”, estavam se referindo a mim? Por que eu não podia sair? Eu precisava sair, tinha um assassino ali! 

O homem passa bem na frente da porta onde eu estava e contenho um suspiro exaltado. Ele não me vira e continua andando. Espio a mulher sentada no balcão, loura, com um rosto bonito e uma roupa branca com algumas inscrições. Fecho a porta vagarosamente e olho ao meu redor procurando algo, mas nada.

Subo a escada até o segundo andar e abro uma pequena fresta na porta para espiar. Um medo crescente começava a me tomar e de uma coisa tenho certeza: eu corria perigo. Aparentemente, o andar estava vazio. A propósito, tudo ali parecia muito vazio. Eu só havia visto 5 pessoas até agora, uma delas, morta. Abro a porta, determinada a descobrir o que estava acontecendo ali.

Ando por todo o corredor, abrindo algumas portas. Nem tinha me dado conta de que o alarme parara. Todos os malditos quartos estavam vazios. Na última sala, encontro uma mesa de uma recém cirurgia. Sangue em excesso jazia no chão, uma maca, também encharcada e uma pequena mesa onde havia uma bacia branca rasa, com aparelhos pontiagudos bizarros. Chego até ela e pego o que identifico como sendo um bisturi.

Volto até o primeiro andar através das escadas e olho por uma pequena abertura na porta, que esta estava bloqueada por fortes portas de metal. Decidida a sair dali, abro a porta de ímpeto. Olho ao meu redor e nada. Começo a andar então, apontando o bisturi para o vento. Vou até o balcão da recepcionista. 

- Impossível, não tem nenhum telefone! 
– Sussurro. 
Olho ao meu redor. Numa porta mais à frente avisto o nome “Administração”. Corro até ela. Empurro a porta. Uma ânsia de vômito me sobe instantaneamente ao ver órgãos de toda espécie empilhados em caixas transparentes. O cheiro era forte e pútrido. 

Entro na sala e escoro a porta. Uma luz no teto iluminava o local. Vou até um móvel que jazia encostado na parede e abro algumas gavetas procurando informações, mas tudo o que acho são alguns envelopes. Abro um deles. As palavras “requerimento”, “órgãos” saltaram aos meus olhos. Um pavor crescente começou a crescer dentro de mim e a dor em meu estômago voltou a incomodar. Um gosto amargo me subia pela garganta.

Abri a última gaveta. Por cima de todos os envelopes, um se destacava. O destaque: meu nome impresso nele. Minhas mãos desataram a tremer, mas peguei o envelope e o abri. 
Uma foto minha. Novamente “requerimento” e “órgão”. “Rim”. 
Meu sangue gela. A dor em meu estômago cresce ainda mais. Meus olhos se dirigem às pilhas de caixas. Aproximo-me. Uma delas estava isolada, essa não transparente.

Me aproximo dela. Pego-a. Dentre uma série de 8 órgãos, um estava marcado. Rim. Mais embaixo, doador: Chelsea Raynes. Meu nome. Meus pés fraquejam. Perco a força. A caixa cai de minha mão e se abre, jogando o órgão ali guardado para fora. Um grito me escapa. 

A porta atrás de mim se abre. Contenho a respiração. O médico aparece ali. Rastejo até ele e o abraço. Ele passa seus braços ao meu redor. 
- Você está bem? – Eu pergunto.

- Sim… Eu acho. – Ele disse. Sua roupa continuava manchada de vermelho. 
E lampejos me invadem a memória. 
“Mesa”. “Sangue”. “Bisturi”. “- Você levou um tiro”. 
Minha momentânea segurança se esvai e o medo toma conta de cada centímetro do meu corpo. Meus pés tropeçam, o largo e me afasto. 
- O que foi? – Ele pergunta. 
- Você me enganou… – Minha voz falha. 
- Do que você está falando? – Diz ele. 

- Você disse que foi um tiro… Espera! – a minha ficha caiu. – Foi Você! – gritei. 
Um esboço de sorriso tomou seus lábios. Ele meche no bolso de sua calça, tira um rádio comunicador. Aproxima-o da boca. 
- Ela descobriu. –pronunciou.
Uma ânsia de vômito me subiu. Um chiado e a pessoa do outro lado respondeu. 

- Pode matar. Já temos o que precisamos dela. – e desligou. 
O médico me encarou depois. 
- Como? – Pergunto. 
- Como o que? 
- Como eu vim parar aqui? 

- Somos uma gangue. Primeiro simulamos um assalto, trazemos a pessoa para o nosso “hospital”, retiramos o órgão que foi pedido e depois, matamos a pessoa e vendemos o órgão. Acredite em mim, seu rim não foi barato. A propósito, eu mesmo extraí seu rim. – disse, com um sorriso sarcástico nos lábios. 
Me levantei com dificuldade e me encostei na parede. 
- Mais alguma coisa? – Ele pergunta. 
- Minha família virá atrás de mim. – digo, o encarando. 

- Não se encontra alguém que já está morta! – Ele grita e vem pra cima de mim. É quando me lembro do bisturi e o levanto o suficiente para que perfure a barriga do médico. Forço ainda mais, levantando a mão, abrindo um rasgo de 10 centímetros em sua carne. O sangue espirra em todas as direções. Seu corpo cai no chão. Ajoelho-me ao seu lado. Seu corpo se contorcia em espasmos. 

- Morra! – grito. E lhe desfiro um golpe mortal no pescoço, de lateral a lateral. Levanto-me e limpo o sangue do bisturi. Vou até a porta, a abro e caminho pelo corredor. O alarme demasiadamente estridente começa a tocar. UiUiUi. As luzes se apagam e luzes vermelhas se acendem em todo o andar, piscando ritmicamente com o alarme. Quando viro o corredor, dou de cara com um brutamontes parado ali. Um grito me escapa. Ele agarra meu braço com mão forte e pesada. Tento me esquivar, mas ele aumenta a pressão. Aos berros, uso a mão livre para perfurar-lhe o braço que me segurava com o bisturi. 

Com um grunhido, ele solta meu braço e começo a correr sem rumo. O alarme alto me desnorteava e corria sem destino. Viro o outro corredor. Lá ao fundo, uma porta se abriu e a recepcionista saiu. Ela olhou para mim, mil expressões correram sua face. Do espanto ao assombro, do assombro ao medo, do medo à raiva. Ela começou a andar em minha direção. Corri até ela e a empurrei contra o bebedouro. Ela caiu, bateu a cabeça nele e desmaiou. 

O segurança vira o corredor e aparece ali e concentro toda a minha agilidade nos pés. Corro até as escadas, abro a porta e corro até o segundo andar. Abro a porta do segundo andar com força sem me importar com o que estava ali. Corro até a primeira porta que encontro. Abro e não consigo segurar o vômito. Ali jazia sobre uma maca, um corpo aberto sobre uma maca, o tórax completamente escancarado e uma série de buracos.

Tampando o nariz e a boca, deslizo até a janela. Um grosso cadeado impedia  que fosse aberta por trás do vidro. Enrolo um pano que estava no chão na mão e quebro todo o vidro. Corro até o banheiro e pego uma pedra de granito - que impedia a porta de fechar-se – volto até a janela e bato a pedra com toda a força no cadeado uma, duas, três vezes até que ele se rompe. Empurro a grade e abro a janela. Agora eu via claramente. O local era realmente deserto. As luzes da cidade estavam demasiadamente distantes. Havia uma iluminação que só me permitia ver o gramado que circundava o prédio. 

Havia somente um carro estacionado ali e coincidentemente estava bem debaixo da janela do que fora meu quarto. Sento-me no beiral da janela, me preparo para a queda e salto, os – mais ou menos – oito metros se passaram lentamente. Meu coração gelou. O mundo se tornou um borrão em movimento até o choque com o chão. A queda pressionou meu braço e ele começou a doer instantaneamente. A lateral de minha barriga começou a derramar uma trilha de sangue sobre o meu corpo. Logo depois, olho para a janela de onde pulei. O brutamontes aparece ali. 
Ele pega o rádio comunicador e o aproxima da boca. 
- Ela conseguiu fugir! – grita. 

O carro que estava ali atrás de mim liga o farol e me ilumina. O carro liga. Começo a correr. O carro inicia-se numa velocidade lenta e vai progredindo. Tomo uma pequena vantagem pela velocidade vagarosa e corro até a rodovia. Vejo o carro que me perseguia se aproximar e me jogo no meio da densa grama que se erguia em ambos os lados da estrada. O carro para bem perto e um homem de cabelos raspados desce dele. Olha para a frente e para atrás, para os dois lados da estrada e retorna para dentro do carro, voltando para o hospital.

Espero alguns minutos e me levanto. Espero alguns instantes até que um carro vem se aproximando. Corro pra frente dele. 
- Por favor! Me ajude! – grito, e a moça que dirigia para o carro. 
- Você está bem, moça? Ela pergunta. 

- Por favor, você pode me levar até a cidade? Preciso de ajuda! 

- Claro, moça, pode entrar aí. – disse ela, estampando um olhar preocupado no rosto. Entro e fecho a porta. Ela me entrega um cobertor e me embrulho. Ela engata a marcha, pisa no acelerador e o carro começa a andar. Toma a direção da cidade, deixando tudo aquilo para trás. Mas eu sabia que havia uma mente maior por trás daquilo, alguém para quem todos trabalhavam, e que minha fuga não ficaria impune. Eu sabia que viriam atrás de mim. 

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