Contos Minilua: Chupacabra (parte II) #116

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Chupacabra - Parte II

Por: Raimundo Fagner

“Satanás também opera por meio dos elementos a fim de recolher sua colheita de almas desprevenidas. Estudou os segredos dos laboratórios da Natureza, e emprega todo o seu poder para dirigir os elementos tanto quanto o permite Deus…. Mesmo agora está ele em atividade. Nos acidentes e calamidades no mar e em terra, nos grandes incêndios, nos violentos furacões e terríveis saraivadas, nas tempestades, inundações, ciclones, ressacas e terremotos, em toda parte e sob milhares de formas, Satanás está exercendo o seu poder. Destrói a seara que está a amadurar, e seguem-se fome, angústia. Comunica ao ar infecção mortal, e milhares perecem pela pestilência. Estas visitações devem tornar-se mais e mais freqüentes e desastrosas. A destruição será tanto sobre o homem como sobre os animais.” - O Grande Conflito, págs. 589 e 590.

Acordei no meio da noite sobressaltado. Tive um brusca sensação de que estava caindo da rede e me assustei. Já aconteceu com você? A luz da lamparina na sala iluminava o teto de palha. Me virei de bruços e olhei pra rede de Pedrinho. A sensação térmica estava baixa, estranha. Eu estava com frio. Não aquele frio que você se cobre com dois ou três lençóis e passa, mas um frio por baixo da pele, que faz você se arrepiar várias vezes seguidas. Você já sentiu isso?

Me virava de um lado pro outro procurando uma maneira de voltar a dormir. Os acontecimentos de horas atrás ainda permeavam minha mente, provocando uma inquietação sobrenatural. Se eu contasse ninguém iria acreditar. E ainda houve a conversa com Pedrinho que me deixou mais nervoso ainda.

“Ele está nos observando agora!”. Se tudo que eu acreditava que fosse lenda fosse realidade, então estaríamos vivendo num mundo perigoso demais. E se eles fossem alienígenas tentando dominar a Terra? E se for obra de Satanás para maltratar a raça humana? Onde estaria Deus então? Seria, o Chupacabra de outra dimensão? Ahh não! Minha cabeça estava a mil. Não sabia mais o que pensar.

De repente comecei a ouvir sussurros vindos da rede de Pedrinho. Sussurros que, ao apurar a audição, percebi que era uma conversa.

- Não – sussurrava ele – Eles não são más pessoas.

Entre  uma frase e outra ele parava, como se estivesse ouvindo outra pessoa falar e em seguida continuava.

- Por que vocês não vão embora?

- Eu não quero ir com vocês, meu pais não vão deixar.

- Não… ele tem muito medo. Ele não acreditou no que você me disse.

- Sangue? Eu não gosto de ver sangue.

- Por que você não nos deixa em paz ?

Eu me levantei devagar. A corda rangeu na madeira a que estava atrelada, fazendo um som incomodante. Sob a pouca luz que vinha da sala, levantei e calcei meus chinelos, indo em direção à rede de Pedrinho. Comecei a chamá-lo, baixinho e a tocá-lo sacudindo de leve.

- Você não pode me levar. Meus pais vão ficar tristes – sussurrava.

Eu fiquei aflito porque agora sua voz estava tensa. Sacudi ele mais forte e disse :

- Acorda!!!

Instantaneamente senti um vento passar por  mim em direção a porta. Meu coração disparou. Havia alguma coisa conosco. Tirando coragem de não sei onde, caminhei em direção à cortina que servia como porta do quarto. De súbito a cortina levantou e ficou balançando como se alguém tivesse passado correndo por ela. Nervoso, me encostei na parede de barro, ofegante, fechei os olhos e respirei fundo. Continuei.

Bem lentamente levantei a cortina e com apenas uma parte do olho descoberta olhei para a sala. Parecia normal. Não havia barulho nenhum, nem mesmo dos grilos que todas as noites cantavam. Caminhei sorrateiro até a porta, feita de talos de côco secos e olhei, por entre as brechas, para fora. Estava tudo turvo, a iluminação que via eram os vaga-lumes rodopiando no ar. Me virei para voltar ao meu quarto mas fui surpreendido por um vento forte, um sopro que passou por mim e apagou a lamparina.

Minha respiração ficou ofegante.

- Santo Deus, murmurei baixinho.

Não queria assustar meus pais.

E do canto da mesa, na escuridão que se formou eu vi abrirem-se os olhos, aqueles olhos que tanto me apavoravam. Eles se ergueram até minha altura e vieram em minha direção. Tentei me afastar mas tropecei na cadeira e caí no chão. Os olhos vinham ao meu encontro e eu gritei:

- PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAII!

Num pestanejar eles já não estava lá. Meu pai e minha mãe apareceram apavorados. Pedrinho também levantou cambaleando,sem entender. Minha mãe estava com uma lanterna na mão e correu para acender a lamparina.

Ao me ver, ficaram ainda mais assustados.

- Pelo amor de Deus, neném, o que aconteceu? - preocupou-se minha mãe.

- Você está suado meu filho – disse meu pai levantando-me do chão de terra batida e passando a mão na minha testa.

- O Chupacabra estava aqui, pai. Ele quer me levar!

Num gesto de carinho, Pedrinho me abraçou pela cintura. Eu retribui a demonstração de afeto.

- Filho, acalme-se. Você deve ter tido uma crise de sonambulismo, daquelas que de vez em quando você tem.

- Vocês não entendem, disse eu chorando. Essa coisas que acontecem são ele!!! Os arrepios na espinha, a sensação de queda que você tem às vezes, o sonambulismo, o frio… é ele me chamando!!!

Minha mãe apenas me abraçou e disse que ia passar.

- Quando anoitecer de novo vamos acabar com isso, filho, eu prometo  - disse meu pai.

Voltei pra rede e me deitei olhando para o teto. Ao longe ouvia meus pais falando baixo. Comecei a chorar, mas não disse mais nada.

- Lucas – disse Pedro, falando baixinho.

- Oi Pedrinho – respondi tentando esconder o choro.

- As vezes eles tiram sangue de nós enquanto estamos dormindo.

- O quê ? - me surpreendi.

- Eles me falaram que esses sinais que a gente tem na pele, esses pretinhos,  são as marcas de que eles tiraram nosso sangue. Mas eles nunca beberam. A quantidade de sinais que você tem, significa a quantidade de vezes que eles tiraram de você enquanto você dormia, com agulhas muito finas.

- Vai dormir, pequeno, disse o mais suave que pude, mesmo estando mortificado – Você vai ficar bem, eu prometo.

Convenci meu pai a me levar com ele à caçada, mesmo que fosse apenas para segurar a lanterna. Eu não podia ficar parado. Eu tinha perguntas que precisavam ser respondidas, lacunas que deveriam ser preenchidas. Além do mais eu não me aguentaria de ansiedade.

- Eu também quero ir.

- Não Pedrinho – negativei – Você não pode ir.

Me abaixei para falar com ele.

- Se tudo que você me falou for verdade, você está mais seguro aqui, entendeu?

Ele afirmou balançando a cabeça. Não sei porque eu gostava tanto do Pedrinho. Talvez porque não tivesse irmãos. Mas enfim, havia chegado o momento.

Despedimo-nos da minha mãe, que começou a chorar e pedir pra o Senhor nos abençoar contra os laços de Satanás. Subimos em direção ao campinho onde estavam os outros, ajeitando as cabras. Marquinho, filho do Seu Joaquim, dois anos mais velho que eu, começou a “tocar” as cabras para a vereda que dava acesso ao pasto do terreno rochoso, ao norte, às margens do rio. Pra quem não sabe, “tocar” animais em grupo aqui significa “guiar”.

Os animais foram na frente e nós atrás. Eu estava acompanhando Marquinhos e nossos pais logo em seguida.

- O que você acha de tudo isso Marquinho? - perguntei.

- Esse bicho não vai tanger a gente daqui. Eu não vou permitir isso - respondeu ele, sério.

Marquinho sempre viveu em interiores. Por isso tinha pouco conhecimento, mas muita coragem. Desde que eu o conheci que sei que ele sempre trabalhou na lavoura, saia pra caçar sozinho, cuidava dos animais, enfim.

Chegamos no local. Era uma colina com rochas enormes espalhadas pela sua extensão.  No final havia uma ribanceira que dava para uma queda de mais de 6 metros rio a dentro. O pasto era mesclado, na parte de baixo havia uma grama verde e na parte de cima uma matapasto de Unha-de-Gato (sabiá), uma planta de muitos espinhos no caule. Um local belíssimo.

O sol estava se escondendo detrás das colinas no horizonte. O céu estava ficando menos azul  e mais alaranjado a oeste. As primeiras estrelas começavam a surgir e a lua começou a brilhar com mais intensidade à medida que o sol se punha. Vendo aquele momento singular, eu senti um pouco de paz. Minha convicção só aumentou naquele lugar. Tínhamos que defendê-lo a qualquer custo.

Olhei no meu relógio: 23:00 horas. Estávamos a horas escondidos atrás das rochas. Só a floresta densa nos cercava. As cabras mal berravam, ouvíamos apenas os sinos. Ao longe ouvíamos algumas pancadas na água, como rebanadas. Meu pai disse que era um dos grandes surubins que habitam o rio e só saem a noite para comer peixes menores e algum desavisado que ousar nadar no rio. A esta altura eu não duvidava mais de nada.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo aumento dos berros das cabras. Elas estavam alvoroçadas. Eles deviam estar por perto.

- Apague a lanterna, Lucas, deixe apenas a luz da lua.

Meu coração acelerou. Um barulho como de sonar começou a ecoar dentro da floresta. Ele zoava em sequencia.  Semelhante àqueles radares que localizam coisas no espaço ou no mar. O barulho aumentou. Estavam perto, vindo do leste, pelo lado alto. Pude observar uma luz se aproximando, intensa.

Eis que ele surge de dentro da floresta. Meus olhos arderam enquanto todo o local iluminava-se de uma luz sobrenatural. Era uma bola de luz fluorescente em forma de círculo que flutuava a mais ou menos meio metro do chão. Coloquei meu óculos escuros, assim como todos, e pudemos vislumbrar com pavor, escondidos, aquela cena que se contássemos ninguém acreditaria.

A coisa flutuante parou bem próximo dos animais, emitindo ondas de luz que faziam o capim e as plantas balançarem em sequencia, como se fossem ondas. As cabras estavam saltando umas sobre as outras. Meu pai fez um sinal com as mãos, indicando para prosseguirem para mais próximo do inimigo, sempre se escondendo através das rochas. Ele correu agachado de uma pedra para outra, seguido por mim. Chegamos bem próximos.

A luz emitida ficou um pouco mais fraca. Um barulho estridente veio da nave em forma de globo de mais ou menos 3 metros de diâmetro. Uma brecha se abriu liberando uma fumaça azulada, seguida por um abrir de porta, que desceu lentamente tocando o chão. Meu coração batia desenfreadamente, não estava mais acreditando no que era real. Meu pai estava de olhos arregalados, mas manteve-se firme em suas atitudes.

Vi quando um braço curto e cabeludo foi posto para fora, segurando a borda da entrada da nave com suas mãos longas e afiadas de apenas três dedos. Logo em seguida, a criatura colocou a cabeça para fora, cheirando o ar. Os grandes olhos amarelos estavam lá. O ser não tinha nariz para fora, mas orifícios minúsculos e nenhuma boca. Seu queixo era afilado contrastando com a cabeça em forma de cuia.

O chupacabra estava lá! Ele era real! Eu vi!

Ele desceu da nave e eu percebi que suas pernas eram grossas como a de um tiranossauro e muito ressecadas. O corpo era coberto de pêlos prateados que ficam brilhando de segundo em segundo, como um pisca-pisca de natal, só que com menos intensidade. Em sua costas, haviam uma sequencia de espinhos grandes, grossos e pontiagudos que parecia sair da sua coluna, eles terminavam na região fecal, de onde saía uma imensa calda, que se mexia como serpente. Na ponta da cauda havia… havia um orifício que abria e fechava. Havia presas lá!!! Haviam dentes pontiagudos. Que horror!!  A boca na cauda soltava sons estridentes que me deixaram tonto.

O chupacabra caminhou  até o curral, baixou um pouco a cabeça para sentir o cheiro dos animais. Em seguida, sua cauda-boca se aproximou de um animal, abriu-se, dando realce às enormes presas, que abocanharam o pescoço dele fazendo-o berrar de desespero. A calda levantou a cabra como papel, jogou no chão com muita força, enquanto ela se debatia e, aos poucos morria. A barriga da cabra começou a inchar, inchar… até que explodiu, exibindo suas tripas.

Todos ficamos horrorizados. Meu pai acenou para os outros se acalmarem. Levantou-se sorrateiramente e mirou na besta. Estragando tudo, Marquinho saiu correndo de detrás da rocha.

- Desgraçado!AAHHH!!! - gritou, dando um tiro que acertou a cabeça da criatura, arrebentando a parte direita.

O Chupacabra caiu se esperneando de dor enquanto de sua cabeça escorria um líquido azul espesso, brilhante como neon. A calda soltou gritos altíssimos, que fizeram todos tamparem os ouvidos, parando em seguida, imóvel. Em seguida, Marquinho foi até a criatura e olhou nos olhos dele.

- Era isso que você queria, besta-fera!!!

- Acalme-se Marcos! - bradou meu pai.

Marcos não se conteve e começou a chutar a cabeça da fera, que não se movia mais. Seu Joaquim o segurou e arrastou para longe. Havia acabado, simples assim? Não.

Começamos a ouvir ecos de sonares por todos os lados. Não era possível!!!

- Corram para seus postos!! Agora!!! - gritou meu pai.

Eu não estava acreditando. Assim que nos escondemos, mais três naves saíram da floresta. Elas rodearam todo o local. Uma parou em cima da pedra onde eu e meu pai nos escondíamos. Ouvi um barulho porta se abrindo. Vi através da sombra que se projetava em cima da pedra que outro Chupacabra desceu e ficou na beirada da rocha, derrubando pedras menores sobre mim.

Meu pai tapou minha boca com as mãos para que eu não gritasse. Estava suando, muito. Ouvimos gritos estridentes, os outros deveriam ter visto seu semelhante morto. O que estava sobre também gritou alto demais. A confusão no meu cérebro me fez deixar a lanterna cair e sair rolando ladeira abaixo.

- Corre. Agora. O mais rápido que você puder!!!

Outro urro estridente. Ele nos encontrou. Saí em disparada pela colina descendo o campo, peguei a lanterna e entrei na floresta. Ouvi tiros e mais tiros. Mas não olhei para trás. Cai diversas vezes nas ramas de batata selvagem até que não ouvi mais nada. Parei, ofegante, coloquei as mãos nos joelhos e tentei controlar a respiração. O que eu estava fazendo??? Eu não poderia abandonar todos ali. Eu tinha que voltar!!!

Um barulho na floresta me assustou. Eu apontei a lanterna mas não vi nada. De um lado para o outro. NADA. A luz da lanterna piscou, falhou.

- Não não não não não não!!!!

Bati ela na minha mão e ela acendeu repentinamente, iluminando a cara do meu pai, que quase me mata de susto.

- Papai!!!

- Filho, temos que sair daqui!!! Eles começaram a sugar o sangue de humanos!!!! - disse assustado.

- Mas pai… como, como ???

- Eles devem estar se vingando pelo que fizemos com aquele… ó Céus. Eles pegaram o Joaquim e o Chico. As tripas deles… vamos embora!

O eco dos sonares inundou nossos ouvidos. Uma luz se aproximava rapidamente.

- CORRE!!!

Disparamos em mais uma corrida pela sobrevivência. Corremos para leste, pra sair na estrada e voltar pra casa, mas uma nave estava vindo de lá.  Tentamos todos os lados mas eles estavam por todos eles. Nos escondemos dentro de uma moita e ficamos em silêncio. Duas delas pararam na nossa frente. Meu coração queria sair do peito de tão pulsante que estava.

Eu vi a calda deles estava de fora da nave, por um orifício próprio. Começaram a se afastar  para lado opostos mas uma cabra surpreendeu a mim e a meu pai entrando dentro do arbusto onde estávamos, berrando. As naves voltaram e apontaram uma espécie de laser pra dentro dos arbustos.

- Filho, eu vou atrasá-los!!! Corra!!

Eu corri o mais rápido que pude. Ouvi ainda alguns tiros e um grito. Minhas lágrimas não se contiveram e escorreram pela minha face, impedindo-me de ver melhor. Saí novamente no campo de onde tinha partido. Mas o quê ???

Não havia mais curral, não havia mais nave, não via mais nada.

- Lucas!!!

Era Marquinho. Ele veio ao meu encontro e disse que a gente tinha que fugir, que todos estavam mortos. Eu ainda não havia parado de chorar. Ele segurou na minha mão e me puxou rumo a oeste, rumo ao rio.

Fomos surpreendidos por duas naves que apareceram repentinamente, impedindo-nos de prosseguir. Um som de laser saiu delas e uma rajada de luz intensa atravessou nossos corpos. Eu queria gritar, mas não conseguia. Sentia que meu corpo pesava mil quilos. Uma força gravitacional nos atraiu, cada um para uma nave, de onde saíram caldas enormes com uma boca assustadora na ponta. As lágrimas que desciam minha face demonstravam o pavor que estava sentindo.

Olhei para Marcos e vi quando a calda enrolou-se nele como uma anaconda se enrola na presa, apertando-o fortemente. Ele, ao contrário de mim, conseguiu externar sua dor com gritos. Ouvi seus ossos quebrando no abraço mortal que o Chupacabra dava, até o ponto em que seu pescoço foi abocanhado pelo tentáculo. As presas da besta se fincaram entre a clavícula e a artéria principal do pescoço, fazendo descer um fino filete de sangue.

A pele de Marquinho começou a clarear. Eu observei apavorado quando, lentamente, o sangue esvaía-se do seu corpo, fazendo secar e ficar com aparência esquelética. Em seguida, sua barriga começou a inchar até o ponto de explodir, deixando dependuradas suas tripas, mas nenhum sangue saiu do corpo.

Era aquele meu destino?

A calda enrolou-se em mim e começou a me apertar. Ò céus, que dor!!! Eu não queria morrer daquela maneira, mas estava imobilizado. Vi de perto a morte quando olhei para a boca horrenda abrir-se para cravar as presas em meu pescoço. De súbito, meu pai saiu do nada, puxou seu facão e cortou a cauda do monstro. Foi como despertar de um pesadelo o modo como me libertei. O impacto da queda me fez sair do torpor em que me encontrava. Meu pai começou a atacar a nave a golpes de facão enquanto gritava para eu fugir.

O chupacabra da outra nave agarrou meu pai pelo pescoço. Eu não pude ver, saí correndo  ladeira abaixo.

Uma outra nave saiu da floresta e começou a me perseguir. Eu corri mais rápido ainda em direção ao rio. O som do sonar estava  próximo. Cheguei na ribanceira  de mais de 6 metros e não pensei em mais nada, só me joguei dentro do rio e desapareci nas suas profundezas.

Senti a água me levar. Abri meus olhos ainda submerso e vi uma luz sobre mim, no lado de fora. Alguns segundos depois arrisquei e subi à superfície, podendo ainda ver a bola de luz voltar flutuando pelo rio. Vi meu pai sendo sugado ao longe. Um esturro dentro da água me fez voltar a mim. Seria o Surubim? Não liguei. Tomei ar nos pulmões e deixei as águas do rio me levarem.

Nadei até a praia fluvial que encontrei. Deitei-me na areia, olhando pra lua, tentando assimilar tudo o que aconteceu. Não havia explicação. Lágrimas de dor saíram dos meus olhos. Meu pai. Meus amigos. Nós… nós devíamos ter ido embora…

Olhei para o local…

- Espera! Essa é praia onde tomamos banho sempre. Estou perto de casa!

Barulhos de sonares passaram ao longe. Eu me enterrei ainda mais no chão. Eles passaram por entre as árvores mais velozes do que nunca e subiram a ladeira.

- A ladeira!!! Eles estão indo pro povoado!!! Não!!!

Corri desesperadamente para alertar a todos. Subi correndo de modo desenfreado. De longe vi uma cena que seria magnífica se não fosse apavorante no momento. As naves estavam sobre as casas, uns três metros acima. Quatro delas! Estavam lançado um raio de luz sobre elas e… meu Deus… Eram corpos!!! Eles estavam abduzindo pessoas.

Me aproximei mais e vi o corpo de dona Teresa todo sugado.

- Merda!!! Eles vieram buscar as crianças!!! Pedrinho!!!

Corri para casa e pude ver Pedrinho sendo levantado pelos ares. Ele olhou para mim e estendeu as mãos, assustado. Eu subi na pitombeira que tinha do lado da minha casa, no mais alto galho.

- Você não vai levar o meu primo!!!

E saltei sobre Pedrinho para juntos caímos no telhado de palha.

Não aconteceu.

Eu o agarrei com todas as forças mas fiquei pendurado no ar, junto com ele. Senti uma gota de lágrima que caiu do seus olhos na minha face. Ele estava assustado.

Uma calda assassina desceu. Uma janela como de para-brisa de carro abriu na nave e vi meu inimigo mortal de olhos amarelos. Ele entortava a cabeça de um lado para outro como que querendo entender o que estava acontecendo. A boca tenebrosa da calda mordeu meu braço direito. Eu comecei a gritar.

- AHHHH…. Você não vai levá-lo seu desgraçado!!!

Senti uma pontada mais forte no meu sangue. A cauda se soltou do braço e mordeu meu pescoço. A dor era quase insuportável, mas eu não pudia desistir do meu primo. Não do meu irmãozinho.

Minha visão ficou turva. Não tinha mais forças para segurar e caí. Caí sobre o teto de palha e desci escorregando até o chão coberto de areia. Senti o gosto do meu sangue saindo pela minha boca. A luz cessou, eles dispararam um laser sobre as casas que queimaram rapidamente.

As naves se juntaram no centro do vilarejo, rodando em círculos. Estendi a mão  como se pudesse alcançar meu priminho. Olhei para o lado e lá estava minha mãe, ao lado de um quibane de arroz.

A dor estraçalhando meu peito.

As naves subiram ao céu e entraram em uma nave mil vezes maior que estava invisível e por alguns milésimos de segundo apareceu.

Apaguei.

Acordei sonolento pelo barulho de helicópteros aterrizando.

- O que vamos fazer Senhor ? - dizia um.

- Temos que limpar o local e não deixar vestígios.

- O FBI vai tomar conta disso.

- Senhor temos um sobrevivente!!!

Apaguei novamente.

Não sei porque os Chupacabras não acabaram comigo, não me levaram. Mas alguma coisa me diz que logo logo eles me darão uma resposta.

Acordei num hospital milhões de quilômetros longe de casa. O FBI me mantem sob seus cuidados para que eu não conte nada a ninguém.

Mas eu estou contando pra você.

Acredite.

Eles não são aqueles cachorrinhos feios que você viu nos casos da TV.

Eles não atacavam humanos até que um de nós matasse um deles.

Eles querem algo conosco, com você.

Eles estão por aí, perto de você.

Observe os sinais e você poderá vê-los. Mas não vencê-los.

Acredite em mim.

Acredite.

Pois há mais coisas entre o céu e Terra do que supõe a nossa van filosofia.

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