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Contos Minilua: Casamento fúnebre #212

Pois é, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Casamento Fúnebre

Por: Leandro Cavalin

No que diz respeito a casamentos, com todos seus protocolos e tradições, não seria prudente se pensássemos que, por obra divina, não acontecesse nada de inusitado ou até mesmo estranho.

De todas as experiências com casamentos, em termos de bizarrice, esta que relato é de longe a mais esquisita. Recebi um convite para ser padrinho de casamento de um grande amigo, o qual não via há muito tempo. Durante o convite feito por telefone, pude notar um ar de tristeza em sua fala.

A princípio não me preocupei, aceitei o convite e o cumprimentei pelo matrimônio. Entretanto, após o término da ligação fiquei curioso.

Ele nunca foi uma pessoa muito positiva, pelo contrário, cabisbaixo e sempre com um suspiro profundo mostrava seu pessimismo. Porém, quando as pessoas se casam é de se esperar que, no mínimo, estejam felizes com esta nova fase em suas vidas… ao menos é isto que se vê em novelas, filmes e imagens de revistas…

Passado algum tempo, no dia da união, por conta de um trágico acidente na rodovia tive o azar de me atrasar para o evento. Chegando à igreja, me deparei com um ambiente pesado. Aquilo mais parecia um funeral do que um casamento.

Encaminhando-me ao altar, com um sorriso mais amarelo do que uma pagina de um livro velho, não pude deixar de notar um manequim. Sim, um manequim! Usando terno e com uma bexiga de gás hélio em sua mão, que por onde ficava flutuando, assemelhava-se a uma cabeça, já que ele não tinha uma.

Durante quase toda a cerimônia, aquela figura ficava ali parada ao lado da noiva, quase intacta, apenas com os movimentos que a brisa do ar condicionado causava no balão. Aquela imobilidade me trazia um profundo desconforto…

A coisa começou a ficar mais bizarra quando um dos padrinhos que se encaminhava onde estavam os noivos para a entrega da aliança tropeçou em alguns fios elétricos soltos pelo salão e esbarrou no manequim.

Em reação o manequim, que era tão bem articulado quanto um corpo humano, começou a balançar e esboçou movimentos de queda. Estava preso a uma estrutura de metal que o mantinha em pé. Enquanto balançava bruscamente entorno da estrutura metálica foram caindo coisas de dentro dele.

Enquanto as pessoas presenciavam aquilo, umas saíram correndo, outras tampavam os olhos e a boca, num simbólico gesto de aflição e repúdio. Algumas até vomitaram o que haviam comido. Foi quando descobri que não era um manequim.

Aquela figura macabra na verdade era o pai da noiva, o qual havia morrido alguns dias antes em um acidente de trânsito com a cabeça esmagada por um caminhão.

Disseram que seu crânio estourou com tanta pressão que o resgate teve que recolher pedaços de miolos por toda a pista… Literalmente “perdeu a cabeça com o trânsito”.

Aquelas coisas que caíam de dentro dele eram suas vísceras, provavelmente seu ventre apodreceu demais e rasgou, o que explicou a reação da plateia. Quando vivo, tinha o sonho de estar presente no casamento da filha. O ato de realizar o sonho- ou pesadelo- do velho foi levado a sério demais pela família.

Até hoje não sei o que foi mais insano naquela noite: fazer seu finado pai assistir seu casamento, mesmo com a cabeça decapitada, ou pegar os órgãos dele em estado de putrefação do chão…