Contos Minilua: A casa dos sonhos #83

Pois é, e a cada semana novos contos são postados. O de hoje, inclusive, um dos mais interessantes que eu já recebi. Veja só:

E-mail de participação: Jeff.gothic@gmail.com




A CASA DOS SONHOS

Por: Ariane Cristina

reprise_of_autumn_sun_by_ssilence

Ellen estava voltando para casa depois de caminhar pelo bairro numa manhã de sábado ensolarada. Era um dia muito bonito e o sol refletia em seus longos cabelos castanhos e lisos, e o vento suave o bagunçava. Estava um final de manhã perfeito, um céu sem nuvens e temperatura agradável, nem quente e nem fria, o suficiente pra deixar até o ser humano mais ranzinza alegre.

Ela andava com passos leves e sem pressa, olhando com uma certa satisfação seu bairro tranqüilo numa cidade não tão pequena assim, mas com uma população bastante idosa, pois os jovens preferiam as universidades da capital. Ela suspirou com os pensamentos, parou de andar e se espreguiçou, rindo quando sua coluna fez aquele crec confortável. Foi quando ela viu a placa anunciando:

À VENDA.

Ellen ficou intrigada, pois ela nunca tinha reparado naquela casa antes, apesar de ser apenas há alguns quarteirões de onde ela morava. Há algum tempo ela procurava uma casa para morar sozinha, já que agora tinha terminado a faculdade de letras e tinha um bom emprego como professora de alemão em uma faculdade particular.

Seu novo salário não era extravagante, mas permitia que ela pagasse um carro quase novo e financiasse uma casa confortável. Apesar dos atritos com os pais, ela não pretendia se afastar muito deles se pudesse. Afinal, eles já estavam envelhecendo, e precisavam dela para algumas coisas.

O portão da casa era de barras de ferro em formas desenhadas, daqueles que se vê nos filmes antigos de terror sobre casas mal assombradas. O portão estava aberto, então Ellen não se incomodou em entrar, vendo uma mulher de mais ou menos 40 anos estendendo vários lençóis brancos em varais no quintal gramado.

O gramado estava verde e bem aparado, e tinha um cheiro agradável de terra úmida, provavelmente porque alguém tinha molhado o quintal antes do sol a pino do meio dia.

Ela devia ter estranhado, mas não se importou quando a mulher a ignorou completamente, absorta nos seus lençóis impecavelmente brancos. Provavelmente era uma empregada e não queria conversar com as visitas dos patrões. Sem cerimônia, ela entrou pela porta da cozinha, procurando por algum outro sinal de vida pela casa.

Claro que normalmente as pessoas não vão simplesmente entrando na casa dos outros assim, mas como a casa estava totalmente aberta, Ellen achou que estava assim por estar livre à visitações dos interessados em comprá-la.

Além disso, a casa causava nela certa fascinação, como se fosse impossível para Ellen não simplesmente entrar e observar cada canto desse memorial aos tempos dos seus bisavós.

Era uma casa grande, e apesar de ser antiga e ter aqueles pisos e azulejos pequenos e beges, estava bem conservada e a pintura era praticamente nova. A cozinha era espaçosa e tinha janelas grandes, por onde entrava muita luz natural.

Na mesa, sobre uma toalha xadrez amarela e rosa bebê, ainda tinha uma garrafa de café e farelos de pão, como se uma família há pouco tivesse tomado seu café da manhã tardio. Os pássaros piavam do lado de fora, e Ellen podia vê-los voando rasante pela janela, procurando por insetos no gramado.

Ellen achou a casa muito confortável e aconchegante, ou pelo menos a cozinha era. No final dela, ela avistou um corredor que levava aos outros aposentos da casa, e que parecia interminável. Estranho, ela pensou, pois a casa não parecia tão grande assim pelo lado de fora.

corredor escuro

E apesar de toda a luz da cozinha, o corredor e o resto da casa estavam na penumbra. Parecia até que a luz não conseguia chegar até lá, não importando quão brilhante estava o sol. Até mesmo o ar que chegava do corredor estava bem mais frio.Um arrepio percorreu sua espinha enquanto observava a penumbra do corredor.

O barulho dos pássaros parecia cada vez mais distante. Nada parecia ter som, além de um pequeno ruído que vinha do corredor, que quase não dava pra ouvir, apenas se alguém prestasse muita atenção. Era como se fosse um sussurro de algo que não era humano, um sopro gelado, um chamado sofrido e ao mesmo tempo sádico. Com uma coragem tirada da curiosidade, ela decidiu seguir em frente, passo por passo.

A escuridão se fechou em volta dela como se fosse uma entidade viva. Olhando para trás, ela desejou não ter entrado naquele corredor. Ou naquela casa. Ou passado por aquela rua. Aliás, ela devia ter ficado na cama.

A cozinha bonita e ensolarada parecia estar há quilômetros de distância, e coberta de névoa como se ela estivesse vendo através de um espelho embaçado de vapor. Ellen tentou voltar os três passos que ela deu dentro do corredor, mas a cozinha estava muito mais longe que isso. O único caminho agora era seguir em frente.

O corredor não estava totalmente escuro, pois tinha alguns lustres na parede, que jogavam uma luz difusa pelas paredes pintadas de vermelho bem escuro e o chão de madeira escura. Estranho, ela pensou, esse corredor não tinha janelas.

Havia várias portas nesse corredor, e a primeira delas estava entreaberta. Ela empurrou devagar enquanto a porta de madeira pesada rangia, e atrás dela estava uma pequena biblioteca particular, com o mesmo estilo do corredor, além de móveis de estilo antigo, algumas poltronas de veludo verde musgo e uma escrivaninha encostada em uma janela, onde só se via um céu noturno, com uma lua cheia encoberta por nuvens. Ela ficou chocada com a estranha passagem de tempo, e começou a se sentir tonta. Não aguentando, sentou em uma das poltronas e perdeu os sentidos.

Sem a menor ideia de quanto tempo ficou desmaiada, Ellen olhou pela janela novamente. As nuvens estavam deixando a lua aparecer apenas mais um pouco, portanto ela não deve ter ficado desacordada mais que alguns minutos.  Lá fora, uma densa névoa cobria alguns pinheiros. Ela ouviu um uivo bem perto dali.

– Pinheiros? Não existem pinheiros no meu bairro, ela gritou assustada. – Mas que droga está acontecendo aqui?

Com aquela coragem de poucos, Ellen resolveu que sairia dessa situação a qualquer custo. Vasculhou as gavetas da escrivaninha e encontrou uma lanterna sem pilhas. Junto com ela, uma nota de um caderno rasgado com um símbolo desconhecido:

BRUXARIA.

Ellen guardou a nota da pequena bolsa onde carregava seu iPod, e foi a caça de pilhas para a lanterna. Olhando os livros de uma estante da biblioteca, olhou vários livros de gosto duvidoso, como a saga Crepúsculo, alguns romances de várias décadas, e alguns livros que ela nunca tinha ouvido falar, como A viagem do Aeronauta, que ela abriu e viu a data de publicação, 2158, e outros livros estranhamente envelhecidos.

O curioso era que aquela estante não parecia comportar tudo aquilo de livros, mas ela decidiu não pensar sobre o assunto, correndo o risco de enlouquecer.

Em um pedestal no meio do cômodo, estava um livro estranho, encapado em couro, muito grande para caber em qualquer outro lugar. Ela abriu o livro e viu que suas páginas eram de papiro, e em letras garrafais estava escrito o que parecia ser o nome do livro: Necronomicon.

Ellen já ouvira falar do Necronomicon, mas pensava que era apenas uma lenda antiga, o tal “livro dos nomes mortos”, escrito por um louco há vários séculos. Se era apenas forjado, pelo menos assustava como se fosse real. Ela não conhecia aquela escrita, por isso resolveu esquecer o livro por enquanto.

Ela continuou a vasculhar a biblioteca, até encontrar uma pequena gaveta em uma mesinha de canto aquilo que ela mais queria no momento: pilhas.

– Por favor, estejam carregadas, Deus!

Encaixando as pilhas na lanterna, finalmente ela funcionou. Ellen resolve olhar mais uma vez pelo cômodo, agora com a lanterna, e percebe na parede esquerda um crucifixo com um terço pendurado nele, e escrito na parede direita uma mensagem:

NÃO ACREDITE EM TUDO QUE VÊ. ILUSÃO. VIDA E MORTE É ILUSÃO.

Ellen resolve levar o terço com ela, afinal nenhuma ajuda é demais. Ela finalmente juntou coragem e saiu da biblioteca para o corredor.

A segunda porta parecia igual a primeira, mas dessa vez não estava entreaberta. Ellen se aproximou devagar, quando viu num pedaço escuro ao lado da porta um vulto. A luz da lanterna bate em uma menina adolescente muito magra de camisola branca até os joelhos. Sem tirar os olhos da menina, ela tentou girar a maçaneta, mas a porta parecia trancada.

Nesse momento, a menina parece notar a intrusa e se vira lentamente. Ela parecia uma menina normal, tirando os olhos totalmente brancos e dentes podres e afiados. Com certeza uma mordida doeria muito. No pescoço da menina, estava pendurada uma chave antiga.

– Qual é seu nome? – Ellen pergunta com a voz baixa.

A menina então rosna e corre em direção a ela. A menina tenta mordê-la, mas Ellen era bem mais forte que ela no auge de seus 28 anos, 11 deles passados na academia esculpindo músculos torneados. 

Ellen a segurou pelos pulsos, então voltou alguns passos e a jogou dentro da biblioteca. A menina deu um grito de pavor, parou de se mexer e sua aparência ficou normal antes dela se decompor em poucos segundos, restando uma pilha de poeira e a chave.

Ellen estava se recuperando do susto, tentando respirar normalmente antes de pegar a chave da pilha de pó que antes era a menina assustadora. Cheirava a enxofre e mofo, e ela precisou segurar a respiração para não vomitar.

Saiu da biblioteca, mais uma vez, mantendo em mente que talvez aquele cômodo fosse um local seguro no meio daquela bagunça. Se fosse um jogo, ela sorriu com o pensamento, ali seria uma espécie de checkpoint. Talvez fosse o crucifixo, ou o livro, ela não saberia dizer.

No corredor mais uma vez, Ellen testa a chave na segunda porta, e sem nenhuma surpresa vê que encaixa perfeitamente na fechadura de bronze, fazendo um clique abafado enquanto girava. Ela abre devagar a porta pesada e velha, e tudo que ela pode ver é uma escuridão, sombras assustadoras, névoa e muitos, muitos pinheiros. Bem mais perto dessa vez, ela ouve um uivo.

De jeito nenhum, ela pensou, que eu vou me arriscar em uma floresta imensa, dentro de uma casa demoníaca. O feixe de luz da lanterna não chegava nem há dois metros a sua frente, mas mesmo assim era suficiente para refletir dezenas de olhos imensos olhando para ela.

Lobos. Ou pelo menos era o mais próximo que ela podia imaginar. Se fosse possível, ela diria lobisomens, pois além de enormes, ainda conseguiam ficar sobre as duas patas traseiras. Ellen se virou e tentou sair pela porta, mas essa havia desaparecido, e atrás dela havia apenas a continuação da floresta de pinheiros.

ILUSÃO.

Sem saber por que, ela se lembrou da palavra escrita na parede. Observando a névoa, viu que ela delimitava bem de leve o que parecia uma porta. Com a chave na mão, ela tentou colocá-la até achar o encaixe, e finalmente a chave entrou numa fechadura invisível, fazendo a porta reaparecer e ela passar apressadamente para o outro lado, trancando a porta novamente. Então, com um pensamento estranho, resolveu pegar o terço e pendurá-lo na maçaneta antes de destrancar a porta novamente.

Ela abriu a porta outra vez, e havia luz lá dentro. Suspirando aliviada, entrou no que parecia uma sala de estar, com painéis de pinho nas paredes, carpete verde musgo meio comido por traças, e móveis velhos, estofados com um tecido estampado de vinho com dourado, de um mau gosto terrível.

Em uma mesinha de centro, Ellen encontrou um canivete suíço de qualidade, que com certeza seria útil num lugar assustador como aquele. Aquele cômodo não tinha nenhuma janela, parecia que alguém, ao decorar o lugar, passou com os painéis de madeira por cima da janela de propósito, tornando aquele cômodo quente e aconchegante, apesar de um pouco claustrofóbico.

Combinando com a disposição da biblioteca, onde deveria ter a janela estava um espelho fino que ia do teto ao chão, refletindo todo o cômodo, mas o reflexo de Ellen não a mostrava exatamente. Sua aparência era cadavérica.

Seus olhos eram fundos e sem brilho, com olheiras amareladas como se estivessem se recuperando de hematomas, e ela não tinha lábios, fazendo suas gengivas aparecerem num sorriso assustador. Sua pele, onde podia vê-la, dava sinais de estar apodrecendo, e ela podia jurar que viu um verme caindo de seu nariz.

Ela sorriu, pois tinha certeza de que estava viva. Pegou seu celular e olhou para seu reflexo na tela apagada, e viu que estava normal. As bochechas grandes e rosadas, os lábios carnudos com o restinho do gloss ainda brilhando, os olhos claros vivos e espertos. Resolveu ligar o celular só por curiosidade, e como suspeitava estava sem sinal. Divertindo-se com a imagem do espelho, pensou em tirar uma foto sua naquele espelho.

O flash da câmera foi tão intenso naquele ambiente a meia luz, que a cegou por alguns instantes.  Quando seus olhos conseguiram ver de novo, o espelho estava negro e opaco, sem reflexo algum. Ellen, abismada, toca o espelho, que então se desfaz em cinzas. Atrás do espelho, estava escrita outra mensagem:

QUEBRE A MALDIÇÃO.

Dando de ombros, ela voltou os olhos pela sala e começou a vasculhar algumas estantes e cômodas de mogno de estilo antigo encostadas nas paredes. Tinha papéis velhos, fotos amareladas, canetas Bic sem tinta, farelos de pão e todos os tipos de porcaria, até mesmo um ninho de baratas voadoras super crescidas, que assustaram Ellen mais que qualquer coisa nessa casa.

Em uma delas, ela encontrou um pequeno toca fitas amarelo, da Sony, daqueles que faziam sucesso nos anos 90. Ela apertou o play, mas o walkman estava sem pilhas. Ellen tirou as pilhas da lanterna, colocou no toca fitas e apertou o play. Estava bem no refrão da Highway to Hell, do AC/DC, o que ela achou bem colocado na sua atual situação. Talvez depois de sair dali ela poderia baixar a discografia do AC/DC no seu iPod.

Colocando as pilhas de volta na lanterna, Ellen saiu do cômodo, guardou o terço, respirou profundamente umas cinco vezes, e seguiu em frente. Com passos cuidadosos, Ellen se aproximou da terceira porta, mas colocando o terço na maçaneta, a mesma desapareceu, fazendo-o cair no chão.

Ellen reparou que todas as portas do corredor ficavam à sua esquerda, mas não havia nenhuma à direita, possivelmente porque aquela parede era externa da casa, onde deveriam estar as janelas. Olhando com mais cuidado, ela viu que as janelas haviam sido fechadas com painéis finos de material compensado e pintados da mesma cor das paredes.

Ela então retirou um painel com cuidado, e expôs uma janela pequena, por onde se via sem nenhuma surpresa a floresta escura de pinheiros.

Ela resolveu que iria pensar nesse assunto depois, e seguiu em frente. Foi quando ela segurou a respiração ao ver que havia algo no teto. Morcegos grandes, com pernas e braços humanos, estavam pendurados de cabeça para baixo no teto e olhavam para ela famintos.

Ellen surtou e correu como nunca, sem tempo de checar mais nenhuma porta, enquanto as criaturas caiam no chão e começavam a persegui-la. Uma daquelas coisas caiu bem a sua frente, e sem pensar ela enterrou com força o canivete no olho esquerdo do morcego humanoide  que começou a chiar um som agudo de perfurar os tímpanos.

Sem pensar em mais nada, Ellen corre até o final do corredor, e o único caminho existente é uma escada em L de três andares. Após o primeiro lance de escadas, ela vê uma porta entreaberta e entra, fechando a porta e a bloqueando com seu próprio peso. As criaturas pareciam ter desistido de tentar devorá-la.

Antes que ela pudesse suspirar de alívio, ouviu um som parecido com pedras rolando. Virando o corpo para ver o cômodo em que estava, ela viu apenas um pequeno monte de pedras. Ellen respirou profundamente de alívio, mas esse durou pouco quando ela viu as pedras se mexerem e formarem a figura de uma mulher. Ellen quase nem teve tempo de se desviar do punho de pedra que vinha em sua direção. Não seria tão fácil assim derrubar aquela criatura, como a menina da chave.

Correu para o centro do cômodo e percebeu que não havia nada lá dentro, o chão, paredes e teto eram cinzas, com uma iluminação fraca acinzentada, que ela não sabia de onde vinha. No chão tinha apenas espalhadas as pedras que formavam o corpo da mulher, que ela atraía a todo momento, fazendo o corpo dela ficar maior, e também uma pequena depressão cheia de água.

Sem pensar em nada, Ellen correu até a fonte, fugindo da mulher coisa, mergulhando na água até os joelhos. A criatura-mulher tocou na água por um momento, e seu pé dissolveu. Perdendo o equilíbrio, ela caiu dentro da água, dissolvendo as rochas até que restou apenas uma mulher comum.

A mulher abriu os olhos assustada, e compreendendo sua situação, sorriu para Ellen.

– Meu nome é Ana. Obrigada por quebrar a maldição que estava em mim.

– Meu nome é Ellen. Não há de quê. Mas você pode me explicar como quebrei sua maldição?

– Basta olhar para a água.

A água agora tinha um brilho fosco. Ali, no meio da poça estava um pequeno papel escrito BRUXARIA e com um pequeno símbolo que ela desconhecia.

– Eu vi esse símbolo! Estava no Necronomicon!

– Eu sei. Fui eu quem escreveu esse papel. Essa casa pertence a uma bruxa muito velha, com centenas de anos. Com a poderosa magia negra dela, ela criou essa dimensão dentro da casa, onde aprisionou todos que aqui entraram, transformando-os em criaturas horrendas. Quando estava de mau humor, ela simplesmente ligava pra uma pizzaria, e então transformava os entregadores em morcegos mutantes.

– Devem ter sido muitos entregadores…

– A maioria dos desaparecimentos não foi notada, até que ela resolveu sequestrar meu namorado! Então, eu também sendo uma maga, tinha que derrotá-la. O único jeito era com algum encanto quebra-maldição, que coloquei em três objetos. Esse papel, o terço que você carrega e…

– E o crucifixo na biblioteca, não?

– Como soube?

– Não combinava com a decoração…

Ana deu uma risada tímida.

– Além disso, eu sempre gostei de objetos religiosos. Coloquei o crucifixo na biblioteca para que ela não pudesse mais entrar lá. Com isso, a bruxa perdeu grande parte de seus poderes, pois não podia mais acessar seu livro favorito.

– Necronomicon?

– Exatamente. Foi nesse momento que a casa pode ser vista por você, Normalmente a casa fica invisível, isso é, só nota que tem uma casa ali quem a bruxa quer.

– E por que a cozinha bonitinha e a lavadeira de lençóis?

– Disfarce. A lavadeira é só um fantasma do passado, creio que ela nem te viu, pois fica lavando e estendendo seus lençóis em um loop eterno; e a cozinha é apenas uma lembrança que os antigos moradores tinham dela. Bastante enganadora, não?

– Deveras.

– Depois que você entrou, a bruxa me transformou em pedra e foi se esconder no próprio aposento. Só a sua presença aqui foi suficiente para intimidá-la.

– E a menina com a chave?

– Não sei. Provavelmente alguma menina enterrada nesse terreno que ela trouxe a vida para ser sua escrava zumbi. Apesar de zumbis serem péssimos em seguir ordens.

– Tudo bem, Ana. Mas e como podemos derrotar essa bruxa maluca, e sair dessa casa?

– É simples, se você tiver as habilidades certas. E essa garrafa térmica pendurada na sua cintura é capaz de ser bem útil.

Depois de longas instruções, Ellen saiu do cômodo devagar atrás de Ana, que ficou impedindo a passagem dos homens morcegos. Subindo os últimos lances da escada, chegou a uma porta dupla de madeira maciça que era o dobro da altura dela.

Jogando um pouco de água da fonte, a fechadura derreteu como se ela tivesse jogado ácido. Ellen ficou pensando se a bruxa derreteria assim também, igual a bruxa malvada do leste, ou era do oeste?

Colocando o terço no pescoço, Ellen recitou o feitiço que Ana havia ensinado para ela ficar invisível, e então entrou no quarto.

A bruxa estava dormindo em uma cama que cabiam umas 5 pessoas, e Ellen se espantou com a beleza dela. Se a Branca de Neve fosse real, seria com certeza aquela mulher, exceto pelos cabelos loiros cacheados até os joelhos da mulher. Era uma pena que não fosse o príncipe encantado, mas alguém que ia literalmente acordar ela com água ao invés de um beijo.

Ellen percebeu que a bruxa estava fazendo um grande esforço apenas para manter sua aparência, e sem dó jogou toda a garrafa de água da fonte no rosto da mulher. Ela gritou, e seu rosto começou a se desmanchar como a fechadura, Revelando sua face verdadeira.

A pele dela era de um tom esverdeado zumbi, seus olhos esbugalhados e negros, e os lábios eram roxos como os de um morto. Então a bruxa cheia de ódio tentou agarrar Ellen, que por instinto deu com a lanterna com toda a força na cabeça dela. A bruxa caiu morta no chão de madeira carcomida, que com seu peso despencou, fazendo o corpo da bruxa cair num lago de fogo.

Ellen então caiu sentada de alívio no chão, quando viu uma segunda porta naquele quarto, na parede oposta de onde ela tinha vindo, por onde entrava pelas frestas o que parecia luz do sol. Ela empurrou a porta e estava do lado de fora do que agora era uma casinha simples e antiga, de cor amarelinha, com um gramado mal cuidado, mas pelo menos o sol brilhava majestoso e o céu ainda estava sem nuvens.

Ana passou correndo por ela segurando a mão do seu namorado, dizendo um obrigado com os olhos e fugindo antes que ela pudesse ser ligada ao incidente. Alguém chamou a polícia, e todos os entregadores desaparecidos foram encontrados. Um deles precisou de atendimento médico, pois estava com o olho perfurado. Ellen jurou que não sabia como ele havia sido ferido, e enfim pode voltar para casa.

– Filha, demorou na sua caminhada. Já é hora do almoço.

– Eu estava vendo uma casa que estava à venda, mãe. Era como uma casa dos sonhos. Bem, em partes.

– E você pretende comprá-la?

– Não. Decidi que vou morar numa quitinete.

E riu como nunca antes na vida.

Receba mais em seu e-mail
Topo
<-- /home/edenilson/web/minilua.com/public_html/wp-content/cache/static/https/minilua.com/contos-minilua-casa-dos-sonhos-83/index.html //-->