Contos Minilua: Cachinhos dourados e os três ursos #191

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Cachinhos dourados e os três ursos

Por: Lhama Charmosa

Ele estava tocando Bach quando entrei no quarto, desculpei-me pela interrupção, mas entrei do mesmo modo. Sentei-me para ler, a muito havia emprestado ótimos livros de um colega e resolvi lê-los antes que ele me pedisse de volta. Ele continuou sua sinfonia de um homem só, porém com mais descaso, me olhava pelo canto dos olhos só esperando eu fazer a tão esperada pergunta.

- Então, como foi que resolveu o caso?
Parou a música, fingiu não dar tanta importância à minha dúvida, e então começou seu pragmático discurso.

- Bem, quando me contrataram os três animais estavam realmente aflitos e desconcertados, mas não os censurei, sua casa fora encontrada com a porta escancarada, as camas desarrumadas e os mingaus devorados. Felizmente o criminoso havia deixado alguns rastros muito comprometedores, a começar pelo chão da casa dos ursos, estava repleto de lama.

“Aquela lama tinha uma tonalidade mostarda escurecida, como a lama de uma aldeia nas redondezas da floresta, uma aldeia onde a maioria dos habitantes sofrem com a escassez de alimento, como as tigelas de mingau foram encontradas vazias, o criminoso fugira da pequena vila em busca de comida na floresta, e acabou encontrando-a na residência dos animais.”

“As pegadas encontradas na trilha da floresta puderam me dizer a idade mediana do criminoso. Elas tinham aproximadamente 13 centímetros de comprimento, então deveria ter, mais ou menos, 5 ou 6 anos. Estava faminto, os espaços entre as passadas estava bem distantes para o andar normal de uma criança de 5 anos, ou talvez a pressa seria devido ao medo de ser avistada por algum animal selvagem. Era magra, uma criança gorda não conseguiria correr por todo o trajeto realizado sem fazer pausas, pausas que ela não fez.”

“Pude perceber o quão magra era quando vi mingau caído embaixo da mesa, era uma criança fraca, não conseguia segurar a colher com firmeza, ou estava nervosa com a probabilidade de ser encontrada pelos donos do mingau que estava comendo.”

“Mas a nervosia não venceu o cansaço, a criança foi se deitar, experimentou as três camas pois todas estava desarrumadas e com sinais de uso recente. Só conseguiu dormir na terceira cama, a do pequeno urso estava bem mais suja de lama e bem mais desarrumada que as outras duas. Os fios de cabelo dourados que encontrei no travesseiro me levaram à conclusão de que o criminoso era uma garota.”

“Uma garota loura com 5 anos de idade que fugira da vila porque passava fome, não parece o perfil típico de um criminoso não é Watson?”

“Lestrade visitou a vila e conseguiu encontrar uma criança que se encaixou perfeitamente nas características que descrevi, ela foi enviada á um orfanato já que não conhecia os pais, será adotada com facilidade, é bonita, e não terá mais que procurar alimento no meio de florestas ou qualquer outro lugar…” Ele fez uma longa pausa, fitando o céu cinzento, um olhar distante e misterioso.

“Pois é meu caro, o crime nem sempre é consequência da imoralidade humana, uma criança que invade uma casa em busca de alimento não é a criminosa, é a vítima, a vítima da pobreza tanto material quanto sentimental, do descaso de seus iguais e da corrupção dos homens que exercem as leis e fazem a justiça em nossa sociedade… esta é a realidade Watson, a amargurante realidade.

Silêncio, pesado silêncio. Como se despertasse de um transe ele se virou pra mim e sorriu.
-Que tal um pouco de Uísque? Ótima ideia Holmes.

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