Minilua

Contos Minilua: Atormentada #10

E a cada semana, novos contos são postados. O deste sábado, por exemplo, um dos mais interessantes que já recebi. Confira:

                                                 Atormentada

Por: Natanael Vieira

Meus olhos jaziam inchados devido ao choro. A saudade já estava batendo. Meu coração estava apertado. Perder um namorado e ainda ser acusada pela morte dele era mais do que eu podia suportar. Henrique foi encontrado morto há dois dias. A cabeça havia sido decepada. Há horas atrás, eu estava chorando em seu velório, mas sua mãe Samantha me expulsou de lá, me acusando de ser a assassina e me acusando injustamente. Ela achava que eu o havia matado porque havíamos discutido bem na frente dela. Isso culminou com o ódio mortal que ela sentia porque eu estava “roubando o filho dela.”.

Ah Henrique… Você vai fazer falta. Se foi e deixou meu coração partido. Como eu o amava…

Deitei-me em minha cama. O telefone toca e eu o procuro. Encontro-o dentro de minha bolsa. Era Cristian, um de meus melhores amigos.

– Oi Cristian. – digo.

– Olá, Anne. Como você está?

– Ah. Na medida do possível, bem.

– Que bom. Você não acredita no que aconteceu!

– Ah droga, o que foi agora?

– Sua sogra tão querida se suicidou.

 Que? Como assim se matou?

– Do jeito que alguém se mata. Enfiou uma faca no próprio pescoço.

– Uh, me poupe dos detalhes! Isso é serio?

– E claro que é. Um vizinho escutou um barulho estranho na casa dela e quando foi lá ver o que era, encontrou a megera mortinha da silva!

O telefone cai de minhas mãos. Fico pasma com o que acabo de ouvir.

Deito em minha cama e puxo o cobertor até o topo da cabeça. Queria que ele fosse algo que me protegesse de meus próprios pensamentos.

Acordo no meio da noite, assustada. Senti algo me tocando. A sensação foi estranha. Meu cobertor estava amontoado no canto do quarto e minha porta estava aberta. Estranho, eu tinha certeza de que tinha a fechado antes de dormir. Sento-me.

– Tem alguém aí? – pergunto, mas não obtenho resposta. Levanto-me e checo a casa, mas não há nada. Volto até o meu quarto e desabo em minha cama.

Levanto revigorada no dia seguinte. Vou fazer um café e percebo um estranho chiado. Vou ver e descubro que a televisão está ligada. Fato estranho. Eu estava sozinha em casa. Meus pais estavam em lua de mel novamente. Aquela televisão não devia estar ligada. Checo a casa novamente, mas só eu estou ali.

Mais tarde, por volta das 18h, resolvo sair para espairecer um pouco. Minha cabeça ainda estava confusa e debilitada. Ando e ando pelas múltiplas ruas até o escurecer.

Já deviam ser umas 20h quando resolvo voltar pra casa. Volto para o carro e dou a partida. Estou a alguns minutos andando até que algo chama minha atenção. Uma dessas luzes malucas que acendem quando algo passa por elas acende, mas sem nada ali.

– Que estranho. – digo.

Viro para frente, mas de repente Samantha aparece ali, toda ensangüentada. Aos gritos, piso no freio e o carro derrapa até parar. Meus olhos procuram o corpo a minha frente, mas não há mais nada ali.

Atordoada e confusa desço do carro e procuro por qualquer vestígio do corpo ali, sangue ou qualquer coisa, mas não encontro. Volto pro carro e sigo até em casa.

Já em casa, pego o telefone e ligo para Carol, uma amiga muito querida por mim.

– Alô? – ela diz

– Alô, Carol, aqui é Anne.

– Oi amiga! Como você está?

– Por favor, amiga, estou assustada. Será que você pode dormir aqui em casa comigo esta noite?

– O que aconteceu?

– Tem umas coisas estranhas acontecendo que estão me deixando muito assustada.

 – Está bem amiga, vou falar com meus pais e vou logo, logo pra aí.

– Muito obrigada. Estou te esperando. Beijo. Tchau.

Desligo o telefone e vou preparar as coisas. Arrasto um colchão do quarto de hospedes até o meu quarto, o forro e estendo um cobertor sobre ele.

Carol chega. Vou abrir a porta. Conversamos um pouco. Explico detalhadamente para ela tudo o que estava acontecendo, mas ela, sempre tão cética, não acreditou. Nem se deu ao luxo de tentar inventar uma desculpa plausível e relevante para tudo o que eu lhe disse.

Já deitadas em nossas camas, o papo continuou, mas tratei de logo o dar por encerrado.

Carol, nossas aulas começam amanhã. Temos que dormir mais rápido.

– Hum. Muito obrigada por me lembrar disso. – disse sarcástica – Boa noite.

Viro-me na cama, me perdendo em meus pensamentos, mas logo estou dormindo.

Mas uma estranha luz no meio da noite me acorda. Chamo por Carol.

– Carol, acorda, eu acho que tem alguém aqui! – chamo-a e digo sussurrando em seu ouvido, e a vejo lentamente acordar e reclama

– O que? O que você está dizendo? – ela pega seu celular e olha as horas. – Você me acordou às 3 da manhã! Quem estaria aqui às 3 da manhã?

– Não sei, mas alguém está. – digo baixinho.

Ela acaba de acordar e assente com a cabeça. Me levanto e procuro algo que possa usar com o arma. Pego o tripé da minha guitarra. Quem for que estivesse ali, iria apanhar. Vou na frente e Carol vem atrás de mim. O cômodo brilhava intensamente e ofuscava minha vista, mas eu não conseguia encontrar a fonte. De repente, tudo fica escuro.

– Mas o que está acontecendo? – me viro para perguntar a Carol, mas me interrompo quando não a vejo ali.

– Carol? – chamo, mas um silêncio morto se instala ali.

Até que os gritos de Carol cortam o silêncio.

Viro-me e vejo assustada e desnorteada, mãos misteriosas puxando-a pra dentro de uma parede.

– Carol! Carol!

– Anne! Me ajuda! Socorro! – ela agoniza.

Corro até ela. A parte de baixo do seu corpo já estava dentro da parede. Seguro forte em suas mãos e tento puxá-la, mas uma corrente elétrica atravessa meu corpo e me faz soltar as mãos dela. Todo o seu corpo mergulha na parede e seus gritos cessam, mas ficam ecoando em minha cabeça.

– Carol!? Carooool!

Corro desesperada pela casa, abismada com o que vira. O que aconteceu? Caio no choro por Carol. Passo em frente ao espelho e paro ali. Escrito com sangue, amplas letras vermelhas ali diziam “Vá Embora!”. Grito quando a imagem de Henrique se reflete ali no espelho.

Em desespero, corro até a rua.

– Socorro! Alguém me ajuda! – grito loucamente, mas ninguém me ajuda.

Então o carro que repousava em minha garagem liga sozinho e começa a vir atrás de mim. Saio correndo no meio da rua pedindo ajuda, mas ninguém aparece. As portas do carro se abriam e fechavam, o som se alterava entre ligar e desligar.

– Porque você quer me matar, Henrique? – grito.

Acuada entre o portão e o carro, pulo em direção ao chão e o carro se choca contra o portão atrás de mim. Corro desesperada até a minha casa, entro e tranco a porta.

Agora, o fantasma de Carol estava no espelho e dizia: Vá Embora. Tampo meus olhos e mergulho em minha cama, tentando deixar tudo aquilo pra trás.

Uma mão maligna toca o meu pé e se enrola nele, os dedos perversos apertando e deixando marcas quentes. Olho pra lá. Samantha, furiosa, me encarava enquanto suas mãos subiam por minhas pernas. Chega a meu pescoço e começa a me apertar. Começo a sufocar. Exasperada, tento me livrar daquelas mãos raivosas.

Começo a perder as forças. Luto contra ela, mas é em vão.

Meus olhos vêem vacilantes atrás dela, o fantasma de Henrique surgir. Tento gritar, mas não consigo. Eu ia morrer. Junto com Henrique, o fantasma de Carol também aparece. Tento suplicar com o olhar, mas estou perdendo as forças.

Então me surpreendem e começam a lutar contra Samantha. Depois de muito custo, conseguem tirá-la de cima de mim. Respiro aliviada, ainda com dificuldades devido a esganadura. Não entendia nada do que estava se passando. Os fantasmas desaparecem. Minha casa começa a tremer. Desesperada, luto para sair dali o mais rápido possível, mas as portas e janelas se trancam. Quando passo pelo espelho, Samantha olha pra mim furiosa, enquanto ri histericamente.

A casa começa a desabar. Sinto mãos misteriosas me tocarem e me puxarem em direção a parede. Minha visão se turva, e quando volto a enxergar, estou do lado de fora da casa. Henrique e Carol estão ao meu redor.

A casa cai. Observar aquilo doeu profundamente. Todas as minhas lembranças estavam ali. Mas consegui escapar.

Aliviada, olho para Henrique e Carol. Eles estavam juntos na frente do portal claro e alvo. Despedem-se com um aceno de mãos e entram lá dentro.

Um portal negro se abre e um ser preto e sombrio sai de lá de dentro. Ele entra em minha casa e sai puxando Samantha por uma corrente. Ele entra e puxa ela pra dentro. O portal se fecha.

Mas os olhos de Samantha me encarando, suas mãos me enforcando, sua vontade de me matar, ficará pra sempre em sua memória.