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Contos Minilua: O Armário #269

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Hoje nós vamos apresentar mais um conto enviado pelo usuário Thiago Lelis.

O Armário

Bárbara foi beber um copo d’água na cozinha e já ia voltar para seu quarto quando viu pelas brechas da porta que a luz do quarto do seu filho ainda estava acesa. Seria a quarta vez seguida que ele dormia com as luzes acesas. Pedro já tinha oito anos. Uma idade considerável para perder o medo do escuro. Ela abriu a porta e olhou para seu filho ainda acordado com os olhos fixados no armário.

– De novo não, Pedro. – disse ela quase sem nenhuma paciência. – Só me diga: Por que você ainda está acordado a essa hora da noite? E não diga que é por causa do escuro. Eu já lhe disse um milhão de vezes que não há nada. Me dê uma boa desculpa e nós não precisaremos seguir com essa conversa. Só uma. É isso que eu peço. – ela se se encostou à porta. Precisava de apoio para não cair de sono.

– Eu ouvi algo – disse Pedro com os olhos vidrados. Ele não ousava tirar os olhos do armário. Chegava a quase não piscar. Apenas quando a ardência o obrigava. Se arrependendo quando a escuridão tomava lugar e se aliviando quando via que não tinha dado tempo para o que estivesse lá saísse. Levantou seu dedo para o armário e complementou: – Vindo de lá.

– Não deve ter sido nada, querido – ela tentou passar tranquilidade com a sua voz, mas estava cansada demais para fazê-la. – Uma peça de roupa ou qualquer outra coisa pode ter caído.

– Agora vá dormir – ela ia apagando a luz quando Pedro berrou:

– NÃO!

Bárbara hesitou ao ver o quão assustado ele realmente estava. Pedro percebeu instantaneamente o erro de ter tirado os olhos do armário e voltou a vidra-lo.

– Não faça isso. – disse Pedro – Por favor, deixe as luzes ligadas.

– Está bem – disse Bárbara quase perplexa. Crianças podiam ser medrosas às vezes, pensou ela. Mas o olhar que ele fez. Era aquele olhar que alguém fazia quando era jogado na mesma jaula que um leão. O medo de ter uma besta forte o bastante para arrancar qualquer parte do corpo com um golpe fazia alguém ter aquele rosto. Parecia que ele realmente acreditava que havia algo no armário. Um animal escondido para quando ele desvia atenção, e assim ataca-lo. Bárbara encarou o armário já sabendo o que devia ser feito.

– Não faça isso, mãe! – disse Pedro ao perceber o que ela ia fazer. Bárbara ignorou o aviso do filho. Ele continuou a berrar para ela parar, não ousando sair da cama, do seu canto seguro onde segurava firmemente seu lençol. Ela seguiu em frente, queria tirar esse medo do seu filho e ir logo pra cama dormir. Teria que mostra-lo que tudo era imaginação. Não adiantaria dizer. Abrindo o armário iria ter a provar que precisava para convencê-lo. E era a maneira mais rápida. Ela foi ao armário no canto e abriu as duas portas. Pedro se cobriu com o lençol em sinal de defesa para o que viesse.

– Pedro. – disse ela. – Tire o lençol e dê uma boa olhada para o que você tanto temia.
Ela esperou que Pedro saísse do lençol aliviado com a visão das suas roupas, gibis e brinquedos. No entanto, o seu rosto não mudou. Pelo contrario. Lágrimas de medo ameaçavam descer pela sua pele pálida com todo o seu corpo tremendo. Ele levantou o dedo, Bárbara viu que seu braço tremia muito, e apontou para as roupas atrás de Bárbara murmurando:

– Mãe?

No mesmo momento, Bárbara sentiu uma leve respiração bater em seu ombro, quase como uma brisa fria do mar à noite. Ela espiou por trás a ponto de ver mãos pálidas saírem de uma bruma cinzenta que emanava para fora do armário a agarrarem. Ela sentiu o toque frio delas e o cheiro podre de onde elas vinham. Um lugar escondido, secreto e, de certo modo, proibido. As mãos a apanharam pelos braços e cobriram sua boca, impedindo ela de gritar ou fugir. Bárbara foi levada para dentro do armário e as portas se fecharam abruptamente com a bruma desaparecendo no ar.

Pedro assistiu aquilo com o corpo paralisado. Não gritou por sua mãe com medo que as criaturas o notassem e resolvessem leva-lo. Agora, o armário voltou a ficar fechado. Só que tinham levado sua mamãe. Ele precisava fazer alguma coisa. Mas sendo uma criança, não tinha coragem ou força para fazer isso. Então, ele pulou da cama e foi a caminho do único que podia.

Ele atravessou o corredor e ficou batendo na porta do quarto de seus pais gritando pelo seu pai sem parar. Precisava da ajuda de um adulto. Adultos sabiam de tudo. Quando crianças tinham problemas, elas podiam contar com os adultos, certo? Afinal, eles podem fazer qualquer coisa. Até mesmo, salvar a mamãe.

O pai de Pedro abriu a porta depois de poucos segundos.

– O que foi? – perguntou ele coçando o olho, obviamente cansado.

Pedro pegou a mão de seu pai e começou a puxa-lo

– O senhor precisa ajudar a mamãe!

– Bárbara? – perguntou ele mais atento – O que aconteceu, Pedro?

– Vem logo, pai! – Ele parou de puxar seu pai e o levou até seu quarto.

Lá, Pedro abriu a porta e viu sua mãe apoiada de costa no armário com as duas portas fechadas.

– O que foi querido? – perguntou Bárbara – Por que saiu correndo?

– Mãe! – Pedro correu e agarrou a perna de sua mãe. Ele chorava muito – Eu estava com tanto medo.

– Por que, querido?

– O armário. – Pedro olhou por trás de Bárbara – Ele não pegou a senhora? Como escapou?

– Escapei? – perguntou ela confusa – Do que você está falando, querido?

– Eu já não disse! Do armário. As mãos, a névoa… Não tem como a senhora não ter visto.

Bárbara riu com o que Pedro disse. E Pedro soltou a perna de sua mãe com medo dela. – Mãe? A senhora está bem?

– Não há nada no armário, querido. – disse ela parando de rir e ignorando a última pergunta de Pedro.

– Tem sim! – insistiu ele. – A senhora mesmo viu. Eles… as mãos, elas pegaram a senhora. Como a senhora… Como a senhora escapou?

– Como eu estava dizendo, – disse ela ignorando Pedro de novo – não há nada de ruim no armário.

Foi então que Pedro percebeu que saia uma névoa rasteira pela brecha do armário. Nesse momento, as duas portas se abriram sozinhas e a bruma cinzenta caiu em uma onda acumulada. Pedro teria corrido para fora do seu quarto se sua mãe não tivesse segurado o seu braço.
– Me solta, mãe! – gritou Pedro. – O armário…

– Vai ficar tudo bem, querido – interrompeu Bárbara. Pedro olhou diretamente nos olhos de sua mãe e viu que eles não eram os mesmos. Os lindos olhos castanhos claros que brilhavam na escuridão da noite, tinham perdido o brilho. Eles eram agora um castanho escuro, vazio e frio.

– Por favor, mãe, me solta – implorou Pedro enquanto a bruma fria subia pela sua perna. Mas Bárbara não soltava. Ela continuava a encarar Pedro com aqueles olhos vazios e o sorriso vago. Eles tinham feito algo com ela, ele sabia disso! O armário havia transformado ela naquela casca vazia. e nesse pensamento Pedro encontrou certa raiva. Aproveitou-se dela para reunir sua força e puxou o braço de vez. Assim, conseguiu escapar por pouco de sua mãe.

– Aonde você vai, querido? – perguntou Bárbara. Ele correu para o corredor, só pensava em ir para o mais longe possível do seu quarto. Mas antes de chegar à porta, acabou sendo pego mais uma vez.

– Para onde você pensa que vai, filho? – Pedro seguiu a voz e viu que a mão que estava segurando seu braço dessa vez era a do seu pai. Ele olhou nos seus olhos e viu o mesmo que o da sua mãe. Ele também perdera o brilho.

– Me solta, pai. – implorou Pedro puxando seu braço. Seu Pai era forte. Forte demais. – Tá doendo, pai. O senhor está segurando muito forte. Tá doendo!

Os dedos rígidos de anos de trabalho físico de Chris agarravam com força o pequeno braço de seu filho a ponto de espremer. Ele tentou fazer a mesma coisa que fez com a sua mãe. No entanto, seu pai era mais forte. E ele não hesitou.

Bárbara veio e pegou Pedro pelo outro braço – Não precisa se agitar, querido. E também não precisa ter medo. O escuro nunca quis te machucar, ela me disse a verdade. – disse ela com uma voz tranquila – Eu vi as crianças brincando e sorrindo. Vi a senhora que cantava para elas. E essa música… ela é tão linda. Assim como a moça. E eu não quero que ela pare. Ela diz que precisa de você. Então eu prometi a ela que você iria. Se você tivesse visto como é lindo! Não é Chris?

O pai de Pedro balançou levemente a cabeça em sinal de sim. No entanto, Pedro estava ocupado demais se contorcendo e esperneando para notar. A cada passo seu desespero aumentava. Ele implorava com os olhos amedrontados cheios de lagrimas para que seus pais o poupassem. Eles pareciam não notar os esforços do seu filho. Davam cada passo com uma tranquilidade desumana.

Ele parou por um segundo ao ver do armário sair às crianças. Elas gemiam enquanto se moviam de um jeito bizarro. Pareciam ter a mesma idade que Pedro. Só que seus corpos pareciam ter perdido todo o rastro de vida que um dia eles tiveram. A pele deles, pelo menos o resto que tinham, estava podre como uma maçã envelhecida. Seus olhos eram completamente brancos, sem sinal algum de uma alma habitando aqueles corpos, dentro eles pareciam vazios. O pior de tudo era o cheiro que eles carregavam consigo. O cheiro que veio ao atravessarem o armário. Aquele cheiro era o cheiro de corpos em decomposição. O cheiro de pântanos que absorviam apenas restos mortais. Aquele era o cheiro da morte.

Pedro recomeçou a se mexer e gritar, dessa vez era mais alto e forte. O desespero havia dominado sua jovem mente e o temor apertava de leve o seu pequeno coração. Ele mais uma vez implorou para seus pais que o soltassem, não permitissem que ele fosse tocado por aquelas crianças e, quando viu que eles não fariam nada, por ajuda do lado de fora. Ninguém veio ajuda-lo e seus pais não pararam. Eles continuaram, ficando cada vez mais próximos do armário e das crianças.

Pedro sentiu uma dor no primeiro toque pelas mãos gélidas das crianças do armário. Era como se elas já carregassem a morte em seus dedos apodrecidos, e podiam trazê-la apenas tocando. Logo o seu corpo foi dominado pelo frio. Seus pais o soltaram, não precisavam mais guia-lo. Agora era o trabalho das crianças. Elas o levavam para dentro, e lá no fundo, ele podia escutar o eco de uma música.

Pedro liberou uma das mãos e esticou-a para Bárbara, sua mãe. E como último esforço, olhou nos seus olhos e suplicou pela última vez – Mãe… Por favor.
Ela não agarrou.

– Tudo vai ficar bem, querido – disse ela. E antes que as portas se fechassem para sempre, uma solitária lágrima caiu sob seu rosto fino e ela repetiu: – Tudo vai ficar bem.

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