Contos Minilua: Aquele que vive em tédio #40

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                               Aquele que vive em tédio

By: Nameless

-Que bosta! Quantos dias, quanto tempo eu já passei aqui observando a porcaria dessa vista?

Eu falo sozinho em voz alta. Sim, sou no mínimo excêntrico. Foda-se. Eu estava entediado de novo. A cerveja que estava bebendo havia acabado há alguns minutos e agora eu segurava uma garrafa vazia em minha mão direita. O sol iluminava toda a sacada do apartamento, rompendo a barreira que as nuvens impunham a ele.

Mas logo as nuvens iriam cobrir o crepúsculo, acabaria por chover assim que a noite chegasse. Observava as pessoas que passavam na calçada em frente ao prédio, todas atarantadas por chegar logo em casa, assim como os motoristas que circulavam pelas ruas. Vejo uma gostosa passar lá embaixo, não me contenho e acabo por gritar:

E aí gata, belo par de seios! Não, não tô falando com você tia, é com a gostosa de camisa branca e saia preta aí na frente!

A mulher que eu fitava percebe que meus gritos são pra ela. Como resposta ela apenas faz um conhecido gesto nada educado com um dedo na minha direção.

- Nossa… Não te deram educação? Não precisava disso, era só um elogio.

A gostosa some da minha vista em seguida.  Eu morava no terceiro andar do prédio, e todo dia ao entardecer fazia isso. Pegava uma cerveja, ia pra sacada e observava a rua, as pessoas, enquanto fumava e bebia.

- Para de gritar seu babaca, não quero arrumar encrenca com o síndico por sua causa.

A voz de Lio, Infelizmente, como não sou rico, tenho que dividir o apartamento onde moro com outros caras, um deles é o Lio. Ele é um babaca, mas ajuda a pagar as contas, então tenho que respeitá-lo.

- Tá bom seu bastardo estraga prazeres… Eu paro de gritar se me trouxer outra cerveja.

- Eu por acaso tô usando uniformezinho de empregada agora? Vai se foder! Pega você!

- Tá bom… A natureza vai lhe cobrar isso Lio, pode esperar.

Após o curto diálogo Lio sai do apartamento batendo a porta.

- Babaca, devia morar em caverna antes de vir pra cá, só pode.

Escorado sobre as grades da sacada, com os braços cruzando-se, balanço a garrafa vazia. Algumas gotas de água condensada ao redor do vidro caem. Observo a calçada abaixo de mim. Tem poucas pessoas passando naquele momento. Sacudo a garrafa no ar, como se fosse soltá-la na calçada, sobre alguém.

E realmente eu solto a garrafa. Em um curto período de tempo o percurso é completado e o vidro acaba por se estilhaçar ao tocar as pedras que cobrem o solo. Ninguém foi atingido. Claro, eu não sou tão louco ao ponto de jogar uma garrafa na cabeça de alguém que passa na calçada. Antes de jogá-la me certifiquei de que não acertaria ninguém. Mesmo assim um cara lá embaixo me dirige algumas palavras não muito educadas.

- Desculpa aí cara, foi um acidente, a garrafa escorregou da minha mão…

Cínica e simplesmente é essa a desculpa que dou. Pego um cigarro novo do maço, o ascendo e calmamente começo a fumar. O cara percebe que é inútil me xingar e segue seu caminho. Alguns minutos depois a campainha toca, ao abrir a porta encontro um síndico querendo explicações pelo que acabei de fazer. Sem convidá-lo para entrar, escuto o sermão ali na porta mesmo.

- Calma, foi um acidente, a garrafa escorregou da minha mão! Acontece.

- Já é a terceira vez essa semana… Blahblahblah… Blahblah blah! Blah blah blah… Multa! Blah blah.

As palavras dele entram em um ouvido e saem pelo outro. Só escutei a parte da multa. Apenas me mantenho quieto e concordo com tudo que ele diz acenando positivamente com a cabeça. Após algum tempo ele vai embora, deixando em minhas mãos uma multa a pagar. Ainda estou entediado. Vou até a cozinha e pego outra cerveja na geladeira. Amasso a multa e a jogo no lixo.  Bebendo no gargalo, um pouco acaba caindo na minha camisa branca.

- Merda!

Caminho vagarosa e desanimadamente da cozinha para meu quarto. Apesar de ter que dividir o apartamento com outros três caras, cada um tem o seu quarto, o que é bom, se não fosse assim, não teria paciência para aturar aqueles idiotas.

Ao abrir a porta, ela range. O som é irritante paca. Dou outra bicada na cerva enquanto observo alguns quadros que eu pintei. O meu quarto é repleto deles. Retratos de mulheres nuas, paisagens urbanas, florestas, castelos; alguns realistas ao extremo, outros demasiado abstratos, enquanto ainda existiam aqueles que misturavam os dois estilos. Com os pés descalços, percebo que estou pisando em um pincel ainda umedecido com tinta verde no chão.

- Que bacana, mais uma mancha que eu deixo no piso. Por isso que eu sou um retardado e o meu quarto é único… Unicamente sujo de tinta, tocos de cigarro, lixo e outras tranqueiras!

Realmente o quarto está uma porcaria. Se não fosse eu que vivia ali, diria que o cara que habitasse aquele lugar vivia num chiqueiro. Foco meu olhar em uma tela que fiz retratando uma mulher nua deitada em uma cama com os cabelos pendidos para fora dela. O lençol de uma cor alva é iluminado pela luz que entra de uma larga janela atrás da cama.

- Fiz essa porcaria surrealista demais. A mulher parece deformada. A cama parece uma mesa. Estraguei uma tela e desperdicei tinta. Meu tempo também foi desperdiçado. Caguei pelas mãos nessa tela.

Dou outro gole na cerveja. Depois coloco o recipiente na mesa a minha direita, ao lado de um monte de tocos de cigarros que esconde um cinzeiro. Pego a tela da mulher deformada, lentamente a tiro do cavalete que a sustenta. A fito mais uma vez de cima a baixo com olhar complacente. Súbito, bato a moldura com toda a força de encontro ao piso, a madeira se estilhaça, deforma o tecido em que eu havia pintado. Dou um chute em outro cavalete, este tomba. Pego a moldura e a arremesso contra outras pinturas. O barulho que estou fazendo é grande. Mas eu não tô nem aí. Tô de saco cheio de todo esse lixo que produzi nos últimos tempos.

-Essa porcaria de “arte” não me rendeu nada, só perdi meu tempo e dinheiro! Monte de lixo!

Continuo quebrando molduras enfurecidamente enquanto falo sozinho, arremessando-as umas contra as outras e contra as paredes. Cacos de madeira, pedaços de tecido pintado espalham-se e somam-se a bagunça imunda que me rodeia. Alguns potes de tinta e pincéis são atingidos e quedam ao chão, manchando mais ainda o lugar. Após quebrar quase tudo, viro-me para porta aberta de meu quarto. Lio, escorado na entrada, me observa com um olhar frio, mantendo-se calado.

- Que foi? Nunca viu alguém quebrando tudo?! Pior pra você! Sabiam que eu era meio louco quando me aceitaram para morar aqui!        

Sem falar nada, ele apenas vira-se e some da minha vista. Agarro com raiva a garrafa de cerveja anteriormente depositada sobre a mesa, milagrosamente intacta no meio do caos que gerei há pouco. Em escassos goles, bebo o resto do conteúdo dela, até que se esgote.

- Merda. Era a última garrafa. Preciso beber alguma coisa que tenha álcool ou vou ficar louco ainda hoje.

Enquanto escolho entre as marcas de uísque disponíveis na prateleira, divido meu olhar entre as garrafas e a bela atendente no balcão. Somos as únicas pessoas no mercadinho. De vez em quando, o meu olhar e o dela se encontram. Acho que ela mais me vigia pra ter certeza de que não vou roubar nada do que admira minha vasta beleza. Beleza esta tão vasta quanto o pequeno quarto/chiqueiro/lixão onde me escondo naquele apartamento.

Um cara vestido como um rapper entra no mercadinho com uma expressão mal encarada. Nada contra os rappers, embora não goste do estilo, mas aquele cara denigriria a imagem de qualquer um. Ele entra rápido e resoluto no lugar, acho que sequer me notou no fundo do mercado parcialmente escondido por algumas prateleiras. Ele vira-se diretamente a bela balconista e puxando uma arma da cintura, anuncia um assalto:

- Vamos lá vagabunda, passa logo o dinheiro se não quer que eu encha esse seu rostinho de chumbo! ANDA!

- Cal… Calma, eu já te dou o dinheiro…

- Anda logo vadia! Se tentar alguma coisa vai ser pior pra você!

O cara está drogado. Percebi isso assim que ele começou a falar. A moça está nervosa demais, isso pode acabar dando merda. Ele tá tão chapado e preocupado em vigiar a atendente que ainda ignora minha presença no local. Suas mãos tremem. Ele deixa de apontar o revólver na direção da mulher por alguns segundos, embora continue com a arma pronta a atirar. Lenta e silenciosamente agarro uma garrafa de uísque. Desloco-me um pouco e paro no corredor entre as prateleiras. Continua a ignorar minha presença.

Elevo lentamente a minha mão direita que segura a garrafa ao alto. Nesse momento deixo de passar despercebido aos olhos do assaltante. Ele vira-se em minha direção, porém com um movimento brusco de minha mão, arremesso a garrafa contra o desgraçado. Ele eleva a arma com intenção de atirar em mim, antes o que o faça, o pesado recipiente de vidro que joguei se estilhaça ao encontrar sua cabeça. O ruído característico de vidro se quebrando anuncia os cacos que se espalham. O homem queda ao chão, desmaiado pelo impacto.

 - Seu idiota! Ele poderia ter me matado! Poderia ter te matado!

Enquanto a bela loira grita, ainda em estado emocional alterado pela situação que acabou de vivenciar, pego outra garrafa do mesmo uísque que usei para atingir a cabeça do assaltante. Caminho vagorosamente por entre as prateleiras até encontrar o corpo imóvel do homem jazendo no chão, em frente a entrada, ao lado do balcão. Alguns cacos de vidro lhe cortam a face, e o sangue que dela escorre se mistura ao uísque e vidro que há no chão. Rio cinicamente enquanto penso comigo mesmo “ Sim, nós dois poderíamos ter morrido. Quem diria que eu acertaria a garrafa nele? E ainda mais que ele apagaria só com isso… Eu a atendente poderíamos ter morrido. Mas foi divertido.”

- Ei! Você tá me escutando?

A voz da moça me chama de volta a realidade. Ainda rindo, me viro na direção dela.

- “Foi tudo friamente calculado.”

- Quê?!

- Você não tem cordas ou algo assim para amarrar esse cara? Ele não vai ficar desmaiado para sempre… Temos que amarrá-lo para que não cause problemas até que a polícia chegue. Você não chamou a polícia ainda, né? Tá esperando o que pra fazer isso? O Natal chegar? Anda logo!

Ela arranja uma corda e eu amarro o sujeito. Ele ainda não acordou. Devia estar muito chapado, ou a pancada que levou foi mais forte que eu pensei. A polícia logo vai chegar e dar um jeito na situação.

- Quanto deu?

- Quanto deu o que?

- As duas garrafas de uísque e o maço de cigarros?

- Você não precisa pagar isso… Salvou todo o dinheiro que havia no caixa e a minha vida.

- Não. Eu faço questão de pagar.

Puxo algumas notas amassadas do bolso direito da minha calça jeans, o suficiente para pagar a conta, e as jogo sobre o balcão.

- Toma. Adeus moça, não quero estar aqui quando a polícia chegar. Eles iam me encher de perguntas.

- Mas você não pode sair assim… Vai me deixar aqui sozinha com esse cara?

- Logo a polícia chega. Ele não deve acordar até lá. Além disso, eu o amarrei bem, ele mal vai conseguir se mexer. Não vai te incomodar. Se ele começar a falar demais, quebra outra garrafa na cabeça dele. Deve resolver o problema.

- Mas o que eu digo quando a polícia chegar?

- Diz que um herói misterioso salvou o dia, ou melhor, à noite. Adeus.

Ela parece não acreditar que eu realmente vou virar as costas e ir embora. Mas é exatamente isso que faço.

Sentado no capo do meu Opala de cor escura como a noite, observo a fogueira que acendi com o que restou dos quadros que destruí no meu apartamento. Ainda não choveu como achei que aconteceria. O que alimenta o fogo são todas as porcarias que eu julgava inúteis dentro de meu quarto.

O lugar do incêndio é um campo fora da cidade. O combustível que usei para acender o fogo foi um pouco da garrafa de uísque que comprei no mercadinho. Talvez logo chova e o fogo se apague. O clarão que as chamas provocam ilumina uma grande área ao redor de onde me encontro e aquece meu corpo nessa noite fria. Enquanto fumo um cigarro e observo tudo queimar, percebo que ainda estou entediado.  

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