Contos Minilua: Amor(te)

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Amor(te)

Por: Marlon Couto

Luiz pegou o celular e discou o número dela. 33 chamadas perdidas. 4 mensagens de voz. Ele só queria que Sandra retornasse para seus braços. Não entendia o motivo de sua ida. Não conseguia enxergar onde errou, ou se havia errado.

Franziu o cenho e jogou o aparelho no chão.

– INFERNO! – Rosnou para si mesmo.

Lembrou-se da última vez em que a viu. Lágrimas e sofrimento. Lembrou-se da primeira vez em que a viu. Sorrisos e desejo. Palavras ardentes foram ditas enquanto o suor escorria de seus rostos. Lembranças desgovernadas voavam de um lado a outro. Ele a enxergava nitidamente em seus pensamentos.

Sandra estava no altar e seus olhos azuis furavam o véu e pairavam direto nos olhos de Luiz. Lembrou-se dos amigos e dos parentes que presenciaram a cerimônia. Das promessas que fizeram um para o outro e de todos os planos, que incluíam filhos, netos, bisnetos e morrer velhinhos.

Não levou muito tempo para o suor se transformar em sangue. Para o carinho se transformar em violência e para aquele sentimento, tão colorido, ter perdido todas as cores. O solo fértil foi atingido por um incêndio devastador, e lógico, ela era o solo.

O trabalho de Luiz era estressante e o ciúme o preenchia por inteiro. Chegava em casa todos os dias e passava direto para o quarto. Não existia nem uma “boa tarde” e nem um “como foi o seu dia?”. Ela não aguentava mais tal rotina angustiante e se perguntava o que estava acontecendo com eles.

A chama estava se apagando, ou já havia se apagado? Sandra decidiu perguntar a Luiz. Recebeu como resposta um murro no meio da cara. Tentou gritar, mas ele montou em cima dela, calando sua boca com uma mão e apertando o pescoço com outra.

– Sua putinha. Não encha o meu saco. É pedir demais? Não encha a porra do meu saco! Ela estava com os olhos esbugalhados e suas bochechas ficavam avermelhadas com o nervosismo – e medo – crescente. Ele chegou o rosto perto do pescoço de Sandra e inspirou o ar com toda a força do mundo.

– Que cheiro é esse? Pegou carona com aquele cara de novo, não foi?

Você é uma putinha mesmo.

PÁH! – Um tapa estalou na face de Sandra, que implorava para sair dali.

– Não! Eu não fiz nada! Por favor, amor! Pare! Por favor! Por favor! – Ela implorava.

– Agora é amor, vadia? Eu não aguento mais suas reclamações e você não me deixa em paz! E ainda mente para mim dizendo que não saiu com ele! Eu sei que saiu! Eu sei, porra! Eu deveria cortar essa sua língua nojenta! Só assim para você parar de mentir para mim! Porra!

– Eu não saí com ninguém! Eu juro! Saia de cima de mim! Saia! Por favor! Luiz ignorou os pedidos e arrastou as mãos pesadas até chegar nos seios de Sandra, rasgando a camisa e começando a lamber os mamilos feito um cão esfomeado. Ela se contorcia. “Se você gritar vai ter que mastigar a sua língua até não sobrar mais nada”, ele dizia.

Desceu mais as mãos e arrancou o jeans que Sandra vestia. Cravou as unhas na calcinha e rasgou-a feito um pedaço de papel. Ela estava cansada. Ao invés de lutar, só chorava, pois não tinha mais forças para resistir. Ele colocou o pau para fora e enfiou tudo.

Ela apertava os olhos e lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto. Ele parecia um louco; estava vermelho e as veias da testa estavam visíveis.Luiz gozou e a deixou lá, estirada no chão. Cuspiu em seu rosto e foi tranquilamente para o quarto.

Esta cena já havia se repetido quatro vezes, até que ela decidiu partir. O amor cega, e Sandra não tinha coragem de denunciar o marido. Além disso, o que as pessoas iriam pensar depois do escândalo? Ela se recompôs e saiu. Sem mais. É triste quando o amor se transforma em obsessão.

É triste, sim. Arrependido, na manhã seguinte ele ligou inúmeras vezes, pedindo perdão e jurando que nunca mais iria fazer aquilo de novo, mas Sandra não podia mais acreditar nas falsas verdades de Luiz. Ela desligou o celular, e quando ligou o aparelho novamente havia quatro mensagens de voz.

Ela estava sentada no muro da varanda da casa de seus falecidos pais. Ouviu as mensagens com atenção e decidiu ir de encontro ao querido marido.

Mensagem de voz 01:

“Amor, por favor, volte logo para casa. Por favor! Perdoa-me! Eu nunca mais vou fazer isso! Eu juro! Juro por Deus! Volta! ”

Mensagem de voz 02:

“Eu não sei o que vai ser da minha vida sem você, Sandra! Volta, por favor! Eu te amo. ”

Mensagem de voz 03:

“PORRA! VOCÊ É UMA PUTA IMPRESTÁVEL! NUNCA EXPRESSOU UM PINGO DE GRATIDÃO POR TUDO O QUE FIZ E FAÇO POR VOCÊ! ATÉ HOJE! SE EU TE PEGAR VOCÊ É UMA MULHER MORTA! ENTENDEU,SANDRA? MORTA!”

Mensagem de voz 04:

“Amor, me responde, por favor. Me perdoa por tudo o que eu disse na mensagem anterior. Eu só fiquei um pouco nervoso. Você é a minha vida. Se lembra dos nossos planos, dos nossos momentos? Por favor, não deixe tudo isso se perder! Podemos recomeçar e escrever, juntos, a mais linda história de amor. ”

Luiz estava sentado na cama quando ouviu a porta ranger. Era Sandra, e estava de lingerie vermelha. Caminhou até o marido, empurrou-o e subiu em cima dele. Ele não acreditava que aquilo estava acontecendo.

– Pensei sobre aquilo que me disse nas mensagens de voz. – Ela fez uma pausa, e concluiu: – Eu te amo. Antes que pudesse responder, ele sentiu algo o espetando e tudo ficou preto. Quando Luiz abriu os olhos, estava sentado numa cadeira. Suas mãos estavam amarradas.

Tentava gritar por socorro, mas apenas gemidos saiam da boca ensanguentada. Sandra apareceu na porta com um pedaço de língua na mão e seguiu em direção a ele. Ela abaixou, colou a boca no ouvido de Luiz e sussurrou:

– Se você gritar vai ter que mastigar a sua língua até não sobrar mais nada, querido. Ele gemia e tentava se soltar. Em vão.

– Então quer dizer que sou uma mulher morta?

Ele balançava a cabeça de um lado para o outro numa velocidade frenética.

– Eu sei que não. – Ela concordou.

Sandra pegou um papel e um revólver que deixara em cima da cama e caminhou para trás da cadeira em que Luiz estava. Colocou o papel sobre a coxa esquerda do homem e o fixou com cola. Ele estava fodido demais para se importar com um pedaço rasgado de papel.

Ela deu a volta pela cadeira e parou na frente do marido. Abriu as pernas e sentou em seu colo, esfregando-se num ritmo suave.

– Está gostoso, meu amor?

Ele tentou atingi-la com uma cabeçada, mas ela recuou e se levantou.

– Abra a boca. – Ordenou Sandra, com o revólver na mão.

Ele se negou, virando o rosto para o lado.

– Abra. Seja bonzinho e tudo vai ficar bem.

Ele se negou.

Ela mirou em seu saco e apertou o gatilho. Luiz arregalou os olhos e gemeu alto. Muito alto! Sandra mirou em sua boca, que estava exageradamente aberta e puxou o gatilho novamente.

Ela saiu do quarto, se enfiou numa roupa e foi embora. O papel ainda estava colado na coxa esquerda de Luiz. Em meio ao sangue, lia-se:

“Jaz aqui a sua ira. Com amor e sem receios. Sandra”.

Valença, 09 de dezembro de 2015 – 06:45h.

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