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Contos Minilua: Amor de morte #216

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Amor de morte

Por: Marcus Stradiotto

Muitas pessoas agora me chamariam de lunático ou me jogariam em um manicômio pelo resto da vida.Faltam vinte minutos para as seis da tarde, e o sol já está se pondo. Eu estou aqui olhando para ela desde as três da tarde, mas não me canso de admirá-la, sei que se ela acordar e eu estiver aqui ainda, serei uma de suas vítimas.

Mas morrerei amando e sentindo que fui útil a ela. Será que ela saberá disso? Deixem-me contar-lhes, enquanto o sol ainda está no céu, o que se passou nesses últimos dias em minha vida, tenho certeza que muitas pessoas não entenderão ou apelarão para seu ceticismo, procurando não enxergar o que estou descrevendo.

Moro em uma área suburbana, perto de muitas chácaras e pequenos sítios. Essa área, que no centro é conhecida como paraíso, tem sido meu lar durante os trinta anos que aqui resido, e é um lugar aprazível com muitas árvores frutíferas e sempre sopra uma brisa, que nos refresca em dias de calor intenso.

Nossa vida aqui sempre foi muito humilde e de poucas posses, tínhamos sempre o necessário, os nossos vizinhos mais próximos ficavam há alguns quilômetros, portanto, levávamos uma vida bem isolada e reservada. Pelo menos até ela aparecer…

Numa dessas noites de lua cheia, em que os campos parecem cobertos de prata, eu a vi pela primeira vez. Saí ao alpendre para ver o luar sobre os campos naquela noite, como já havia feito centenas de vezes e lá estava ela, banhada pelo luar, sua pele branca como porcelana, seus cabelos longos e pretos como a noite, soltos ao sabor do vento que soprava suavemente.

Era uma noite fria e eu pensei que ela devia estar com frio, pois estava vestida apenas com um vestido de noite que deixava seus braços a mostra. Corri ao aparador para pegar um casaco e já ia me dirigindo a porta, quando percebi que ela havia sumido na escuridão do bosque próximo.

Durante dias a fio, vaguei pelos bosques próximos e indaguei os vizinhos acerca da misteriosa figura branca que havia visto, mas ninguém parecia tê-la visto ou encontrado com ela. Prossegui em minhas buscas por mais alguns dias, e ainda durante várias noites permaneci sentado no alpendre, esperando por um vislumbre de tão bela figura.

Depois de tantos dias esperando e procurando-a, dei por encerradas minhas buscas e minha vida retomou seu curso normal, como se era de esperar em um sítio encravado nas montanhas. Retomei minhas tarefas diárias e quase esqueci o que ocorrera naquela tão estranha noite.

Porém, estávamos destinados a nos encontrar uma vez mais.Em uma noite qualquer, a chuva caia torrencial e eu precisei ir ao celeiro para fechar algumas janelas e recolher os animais que estavam fora de seus estábulos. Foi quando a vi encostada na parede do celeiro, próxima a uma das esquinas. Chamei por ela, e ela me olhou.

Esse foi um dos olhares mais profundos que tive oportunidade de fitar, era como se ela estivesse dentro da minha mente, lendo tudo o que eu estava pensando naquele momento. Naquele olhar também pude perceber uma ferocidade sem par, algo como um apetite voraz. Era como se ela estivesse me avaliando.

Tentei encetar um diálogo, mas ela permanecia indiferente e só me olhava com aqueles olhos cheios de algo como uma fome selvagem. Cheguei a pensar que a moça estivesse drogada ou coisa assim. Mas que diacho, estamos num sítio, de onde essa moça saiu?

Pensei eu. Me adiantei para tentar saber mais sobre aquela tão estranha e bela figura, porém ela de um salto, sumiu nas sombras, deixando apenas um suave rastro de um perfume um tanto doce e cúpreo. Voltei a casa intrigado e assustado, comecei a pensar que estivesse sendo assombrado por algum fantasma, alguma alma de outro mundo desejando se comunicar, mas almas não deixam perfumes no ar.

Passaram-se alguns dias e um novilho de um de nossos vizinhos foi achado morto no pasto com a garganta dilacerada, o que nos deixou muito assustados, não havia uma gota de sangue no chão e nem no animal. Ficamos todos muito alvoroçados e exigimos das autoridades a solução urgente desse mistério, até lá nossos animais não poderiam mais permanecer soltos pelos pastos próximos pois não sabíamos o que nos espreitava.

Muitos de nós, achamos que havia sido ataque de onça ou algum felino de grande porte, pois um novilho não é um animal pequeno e leve para que um homem faça tamanho estrago sem fazer uma bagunça ao redor do local da morte. Montamos grupos de seguranças e vigias que se revezavam em uma escala, de maneira que todos os homens da vizinhança colaborassem, em turnos de quatro horas, assim conseguíamos manter uma certa vigilância da estrada e arredores das propriedades, sem sobrecarregar ninguém.

Porém, em uma noite tranquila e estrelada, fomos surpreendidos em nossa vigilância, por um grito que cortou a noite e nos gelou o sangue. Corremos para o lugar do grito, e já todas as luzes da vizinhança estavam acesas e o pessoal muito assustado. A esposa do vizinho que fora alvo do ataque nos conduziu ao estábulo, nos explicando que o grito fora dela, e fora de pavor pois a cena que estávamos prestes a ver nos deixaria tão apavorados quanto ela.

Ao entrarmos no estábulo, senti novamente aquele perfume que havia sentido no meu estábulo outra noite. Memórias recentes invadiram minha mente e senti uma gota de suor frio escorrer pelas minhas costas, era o perfume dela, era seu cheiro, o cheiro daquela que viera me visitar, daquela que povoava meus pensamentos nas noites de luar.

Entramos na cocheira que estava iluminada e no momento em que passei o batente, tive de sair para uma canto para deixar o jantar daquela noite escoar para o capim. Era a cena mais bizarra e chocante que eu já havia visto, juro que nem em meus piores pesadelos vi algo tão brutal e selvagem.

Na parede oposta ao portão da cocheira, como se fosse uma pintura dessas de arte moderna, estava uma mancha de sangue fresco, como se o sangue tivesse esguichado de uma mangueira de alta pressão.

Na parede a nossa direita, dentro de um dos cochos para ração, estava a cabeça decepada, não, decepada não, arrancada do cavalo campeão de propriedade desse vizinho. A esquerda estava o corpo, já em rigor mortis, sem uma gota de sangue a escorrer dos ferimentos. E o que nos deixou mais espantados foram as marcas de mordida no dorso do animal. Houvera luta, o vigoroso garanhão havia lutado por sua vida, havia escoiceado as paredes, havia mordido e se batido para não morrer, e nessa luta voraz, ele havia sido mordido em vários lugares.

Chamamos o delegado e tivemos uma madrugada movimentada dando explicações e pedindo segurança adicional. Foi montado um posto avançado da polícia e foram destacados oito jovens policiais para realizar as vigílias na redondeza. Ficamos aliviados, mas só conseguimos dormir bem no outro dia, que correu tranquilo e sem novidades.

Em uma noite, há mais ou menos um mês atrás, depois de já termos esquecido os fatos que nos abalaram a tranquilidade naquelas noites de terror, fui até o celeiro pegar uma lanterna, pois estávamos sem energia, minha mãe pediu que trouxesse também uns tocos de lenha para a lareira, estava frio, um frio típico da região. Ao entrar no celeiro, quase desmaiei de susto, pois o ambiente estava inundado com aquele perfume inebriante e erótico.

Tive de me segurar no corrimão da escada que subia para o depósito, pois achei que ia cair ali mesmo tamanho foi o medo que me invadiu, eu sabia que aquele perfume pertencia a algo que não era desse mundo e sabia que a dona daquele cheiro inebriante e maravilhoso, era uma criatura feroz e desalmada, capaz de arrancar a cabeça de uma cavalo sem esforço.

Foi quando a vi, ali parada no alto da escada a me fitar no fundo de minha alma, e sem dizer uma única palavra ela me fez entender sua natureza monstruosa e selvagem, ela era uma vampira, uma sugadora de sangue assassina e impiedosa, toda a sua beleza nesse momento se intensificou, seus lábios vermelhos se entreabriram como que a tentar dizer algo, e eu vi seus dentes brancos e afiados como navalhas. Não disse nada, apenas flutuou sim tão leve era seu andar, flutuou até mim, até estar a um palmo de distância e meu coração gelou como se estivesse imerso em água gelada.

Abri minha boca para manifestar meu pavor e ela delicadamente botou sua mão sobre meus lábios com que pedindo silêncio, não sei porque atendi e permaneci sem pronunciar uma palavra, apenas deixei que ela fizesse o que desejava e se fosse minha morte, que assim fosse. Seu toque frio e suave acalmou minha mente e então ela depositou em meus lábios trêmulos um beijo.

Quando abri os olhos ela havia sumido, como da outra vez. Corri para fora ainda a tempo de vê-la entrar no bosque acima de nossa casa, então era ali que ela estava vivendo esse tempo todo. Pois bem, essa era a situação, tínhamos uma vampira vivendo entre nós, um monstro sanguinário e totalmente selvagem. E o que era mais aterrador, aquele beijo havia despertado algo dentro de mim, algo tão selvagem e tão intenso quanto aquele olhar que ela me lançava.

Perdi totalmente a noção do perigo, e no dia seguinte subi a colina e adentrei o bosque, andei por muito tempo sem ver sinal dela. Subi até o topo da colina de onde avistávamos todo o entorno, porém nada vi que pudesse ser o possível esconderijo de nossa visitante. Voltei a minha casa frustrado e naquele dia nem comer direito consegui. Não sei o que ela havia feito comigo, não conseguia parar de pensar nela e em seu cheiro, não conseguia tirá-la da cabeça um instante sequer.

Naquela noite, não dormi. Fiquei de vigília esperando por ela. Estava disposto a encontrá-la e se possível roubar-lhe mais um beijo, não me importava se minha vida estivesse em risco, aquilo já se tornara uma obsessão. Logo depois da meia-noite, ouvi ruídos nos estábulo e sorrateiramente me dirigi para lá afim de surpreender minha tão amada.

A encontrei terminando um banquete com um coelho, seus lábios, seu busto, seus braços e mãos estavam manchados do sangue do animal e sua expressão era de uma satisfação sem tamanho. Tive medo de ter o mesmo destino daquele coelho, realmente nesse momento tive muito medo. Ela não havia me visto até que saí das sombras para a luz fraca da lâmpada, então ela fez menção de fugir para a noite e eu lhe implorei que não fosse, ela não disse uma única palavra, apenas fitou-me como outrora, sondando meus pensamentos e minha alma.

Não havia como fugir daquele olhar sereno e ao mesmo tempo voraz e faminto. Senti como que um peso sobre meus ombros, algo tão esmagador e terrível, que congelei ali mesmo, não conseguia esboçar um movimento sequer. Ela, gentilmente se aproximou e tomou-me a mão, seu toque gelado agora morno pelo sangue absorvido do pequeno animal, olhou-me e sorriu, e com uma voz suave e erótica, pediu-me mais. Agora morrerei, pensei eu, mas estava tão envolvido, tão apaixonado por aquela demônia, que pouco me importava se ela me fizesse uma de suas vítimas.

Ela então repetiu o pedido e me fez entender que gostaria de outro pequeno animal para satisfazer seu apetite mortal, o que prontamente atendi lhe indicando o galinheiro repleto de frangos gordos e saudáveis. em uma instante ela entrou e saiu com duas galinhas grandes e viçosas e mais uma vez se refugiou para os lados do morro onde eu vagara a procurando. Mais uma vez me deixara como que enfeitiçado, inebriado por seu perfume de morte.

Estive muito doente por dois dias após isto, acredito que meu sistema imunológico foi abalado de alguma forma, pois um tremendo resfriado me invadiu na manhã seguinte me jogando na cama com febre e dores pelo corpo. Foi nesses dois dias que resolvi ir de encontro ao meu destino tão lúgubre, foi neste período de repouso que me veio a ideia de encontrá-la e te-la comigo, nem que me custasse a vida.

E foi assim que hoje pela manhã, me preparei psicologicamente, juntei algumas coisas em uma mochila, preparei um lanche para o dia e parti, esperando ter sucesso em minha busca.

E tal foi, pois após uma breve pausa para um almoço frugal e sem sabor, resolvi enveredar por umas trilhas que sabia não darem em lugar algum, mas como ainda não tinha ido por ali, achei melhor não deixar nenhum lugar sem vistoriar. Achei seu covil em uma caverna escondida há anos pelo mato alto e abundante, um lugar que recendia ao seu cheiro mortal e doce, uma gruta úmida e muito bem escondida, onde nenhum olho humano pensaria enxergar, a não ser os meus.

Porém, ainda que o cheiro dela ali fosse pungente e forte a ponto de me tontear, não vi seu corpo branco e esguio em lugar algum. Já ia desistindo desse lugar e pensando em dar novo rumo a minhas buscas, quando percebi em um canto escuro da caverna, uma pedra grande que, pelos rastros no chão, parecia ter sido movida a pouco tempo.

Aproximei-me e não precisei pensar muito, aquele cheiro de sangue fresco e morte, exalava de uma pequena fenda entre a pedra e a parede, minha doce vampira tinha se escondido muito bem, nem em mil anos eu conseguiria mover aquele pedregulho sem ajuda de pelo menos cinco homens fortes. Enfim minha busca terminara, enfim encontraria meu amor ou minha morte.

Agora, chegando a noite, me pego a pensar na vida que tive, nos dias que vivi sobre esta terra e percebo que minha existência nunca teve muita importância para ninguém. Tive amigos sim, família e um casamento que se acabou levando junto meu único filho para muito longe. Minha existência então, resumiu-se ao trabalho no sítio que era da minha família, ao encontro dominical com os poucos companheiros de lida para uma cerveja e um jogo de sinuca, nada que fosse fazer falta a alguém.

Está escurecendo, começo a temer e ficar ansioso enquanto escrevo. Estou escrevendo em umas folhas de papel que trouxe para passar o tempo e esconderei embaixo de uma pedra para que, quando a acharem entendam o que se passou em nosso lindo paraíso. Escrevo também para saberem que, se acharem esta, fui morto por um amor avassalador e voraz, algo que ninguém saberia explicar, mas que aconteceu comigo.

Quando a vi pela primeira vez, sabia que nosso destino estaria ligado eternamente, sabia que ela seria meu derradeiro desejo, meu último amor. Ao pensar nela agora, meu coração bate forte e chama por ela, não consegue se conter ao contar os minutos para nosso encontro final.

Seus olhos frios e cheios de mistério sondaram meu íntimo e sei que ela viu algo em mim, assim como eu vi nela, minha libertação de uma vida monótona e triste. Afinal, algo se moveu atrás da pedra, dentro da gruta, meu amor desperta e posso sentir sua voracidade.

Vou morrer, ela se alimentará do meu sangue e hoje ela não matará mais nenhum animal. A pedra se moveu, agora move-se visivelmente, meu último vislumbre mostra uma figura branca e cheia de fome, uma assassina perfeita, meu amor, minha morte.