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Contos Minilua: Alucinações ou não? (parte II) #111

Pois é, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, um excelente fim semana! 

Alucinações ou não?

Parte II

Por: Marcie de Andrade

Aaah! Acordei totalmente suada, como se tivesse corrido muitos quilômetros. Que sonho fora aquele?! Resolvi tomar um banho quente e relaxar. O dia mal estava começando, mas era possível perceber o clima lá fora – chuva intensa, acompanhada de um vento uivante.Depois de alguns minutos demorados embaixo do chuveiro, a luz começou a vacilar. Saí imediatamente, mas mal tive tempo de enrolar-me em uma toalha e a luz acabou por completo.

Por sorte meu quarto era bem iluminado, apesar da chuva que tornava o cenário mais sombrio do que o habitual. Vesti-me e fui até a cozinha, quando a campainha soou uníssona, quebrando aquele silêncio que só quem mora sozinho conhece.

Ao abrir a porta, porém, senti qualquer vestígio de tranquilidade esvair-se: era ele, o homem do meu pesadelo! Manuseando sua motosserra, ele se aproximou abruptamente, eu não tinha como escapar…

“Senhorita?” – eu ouvi ecoar no mais profundo do meu subconsciente e, aos poucos, despertei. Sim, havia um desconhecido em minha casa, e não, ele não havia saído de um dos meus mais intrigantes pesadelos para continuá-lo na realidade.

O cara que estava tentando insistentemente me acordar, com uma expressão assustada no rosto, era apenas o carteiro que trazia uma encomenda endereçada a mim. Ah, finalmente meus remédios haviam chegado! Assim que o tranquilizei, de maneira convincente o suficiente para que fosse embora, abri a pequena caixa que continha meus medicamentos, surpreendendo-me ao ver um pequeno bilhete posto entre duas das caixas, que dizia:

Querida Mary,

Há muito tempo não vem ao meu consultório. Gostaria que viesse, o mais breve possível, para que eu possa avaliar o seu estado. Talvez, os remédios nem sejam mais tão necessários.

Atenciosamente,

Dr. Willian A. Sanders

O velho doutor continuava preocupando-se comigo, mal sabia ele o quanto eu dependia desta medicação para manter-me lúcida. Desde a tragédia que aconteceu com minha família, há nove anos, eu não tinha ideia de como era viver sem estar dopada, sem o efeito das drogas a que eu costumava submeter-me e que só o Dr. Sanders era capaz de fornecer-me sem uma consulta em mais de quatro meses. Decidi vê-lo na próxima semana, enquanto engolia dois ou três comprimidos de uma só vez.

Durante toda aquela semana, o mesmo pesadelo me perseguiu. Todas as noites aquele sonho macabro estava lá, esperando que eu fechasse os olhos para, então, revelar-se. Contudo, os remédios não permitiam que eu voltasse a ter alucinações quando estava acordada, o que já era um grande progresso.

Na segunda-feira seguinte, fui até o consultório psiquiátrico do doutor, que me esperava com o mesmo olhar fraterno que adquirira com o passar dos anos. Conversar com ele, ainda que sobre o assassinato de meus pais, fazia-me sentir melhor, aliviada até.

– Seu estado de saúde parece estável Mary, mas os remédios ainda não devem ser dispensados. A propósito, achei que te interessaria saber que aquele maníaco homicida do Edmund Banks foi transferido do presídio para o sanatório estadual porque apresentou comportamento típico de alguém com perturbações mentais.

“Então o louco que matou meus pais e fez-me ficar sozinha no mundo aos onze anos de idade estava recebendo amenização de pena?!” Essa pergunta acompanhou-me durante todo o caminho de volta para casa, trazendo lembranças de tudo o que eu passei até então – os anos como interna no hospital psicoterapêutico, a mudança para a casa de minha única tia, a morte dela no ano passado, a vida solitária desde então, os remédios, as crises… Já bastava! Eu precisava libertar-me de todos aqueles sentimentos ruins e só havia uma forma de fazer isso: acabando com a origem de todos eles.

Aquela noite foi longa demais para mim, repleta de cenas da minha infância entrecortadas de pesadelos que invadiam o meu sono. Acordei decidida a ir até o sanatório onde Edmund estava, eu precisava rever aquela pessoa, o rosto do culpado por todo o meu sofrimento. Chegando lá, não encontrei resistência para fazer-lhe uma visita, mas fui alertada em relação ao que eu iria encontrar – nada que eu já não esperasse.

Segui um guarda por um longo corredor branco, até que paramos em frente a uma porta de metal. O guarda não hesitou em abrir a porta e empurrar-me de leve para dentro da cela, tão rápido quanto me parecia possível, dizendo-me que estaria do lado de fora caso eu precisasse. Assenti com a cabeça e, de repente, dei-me conta de que estava a poucos passos do homem que acabara com a vida de meus pais e, de certa forma, com a minha.

Ele virou-se ao perceber minha presença, tirou o capuz que encobria parte de seu rosto e olhou firmemente para mim. Mesmo não sabendo quem eu era, ele certamente achou estranho o fato de estar recebendo uma visita, aproximou-se de vagar e pegou a minha mão. Eu não sabia o que fazer, como agir, sequer sabia o que estava sentindo, eu deveria odiar esse homem, mas como seria possível odiar alguém tão belo?!

E como eu podia ter a estranha sensação de já tê-lo visto, assim como estava? Eu mal lembrava seus traços, era só uma garotinha quando vi suas fotos estampadas em um jornal velho que anunciava sua condenação. Ainda segurando minha mão, ele não parecia capaz de causar um mal tão grande quanto o que eu havia sentido na pele…

O tempo que passei com Edmund, o assassino, não comportou nenhum tipo de conversação, mas despertou em mim um sentimento indefinível. À noite, durante meu sono, o pesadelo ressurgiu e eu acordei alarmada com a descoberta que ele me havia proporcionado – o assassino de meus pais era, ao mesmo tempo, o personagem principal dos meus pesadelos!

Esperei até que o dia amanhecesse e voltei ao sanatório. Porém, ao chegar lá, percebi que algo estava errado, havia muitas viaturas da polícia e também ambulâncias. Não demorou para que eu ficasse sabendo o que acontecera – Edmund Banks havia fugido!

Quando o enfermeiro levou seus remédios pela manhã, ele o rendeu, quebrou seu braço e desapareceu, deixando apenas um bilhete que me fora entregue pelo inspetor de polícia. Com letras garrafais, podia-se ler:

Eu sei quem é você. Não se preocupe, isso está apenas começando meu amor…

Marcie