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Contos Minilua: A vigilante #29

E antes de continuarmos, gostaria de agradecer por cada conto enviado. Acreditem, vocês são os melhores. Uma ótima leitura!

                                                            A Vigilante

Por: Amanda Menezes

Ela sempre adorou desenhar. A minha irmã. Ela é muda desde o nascimento, e é assim que se manifesta. Ela desenha muito bem, desde pequena se destacava nas aulas de arte. Nossos pais morreram há dois anos, e como sou maior de idade, a guarda é minha. Eu a amo muito, e faço de tudo para fazê-la feliz. Recentemente, nos mudamos para uma casa nova.

Digamos que numa manhã de sábado, recebemos um pacote em casa. Havia uma boneca de pano muito bonitinha, cabelo e olhos escuros, pele muito branca. Surpreendentemente, estava endereçado à minha irmã. Eu estranhei, não havia remetente, mas era só uma boneca, o que havia de mal?

-Katy,venha ver o que chegou pra você!-Eu gritei da cozinha, enquanto fazia o café. Ela veio correndo e soltou um sorriso enorme quando viu a boneca. -Mandaram pelo correio, vá brincar com ela! – Ela pegou a boneca e correu para o quarto.

Ela ficou a manhã inteira brincando com a boneca e desenhando, só parava para comer. Era bom vê-la se divertindo, ela raramente ganhava alguma coisa.

Na hora de dormir, ela estava na cama como normalmente, e escreveu num papel: “A Nana disse que me ama.” Eu achei estranho, mas pensei: “Ela deve gostar da boneca”.

– Sim, eu e ela te amamos muito. -Eu disse. Eu a beijei na bochecha e a deixei dormir.

No dia seguinte ela acordou assustada. “Eu tive um pesadelo, sonhei que a Nana me sufocava!” Escreveu ela.

-Vai ficar tudo bem. -Eu disse, tranquilizando-a.Quando passei a mão no cabelo dela,vi que em seu pescoço haviam marcas roxas,de mãos.Eram mãos de adulto,parecia mesmo que haviam apertado,mas eu não falei nada para não assustá-la. Mais uma vez, minha irmã passou o dia todo brincando e desenhando, feliz, esquecida do pesadelo. Mas eu não. Como?Quem?

Segunda-feira ela levou a boneca à escola,e quando voltou,havia um bilhete em sua agenda:

Boa tarde,

A Katy apresentou um estranho comportamento na escola hoje. Ela disse que sua amiga “Nana” teria falado a ela que iria machucar a ela e a você. Nós também encontramos marcas estranhas no pescoço de Katy, e em seus desenhos havia uma mulher sufocando-a. Favor observar e conversar com Katy.

Atenciosamente,

Prof.ª Márcia.

-Katy… -Foi só o que eu consegui dizer. Havia algo errado com a minha irmã, e tinha algo a ver com aquela maldita boneca.

Eu resolvi, com muito custo, separar Katy da boneca e trancar a infeliz no porão de casa, onde Katy jamais se atrevera a ir.

“Vai ficar tudo bem agora” eu pensei. “Aquela maldita boneca vai ser esquecida e apodrecer no porão”.

O dia seguiu normalmente, Katy nem se deu por falta da boneca. Eu achei que finalmente estava tudo bem, e que não haveria mais problemas com o assunto. Eu achei.

Na hora de ir dormir, eu coloquei Katy na cama e ela dormiu rapidamente. Porém, durante a madrugada, eu escutei barulhos de coisas caindo no chão. Rapidamente, corri para o quarto de Katy.

-Katy, você está bem?! -Ela estava febril, se mexia muito, suada, assustada. “A Nana estava com uma faca!”  ela escreveu.

-Mas ela está no porão… -Mal terminei a frase, a boneca estava ao lado da cama, “olhando” para mim. -Mas como?Katy vai deitar comigo. -Ela foi para cama, enquanto eu trancava o quarto. Eu não sabia se queimava,cortava,trancava ou jogava a boneca pela janela. Estava tarde e eu queria dormir. Mas, enquanto trancava tudo, tive uma sensação estranha. Uma sensação de observação.

No dia seguinte, Katy foi para a escola normalmente, deveria ter esquecido do ocorrido.Eu resolvi nem olhar a boneca,mas pesquisar sobre o fato.De que adiantaria pedir ajuda?Ninguém acreditaria no que eu dissesse.

Pesquisei sobre lendas de bonecas assassinas, bonecas vingativas, vodu, assassinatos ligados à bonecas,tudo me pareceu bastante comum,até que Katy chegou.Eu fechei a página e fui recebê-la no portão.Quando chegou,correu para a mesa e me entregou a agenda.Outro bilhete da professora,desta vez com um desenho de uma boneca com uma faca,eu e minha irmã mortas.

Bom dia,

Eu estou preocupada com Katy. Ela fez esse desenho na aula de Artes. Favor vir à escola amanhã, depois das aulas.

Atenciosamente,

Prof.ª Márcia

O desenho parecia de uma criança perturbada. Sangue, cruzes nos olhos, e o sorriso da boneca, que tinha dentes pontiagudos e segurava a faca com prazer.

No dia seguinte eu fui à escola de minha irmã, como combinado, e estava feliz de não ter ocorrido nenhum fato estranho na noite anterior. Encontrei a professora, que me esperava com um olhar preocupado e terrível.

– Olá professora Márcia, como você está?

– Olá Ana, tudo bem? Como está Katy?

-Bem, obrigada. Na verdade, ela parece melhor.- Eu respondi, tentando esconder o medo.  

-Estou preocupada. Ela anda assistindo filmes de terror?

-Não, ela só assiste o Nick Junior, eu garanto.

-Bom, sendo assim, eu recomendaria alguns testes psiquiátricos. Ela assusta as outras crianças, diz que a boneca vai mata-la.

-O que?Não, a senhora está brincando comigo, não é?

– Essas crianças são deficientes… Já tem muito o que temer,se ficarem assustadas…

-Não!A Katy é uma criança de seis anos perfeitamente normal, ela não precisa disso!-Interrompi. Eu chamei Katy e fomos embora, batendo a porta.

Eu não podia acreditar. Ela me indicou uma clínica psiquiátrica!Era hora de acabar com aquilo. Eu resolvi mandar a minha irmã brincar no meu quarto (o dela ainda estava trancado) enquanto eu tornei a pesquisar a tarde inteira sobre lendas de bonecas e o escambau. Nada de verídico ou aceitável foi encontrado, até que achei uma matéria interessante. A matéria falava sobre a lenda de uma mulher que fazia bonecas com olhos rubros (como Nana) e as vendia.

Certo dia uma família encomendou uma boneca igual a Nana,e quando foi entregue,a mulher descobriu que não gostaram do trabalho dela,e não a pagaram pelo serviço.A mulher então ficou tomada de raiva,e lançou uma maldição na boneca:ela mataria quem estivesse na casa,cada um de um modo, através de sua espiã.Uma semana depois,a família foi encontrada morta,e a boneca ao lado.Nenhum culpado foi encontrado,e o caso foi deixado aberto.Depois do caso,as famílias que se mudaram para lá foram mortas.Todos os casos deixados em aberto,a mesma boneca foi encontrada, nenhum culpado.Isso em 1.888

-Mas o que…? – Do nada, uma horrível tempestade começa. Katy correu até mim, assustada com o barulho dos relâmpagos. Eu subitamente fechei a janela do Google. A energia acabou, e Katy começou a chorar. – Calma. Vai ficar tudo bem, está bem?Eu vou até a cozinha pegar algumas velas. -Eu acendi as velas, com medo da boneca. Do nada, eu escutei um barulho do quarto de Katy.

-Katy? – Ela vem correndo com seu bloco de notas escrito: “A janela está aberta, e a Nana sumiu!”. Eu escutei barulhos vindo da sala.Katy se escondeu atrás de mim.

-Fique aqui, está bem?

Eu fui dar uma olhada na sala e vi a mulher. Era idêntica à boneca. Estava muito bem para quem tinha 288 anos de idade.

-Corra! – Eu gritei, olhando para Katy. Nós corremos até o andar de cima, e a mulher veio junto, carregando uma faca em suas mãos. Peguei Katy no colo e nos trancamos no quarto de visitas.

-Ela não irá nos encontrar aqui! – Eu disse, ofegando. De repente, eu olho para o lado e vejo a boneca. -Sua infeliz, você estava no quarto da Katy! -A faca faz um buraco na porta. Katy chora. A mulher consegue entrar, e quando tenta me acertar com a faca, eu desvio e bato o abajur na cabeça dela.Enquanto isso Katy corre,e a mulher desmaia.”Pronto,deve dar para fugir.”Eu pensei.Mas do nada,ao olhar tranquilamente para o lado,eu percebo a falta da boneca.

-Droga, ela é amaldiçoada por quem?!-Eu gritei, com raiva. A mulher acorda ainda zonza, enquanto eu vou atrás de Katy.

Quando saio na chuva cai a ficha: “Aquela maldita boneca é o jeito que ela vê! É assim que ela sempre sabe onde estamos!Tenho que destruir as duas!”.Nesse momento,tudo que está em minha cabeça é salvar Katy.Eu olhei em volta,checando se a boneca estava perto,quando alguém me assusta me tocando por trás.Eu viro,pronta pra matar,até que percebo que era Katy,me agarrando.

-Olha só. Vamos sair daqui, está bem?

Eu fui até a cozinha, sempre de olho em Katy. Eu não poderia perdê-la. E prestei bem atenção, mas nada da monstrinha. Peguei uma vela e acendi, depois chamei Katy e fomos até a garagem. Coloquei a vela em cima do carro, Katy de olho para ver se a bruxa não estava lá.

-Vamos sair daqui. – Eu disse. Quando eu abri a porta do carro, percebi a bruxa. Olhei para o canto e lá estava a droga da Nana, olhando para mim. Parecia fazer cara de satisfação. A mulher olhou para mim sorrindo, e veio correndo com a faca. Eu abri o capô para atrapalha-la, e ela deu um golpe no reservatório de gasolina. Katy se escondeu, tampando a visão da boneca.

-Isso mesmo, Katy! – Exclamei. Agora ela estava cega. Ela pegou uma vassoura com cabo de ferro e tentou me apunhalar, acertando uma prateleira com cândida e outros produtos de limpeza inflamáveis. Caíram perto do carro.

-Katy, abra a garagem e fuja! -Ela apertou o botão do controle e saiu correndo. A mulher agora podia ver, mas estava coberta de água sanitária.

-Brinque com sua boneca! – Eu gritei, derrubando a vela em cima da mulher. Eu fugi e fechei o portão da garagem. – Nada mais vai nos incomodar! – Eu disse à Katy, enquanto nos abraçávamos e chorávamos juntas.

 O fogo se espalhou tão rápido que logo a casa toda estava em chamas. Assim que os vizinhos chegaram, eles nos levaram para a casa de um deles, onde Katy e eu trocamos de roupa e tomamos chocolate quente. Eles chamaram a polícia, e enquanto isso contamos a história toda.

-… Então depois disso a garagem pegou fogo.

– Ela morreu então? – Disse uma senhora

– Ficara viva naquele inferno, impossível. – Eu disse.

 Quando contamos a história para a polícia, é claro que não acreditaram. Acharam que era apenas uma assassina, mas como não havia provas, não é preciso dizer o porquê, o caso foi deixado em aberto.

Hoje eu e minha irmã tentamos viver bem, Katy aprendeu libras e não sofreu trauma. Mas até agora, sinto uma sensação estranha quando me lembro dessa história, como se ainda estivesse na presença da vigilante.