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Contos Minilua: A Rua 13 – o Baleado #220

Pois é, e para participar, é muito fácil! Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

A Rua 13 – O Baleado

Por: José Victor Coutinho

Eu sou Jonathan e estou morto, mas não pense que a coisa mais estranha disto tudo é ler algo que um morto escreveu, o mais estranho é o que está por vir.

Eu vivi praticamente a minha vida toda em uma rua, em um pequeno bairro na região norte de São Paulo. A rua que morei tinha o nome de “Rua 13”, mas muitos chamavam somente de “13”. E nela, ocorriam fenômenos e coisas que ninguém até hoje soube explicar. Um desses fenômenos os mais antigos chamavam de “O baleado”.

16 de março de 1978, São Paulo.

Ah, era o segundo ano morando na 13, um dia tipicamente chato. Já anoitecia, as crianças já estavam em casa, e os jovens eram moralmente proibidos pela família Müller (a família mais importante da rua) de ficar na rua depois das 21:00 horas, mas o estranho deste dia é que meus pais (por ordem do meu avó) me mandaram entrar mais cedo, algo que nunca havia acontecido.

Mas como eles sabem, eu gosto de ficar até tarde na rua com meus colegas, então insisti para ficar até mais tarde. A 13 era uma rua longa e larga, tinham algumas vielas, porém a maioria estavam fechadas, era uma rua distante das outras, por isso seu primeiro nome era “Rua morta”.

Uma dessas vielas era mais famosa, por ter um espaço maior e pelo seu histórico, as crianças brincavam de dia, e os “aborrecentes” ficavam lá à noite, entretanto quando chegamos lá, eu e meus outros dois amigos, essa viela estava vazia. Ficamos lá por uns 20 minutos esperando a galera chegar, mas como ninguém chegou fomos embora. Quando saíamos, eu senti algo estranho, um cheiro forte de pólvora e sangue, não só eu como meus amigos também perceberam isso, e em instantes, ouvimos uns gemidos vindo da viela.

“Oh, me ajude” – dizia claramente um homem, entretanto não víamos ninguém. De repente esse apelo de ajuda foi ficando mais forte, à medida que íamos nos afastando, e quando nos viramos para correr, aparece um homem ensanguentado no chão a nossa frente.

Corremos feitos louco, Guto, um dos colegas, gritava como uma mocinha. Como nossas casas eram longe, nos escondemos atrás de um muro, a uns 20 metros do homem. Quando fomos ver, o homem estava de pé, pedindo ajuda, vagando pela rua. O interessante é que ninguém foi ajudá-lo, muito pelo contrário, as casas estavam todas a “toque de recolher” como se aquele homem nem existisse.

Tudo estava indo bem, até aquele ser, começar a vir em nossa direção. – Cara, vamos sair daqui – dizia Diego, retruquei: – Vamos ajudá-lo, e ele novamente respondeu: – Cê ta louco? Enquanto discutíamos, o homem já estava a poucos metros. Percebi que tinha sido baleado, no peito, e gritei: “Quem é você?”, ele disse:

“Eu não sei!”. Fui chegando perto, e à medida que me aproximava, o seu rosto deixava de ser monstruoso e passava a ser a face de um homem comum, então o deitei no chão, e perguntei o que tinha acontecido.

“Um homem… Ele me baleou, e tinha uma mulher comigo, eu desmaiei antes de saber o que ele fez com ela” – disse o homem, eu disse: “Temos que levá-lo ao hospital, nesse estado você não vai longe”, e ele respondeu: “Não, temos que salvar a moça antes, ela está na casa número 25”. Então fomos lentamente até a tal casa.

À medida que íamos nos aproximando, fomos percebendo que aquela casa estava abandonada há décadas. Entramos e a porta estava aberta, era uma casa velha e quase caindo aos pedaços. “Não entendo… Tenho certeza que foi aqui”- dizia ele confuso. Pedi para ele manter a calma, e tentar lembrar-se dos fatos.

Ele dizia que o homem estava vestindo uma capa, e não pode ver o rosto, pois estava muito escuro. Eu e meus amigos rodamos pela casa, e não achamos nada, a não ser, uma mancha de sangue na cozinha, já estava seca e velha. Também notamos umas malas feitas. Fomos ver o estado do baleado. A bala tinha atingido o coração, não sabemos nem como ele ainda estava vivo, ficamos lá por alguns minutos esperando ele se lembrar de algo.

“Eu preciso ir, meus pais devem estar preocupados” – disse Diego, já abrindo a porta para sair, nesse mesmo instante, um homem encapuzado atravessa uma faca na mão de Diego.

E vai em direção a nós. Dizia ele: “Eu disse para vocês não irem! É proibido!”. A voz não me era estranha, mas o pior não foi isso. “O que você fez com aquela mulher?” – Eu perguntei, e ele disse: “eu matei aquela vadia”. Guto, o mais velho, foi para cima do homem, e é claro levou a pior, uma facada nas costas. Então, sobrou eu com 16 anos, e um homem baleado, contra um muro armado.

“Não se lembra de mim Jerson?”, disse o encapuzado para o homem baleado, que agora posso chamá-lo de Jerson. Na terceira investida de ataque do estranho, Jerson tirou uma arma que estava em baixo do sofá, e disparou três tiros, tirando as chances do infeliz. “Como sabia que tinha uma arma aí?” – perguntei, ele respondeu indo para o quintal da casa: “Agora me lembro de tudo…”.

Ele começou a cavar um buraco, e eu fui ajudá-lo. Aos poucos apareciam uns ossos. “Há 21 anos, esse homem entrou em minha casa, matando eu e minha esposa… desde então venho alguns anos aqui pedir ajuda para acabar com o meu sofrimento, e finalmente vocês fizeram isso. Obrigado” – disse ele. Percebi suas lágrimas caindo, e que aqueles ossos pertenciam a sua mulher.

Ele foi sumindo, em instantes não pude mais vê-lo. Era possível ouvir o som de ambulância e carros policiais. Fui ver os meus amigos na sala, estavam bem apesar de tudo. O encapuzado, diferente de Jerson, não desapareceu, ele não era um fantasma, parecia que ele mantinha Jerson calado todos os anos que vinha. Uns dias depois disso, fiquei sabendo que ele trabalhava na casa dos Müller há anos, e a polícia o ligou com a morte de Jerson e Amanda.

Eu e meu colegas ficamos “famosinhos” na rua, aliás, uma rapaz que era esfaqueado era considerado legal. Meus pais não me deixaram ficar na rua a noite, por pelo menos uns dois meses, durante esse período nada de estranho aconteceu, entretanto alguns meses depois outras coisas estranhas aconteceram, e eu estive lá para contá-las…

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