Minilua

Contos Minilua: A Primeira Vez #62

Bom, e antes de tudo, gostaria de agradecer a cada um dos participantes. Sem vocês, acreditem, nada disso faria sentido. Uma boa leitura a todos!

A Primeira Vez

Por: Waldenis Lopes

O que ela mais queria: perder sua virgindade. Esta era a sua vontade, mas… Com quem? Ela era solteira, tímida, recatada. Nunca fazia nada de emocionante. Não bebia, não fumava, não saía nas sextas-feiras. Morava sozinha, num apartamento pequeno e aconchegante, num lugar pouco movimentado.

Ela sempre sonhava com o dia em que perderia sua pureza, estava sempre imaginando como seria; se seria igual a um filme de amor ou um filme adulto. Ela não era do tipo de mulher que se tocava, não. Ela queria que alguém fizesse isso por ela, que alguém a tocasse e desejasse; alguém que a fizesse desabrochar para o prazer.

Uma mulher romântica era o que ela era. Ela só tinha um medo. O medo de se arrepender, ou pior, o medo de alguém descobrir o que ela fez. Alguém próximo, isso mancharia sua imagem pura perante todos os conhecidos que soubessem. Ela também já pensou na possibilidade de pagar um garoto de programa, mas desistia logo pelo fato de ser um desconhecido.

Mas a sua vontade estava gritando forte ultimamente. Como ocorreria? Cléo não tinha namorado. Não que ela fosse feia, longe disso! Pelo fato de ela ser retraída e recatada, os homens não a desejavam, por incrível que pareça eles a olhavam com respeito. Achavam que ela fosse uma cristã devota, mas Cléo não era. Ela apenas fora criada de um jeito conservador.

­­­— Nunca quis tanto algo como agora…

Cléo se deitou no seu sofá e ligou a televisão. As luzes estavam apagadas, a janela estava aberta, deixando entrar uma brisa fria. Sua sala era pequena e bem decorada, tudo era bem organizado, o que passava a impressão de ser um pouco maior. Ela ficou ali, deitada e trocando os canais, viajando no seu romantismo adolescente.

— Ai, parece ridículo… Mas eu preciso de um companheiro! – dizendo isso ela sorriu. Cléo tinha o costume de conversar sozinha, às vezes de frente ao espelho, como se interpretasse um outro eu dela.

Perto da meia noite, já cochilando ela despertou assustada. Olhou a hora e decidiu verificar seus e-mails. Pegou seu notebook que estava na mesinha de centro, ligou-o, checou o wi-fi e se conectou. Passeando com os olhos na caixa de entrada ela se surpreendeu com um determinado e-mail.

— O que o senhor Berilo quer comigo?

Berilo era o chefe do seu departamento de telemarketing. Um homem louro de boa aparência e com boa reputação. Ele era noivo e se casaria em breve. Todos no setor desconfiavam de sua atração por Cléo, mas ela jamais havia desconfiado de nada. Cléo também era avoada.

“Quando ler este e-mail, por favor, responda rápido. Gostaria de conversar com você, Cléo. Estarei esperando.”

O coração dela ficou apertado e lhe faltou fôlego. Cléo tinha uma paixão platônica por seu chefe. Porém avoada, nunca tinha percebido segundas intenções da parte dele. Será que…?

— Ai, meu Deus! Não pode ser verdade…

Ela respondeu o e-mail escrevendo “Estou aqui”. Um minuto depois seu celular começou a tocar. Atendendo-o e receosa disse:

— O-oi…?

— Boa noite, Cléo. Desculpe pela hora.

— Tudo bem… O que o senhor quer?

— Não me chame de senhor, sim? Devo ser apenas uns cinco anos mais velho que você.

— Ok, perdão.

— Não se desculpe.

— Então Berilo… O que quer? –Cléo estava nervosa, com borboletas no estômago.

— Eu quero você.

O tempo parou. Ela perdeu o chão e ficou sem ação. Gaguejando ela perguntou:

— Co-co-como assim?

— Você me conquistou Cléo! Desculpe-me por estar dizendo isso por telefone, mas eu não poderia mais esperar. O seu jeito meigo, sua forma de se expressar, até como você se veste. Você tem aquele mistério que eu procuro em toda mulher!

— Mistério você diz… Continue. –ela deu um meio sorriso malicioso e em seguida mordeu os lábios.

— Mas não posso ter um relacionamento sério com você. Você sabe que eu…

— Que você é noivo! Sim, eu sei.

— Aí eu queria…

— Aí você queria fazer sexo sem compromisso algum e que isso ficasse somente entre nós e as paredes? – Cléo disse isso rapidamente sem demonstrar sentimento algum.

— Bem… É-é isso… –Berilo se desconcertou – Me desculpe. Não posso ter nada, além disso, com vo…

— Eu topo!

Berilo se espantou com aquela resposta. Cléo já estava desesperada, e não se importava em ser um mero objeto dali por diante. Ela queria e ela teria.

— Amanhã é sábado. Portanto não trabalhamos. Venha ao meu apê à tarde, pode ser? –perguntou Cléo, com certeza e prontidão.

— Tudo bem, então… – Berilo não conseguia desligar o telefone.

— Até amanhã, senhor Berilo… O que foi? Quer flertar por telefone, agora? – perguntou Cléo, já segura de si, parecia que ela estava no comando.

— Não, não… Até amanhã.

Cléo desligou o celular e olhou fixamente para tela do mesmo. Ela sorriu com satisfação. Parecia que seu sábado seria mágico… Ou seria trágico.

Caminhando para o seu quarto lembrou-se de uma coisa. Algo que ela também queria experimentar. Ela sentou na sua cama Box de casal e olhou para um livro que estava jogado na cômoda ao lado da cama. Sim, ela tentaria unir essa experiência com a outra. Pensar no momento com o seu chefe a fazia gargalhar.

Manhã de sábado.

Amanheceu chovendo muito. Cléo havia saído para comprar coisas básicas para aquela tarde. Vinho (a única bebida alcoólica que ela conseguia tomar sem vomitar), salgadinhos, camisinhas… Depois de um belo banho quente, Cléo decidiu se produzir, vestir algo que ela nunca vestiria para sair na rua, algo provocante.

Após secar seus longos cabelos castanhos cacheados e de se maquiar como uma perua, Cléo colocou um vestido muito justo, tomara que caia, acima do joelho e vermelho-cereja. De frente para o espelho ela se analisou.

— Está muito linda, Cléo! Vai sair hoje?

— Não, não irei sair. Terei um encontro especial aqui em casa mesmo.

— Encontro especial? Sei bem como vai ser esse encontro… Como você se sente neste papel de vadia?

— Muito bem se quer saber. Já estava na hora de tirar meu selo não acha?

— Quem te viu quem te vê, queridinha… Vinte e cinco anos de gostosura.

— Deseje-me sorte, eu!

— Vai com tudo, eu!

Ela falava sozinha. Lembra-se? Mandou um beijinho pro espelho e se perfumou.

— Hoje tem.

Tarde. Berilo surgiu no corredor do prédio com um buquê de rosas vermelhas nas mãos. Ele tocou a campainha e aguardou. Cléo abriu a porta devagar. Ela estava a luxúria em pessoa. Sua cintura fina e quadris largos era motivo de inveja para outras mulheres. Seus lábios carnudos e olhos ferinos enfeitiçavam Berilo. Ele nunca a tinha visto daquele jeito, provocante. Estupefato com aquela visão, ele teve dificuldades em dizer um simples…

— Boa tar-tarde, Cléo. Como vai?

— Muito bem, obrigada. Entre! –Berilo entrou e entregou as rosas para ela. Ele se sentou no sofá enquanto ela colocava as flores num vaso.

— Você sabia que as rosas vermelhas simbolizam o amor e a paixão entre os casais? É sempre um grande presente, dado principalmente em datas especiais, como aniversários de namoro, de casamento, dia dos namorados, dia de sexo…

— Olha Cléo… Se você estiver se sentindo mal por isso, eu…

— Não seja bobo! – Ela pegou duas taças já cheias de vinho e se sentou ao lado de Berilo – Você sabia que eu sempre tive uma quedinha por você, chefe!?

— Não sabia…

Ela entregou a taça para ele, que por sua vez esvaziou-a com uma só virada.

— Sou virgem, Berilo. – disse isso com um ar dócil, o encarando como um bicho.

— Sério!? Puxa… Quer dizer que… Eu serei o primeiro…!? Não… Desculpe-me… Eu sei que a virgindade para as mulheres é mais importante do que para os homens… Que elas… Vocês! Querem sempre perder com alguém especial e…

— Mas você é especial. E pare de se desculpar, você é um adulto. Fica ridículo.

Berilo estava conhecendo um lado de Cléo que ele nem desconfiava que existisse. O lado da mulher segura, da mulher de opinião. Um momento de silêncio reinou naquele lugar. Cléo estava preocupada apenas com uma coisa, ela não queria que aquele ato se espalhasse. Ninguém poderia saber.

— Jura que ninguém ficará sabendo?

— Juro por minha vida.

Ela não confiava o suficiente em Berilo. Ele tinha uma boa reputação, dentro da empresa. Mas ele era um mulherengo fora dela. Cléo seria a primeira funcionária com que ele teria tal relação. Ele poderia contar o feito para seus amigos, e estes amigos poderiam espalhar por aí, e daí tudo poderia virar uma confusão na vida sem graça e sem emoção de Cléo. Ela não queria isso.

— Vai ficar me encarando para sempre? –perguntou Cléo, abrindo levemente suas pernas.

Berilo acariciou seu rosto e a envolveu em seus braços musculosos. Os dois então começaram a se beijar. Começou como um casal de namorados, e foi se desenvolvendo e se tornando algo intenso e quente. Com uma das mãos Cléo foi desabotoando a camisa de seu chefe, Berilo foi alisando as coxas da funcionária e subindo até sua virilha.

Aquilo foi ficando mais forte, mais vivo e mais selvagem. Os dois já eram um só; entrelaçados por aquela energia sexual. Berilo se despiu ali mesmo, no sofá. Cléo alisava seu peitoral, seu abdômen, e foi beijando até em baixo… Enfim. Ele arrancou o seu vestido com selvageria. A animalidade estava em seus olhos cor de esmeralda, que em meio a estalos de língua de beijos se encontravam com os olhos cor de avelã de Cléo.

Já no quarto, o ato estava se concretizando. Depois de muitos gemidos de dor e prazer, de muito suor, tudo acabara. Berilo estava assustado deitado na cama, já Cléo estava tranquila, ela havia se levantado e ido até a cozinha.

— Foi melhor do que eu pensava! Nem parecia que você era virgem! – disse Berilo em alta voz do quarto – Mas preciso ir, agora. Tenho alguns detalhes pra acertar ainda hoje sobre minha festa de noivado. É amanhã, sabia?

— Não se fala outra coisa no departamento de telemarketing, querido.

Berilo se levantou e vestiu sua cueca. Ele estava meio zonzo e sonolento. “Puxa! Foi tão bom que agora fiquei sem forças” pensou ele. Ele pegou suas roupas e iria se vestir na sala, mas quando saiu do quarto e entrou no estreito corredor começou a tropeçar em seus próprios pés.

Ele foi perdendo o equilíbrio e se encostou à parede. Foi caindo lentamente até encontrar o chão. Quando percebeu, estava em cima de um grande plástico, transparente e espesso, colocado ali como um tapete.

— Será que eu bebi demais, meu bem? –perguntou ele a Cléo.

— Longe disso, você tomou apenas uma taça, lembra-se?

— O que está…?

– Foi só um Diazepam meu bem. Coloquei uma quantia considerável na sua taça. Em grandes doses ele causa sonolência, tontura, perda de equilíbrio. Vejamos… – ela olhou para o relógio de parede da cozinha – Se passaram meia hora desde que você tomou! Agora já está em todo o seu organismo!

— Você me envenenou!

— Diazepam não é veneno, seu tolinho! É remédio! Um tranqüilizante melhor dizendo.

— Sua, sua desgraçada…

— Há alguns minutos atrás eu era a gostosa e tesuda! Como as coisas mudam rápido!

— Eu te fiz se sentir mulher!! – Berilo soltou essa frase num tom de comandante, como se Cléo fosse algo para ser domado, para ser ensinado. Ela riu.

— Não me fez querido. Não preciso de homem nenhum para mostrar o que sou! Agradeço por seu empenho e sua virilidade. Foi muito prazeroso, se quer saber.

Cléo estava com uma faca na mão e usava luvas. Ela a segurava com sua mão direita enquanto passava seus dedos da mão esquerda no fio da mesma.

— Sempre quis saber como é, sabe?

Berilo já estava imóvel, tonto, tentando se levantar sem sucesso.

— A sensação de matar uma pessoa. De ver a vida se esvair de seus olhos…

Cléo era fascinada por assassinos em série. Ela adorava tudo sobre psicopatas e chacinas famosas. Ela carregava essa ideia de matar já há algum tempo. Nada a faria voltar atrás.

— O que aconteceu aqui, permanecerá aqui.

Berilo já estava deitado de costas no chão, estirado e quase imóvel. Cléo se colocou em cima dele, apenas de calcinha e sutiã e o fitou. Segurou a faca com ambas as mãos e as levantou acima da cabeça. Berilo arregalou os olhos, uma lágrima desceu, a arma cortou o ar e se cravou no peito dele. Cortando pele, atravessando ossos, perfurando o coração.

Um gemido de angústia e dor.

Um sorriso de prazer e realização.

O sangue espirrou. Voou no rosto de Cléo, sujou suas luvas. Ela forçou a faca mais para dentro até Berilo parar de se debater. O plástico se inundou de vermelho. Não havia mais suspiros.

Após o feito, Cléo descravou a arma do peito de sua vítima. Mais sangue escorreu. Ela deixou a faca de lado, se debruçou e olhou fixamente o rosto de seu antigo chefe. Deitou em cima do corpo falecido. Alisou os cabelos louros de Berilo e beijou sua boca.

— Matar é excitante.

E cantarolando em cima do cadáver, ficou ali.

— Obrigada pelas minhas primeiras vezes, senhor Berilo. Primeira transa e… Primeira vítima.

Um sorriso baixinho ecoou por aquele apartamento.

Aquele livro que estava jogado em sua cômoda agora estava aberto. Aberto num capítulo chamado: “A primeira vez” Contos de um assassino.

Fim.

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