Minilua

Contos Minilua: A Presa #243

Suspense, mistério, terror, enfim…Todos os temas são aceitos! O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

A Presa

Por: Camila Lopes

Ela me observava do canto mais escuro do bar. Era pequena e aparentemente vulnerável. Se não fosse pelas curvas de seu corpo e o decote da regata branca, eu poderia jurar que não passava de uma garotinha medrosa e perdida.

Os cabelos loiros estavam presos no alto da cabeça num coque desarrumado, o jeans estava empoeirado e com rasgos desleixados nos joelhos, e eu estava começando a ficar realmente incomodado. Não consegui acertar uma única bola na caçapa desde que ela aparecera ali, e o pior de tudo, eu estava perdendo dinheiro, enquanto o outro cara sorria e comemorava toda vez que a bola batia nas beiradas da mesa perdendo a força e a direção, indo parar longe de qualquer um dos seis buracos.

Seus olhos estavam tão fixos em mim, que parecia não ter mais ninguém ao seu redor, apenas ela e eu. Decidi parar. Joguei o taco sobre a mesa, tirei algumas notas do bolso e coloquei ao lado. Eu precisava saber quem era ela, e por que me observava tanto. Ajeitei a jaqueta de couro e olhei em volta, todos estavam envolvidos em suas conversas e principalmente em seus copos, e eu não queria parecer suspeito, um cara de quase dois metros puxando papo com uma garota sozinha, era no mínimo estranho.

Passei os dedos no cabelo, e joguei os fios que estavam sobre os olhos pra trás da cabeça. Olhei para o fundo do bar e, lá estava ela, os olhos assustadoramente fixos em mim. Dei alguns passos e logo estava perto o suficiente para sentir o cheiro inebriante do seu perfume. Ela era ainda mais bonita! A pele alva e macia, os olhos de um azul hipnotizante e os lábios naturalmente rosados, eu simplesmente não conseguia desviar o olhar.

Ela sorriu. Um sorrido gracioso, delicado e conquistador. Deus!…Quem poderia ser aquela criatura? Um anjo talvez? Mas antes que eu chegasse mais perto, ela se virou e saiu pelos fundos, deixando a porta bater, olhei para o interior do bar, eu não estava afim de briga, e nem de passar outro noite no xadrez,  já tinha problemas suficiente. Sai depressa aproveitado toda aquela estranha distração das pessoas no bar, e lá estava ela, parada próximo ao meu carro.

Olhei para os lados e por cima dos ombros.Quantos anos ela tinha?Não iria fazer nada com uma garotinha e nem queria ser acusado disso, mas, ao mesmo tempo em que ela parecia inocente e inofensiva, também me intrigava e me seduzia. Precisava saber, antes de qualquer coisa, eu tinha que saber se ela era mesmo uma garota a fim de me seduzir para depois me roubar, ou se era eu, que era grande demais, fazendo com ela parecesse desproporcional.

Caminhei depressa para o carro, como um caçador indo em direção a sua presa, e desta vez ela não se moveu, sorriu docemente quando parei, tão perto, tão próximo que podia sentir o cheiro fresco do seu hálito subindo e me hipnotizando. Era tão pequena, tão miúda, que quando esticou um dos braços para tocar meu peito, fazendo meu corpo estremecer, tive certeza de que facilmente eu poderia devora-la.

Sem pensar, enfie a mão no bolso da calça e puxei a chave, eu a queria, eu a desejava, e ela seria minha! Abri a porta do carro e sem que dissesse nada ela entrou e se sentou. Aquilo estava ficando perigoso demais. Fechei a porta, dei a volta e me sentei ao volante.

Ficamos ali parados por alguns instantes, no mais completo e absoluto silêncio aquilo estava me torturando, me enlouquecendo, me fazendo suar. Ela estava olhando pra mim. Outra vez. Abri a boca pra perguntar, mas ela foi assustadoramente veloz, quando me dei conta, ela já estava sentada em cima de mim, com as mãos apoiadas nos meus ombros, sorrindo.

– Eu sei quem você é. Ou melhor…- Ela fez uma pausa e me olhou fixamente nos olhos. – “O que”, você é. E agora você vai ser meu! Franzi a testa, aquilo era impossível, não tinha como ela saber e, mesmo que soubesse, por que arriscaria a vida dentro de um carro a noite com um estranho?

– Não precisa ficar assim, eu já disse que sei o que você é. Aquelas últimas palavras fizeram meu sangue fervilhar, agarrei seus braços, e a empurrei pra trás, com força suficiente para prendê-la contra o volante em uma posição extremamente desconfortável.

Ela não iria brincar comigo, não comigo, se fizesse isso não iria sobrar nada e eu não poderia me culpar. Ela sorriu e depois mordeu o lábio de um jeito inocente, mas ao mesmo tempo sexual e eu imediatamente entendi. Inocente e vulnerável? Ela? Eu havia sido um idiota, ela sabia exatamente o que estava fazendo, queria me ver perder a cabeça, me forçar a ser um monstro e devora-la sem deixar sobrar absolutamente nada, a não ser manchas de sangue no estofamento novo do meu carro.

– Faça! – Ela sussurrou. Eu senti as veias dos meus braços, pernas e pescoço pulsarem, eu já estava a mil. Não tinha mais volta, ela iria morrer, eu iria despedaça-la, ali dentro do carro no estacionamento de um bar qualquer.

Iria devora-la por inteiro. Senti os ossos do meu rosto se deslocando, minhas presas aumentando, e ela me olhava como se tudo aquilo fosse divertido, e eu não estava mais conseguindo aguentar. Meus ossos se remexiam dentro da pele, causando uma dor absurda e ao mesmo tempo prazerosa, meu corpo estava junto ao dela, eu sentia seu coração pulsar contra meu peito, o sangue iria jorrar e eu não queria mais esperar. Ela havia provocado aquilo.

Me provocado. Cravei as presas em seu pescoço. O sangue quente invadiu minha boca, meu ser, me preenchendo e, o sabor da sua carne era intenso e delicioso, escorrendo pela minha garganta. Agora eu era metade homem, metade lobo. Um monstro cruel incapaz de pensar, incapaz de parar.

– Eu disse que você seria meu! – Ela gemeu.

Como ela ainda podia falar? Eu não conseguia entender, seu pescoço estava praticamente dilacerado e eu já havia me alimentado o suficiente para ela estar morta.

– Criaturas da noite que se alimentam de bruxas entregam suas vidas e sua existência a elas. Então, como eu disse…- ela fez uma pequena pausa engolindo o sangue que escapava pelos cantos da boca.

– Agora você é meu!

Continua…