Contos Minilua: A menina que queria voar (parte II) #164

E sim, para participar, não tem mistério. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente diversão!




A menina que queria voar (novas prioridades e insanidades)

Por: Garota Infernal

Ficamos assustados com a revelação de Dora.

 Donadom pôs-se a chorar e a falar que “Ela piorou, piorou, piorou…”. Pobre homem. Eu fiquei pasmo, e tentava procurar uma explicação para lhe dar, pois eu preferia pensar que ouvi errado a pensar que ele poderia colocá-la num hospício. Seu Donadom se preocupava em tentar entender por quê, até que ouvimos passos doces…

Eu sempre sei quando ela está chegando. Ela tinha uma postura muito diferente da de hoje de manhã, agora parecia dissimulada e manipuladora, dava para ver em seus olhos. Olhando fundo neles, me lembrei da mulher na rua há alguns dias atrás. O que arrepiou todo o meu corpo em êxtase e medo. Não medo de mim mesmo, medo dela.

- Estava testando-o.- Disse me olhando fixamente e encostando o ombro na porta.- Para ver se ele me deixa fazer besteira. E veio me olhando fundo, abraçou meu braço direito. - Tenho certeza de que se ele for a festa, eu também posso ir. Seu Donadom aceitou na hora, pois aquilo era sinal de que ela havia melhorado. Melhorado… O lago era um lugar limpo de “Doras” naquele dia. Com certeza ela iria escolher um vestido o dia inteiro, e seus longos cabelos…

Apesar de não precisar de nada para ser linda, mas as mulheres são todas complicadas. Então decidi que iria nadar para pensar sobre tudo aquilo, sobre a mudança estranha de Dora e o que isso fazia com minha mente. Eu deixei meus pensamentos fluírem ouvindo ruído da água e olhando o céu azul. Meus pensamentos diziam para não me preocupar e deixar parado… Mas a água sempre me estimulava a pensar, tomar decisões. Naquele momento minha melhor amiga dizia para não fazer absolutamente nada…

Fôlego? Uma mera bobagem perto da minha procura por respostas. Mas era necessário sair e respirar para que eu não morresse sem elas. Ao colocar a cabeça para fora, flagro aquela misteriosa mulher me encarando. Está se despindo. Sinto um Dejavú ruim. Sua presença é tão encantadoramente perturbadora quanto a de Dora. E elas me tiravam o ar… Não se podia respirar perto delas. Fôlego? Uma mera bobagem perto daquela curiosidade. Precisava falar.

- Hey!- Chamei a atenção. Ela sorriu e me fitou com olhar quente e tirou sua última peça de roupa, mas eu estava firme e não cairia em nenhuma tentação. - Como é o seu nome? Quem é você? Ela entrou lentamente no rio. Eu fugiria, mas minha vontade de ficar era tão grande… Ela se aproximou, acariciou meus cabelos e disse ao pé do meu ouvido. - Seja gentil com elas… - Elas quem? Ela olhou para baixo e deu um tipo de sorriso tímido, mas de quem sabe o que faz. - A que você quiser… Mas será difícil distingui-la. E ela desapareceu no ar. No ar! Eu corri como um idiota, sem me vestir.

- O que foi meu filho?- Perguntou Dona Neide. - Uma assombração, Dona Neide. Assombração, coisa ruim, capiroto, demônio, diabo! E sorri para ela não pensar que eu era maluco. Ela olhou para fora e viu a boiada passando. - Acho que não estas acostumado com os bois. - Isso!- Falei aproveitando a deixa. E comecei a me benzer.

Quando cheguei o quarto rezei tudo quanto foi terço, oração, bebi água benta… Quisera eu que aquilo tivesse funcionado. E então ouço, para meu completo desespero, os pés doces, os malditos pés doces. Logo depois as pancadas fracas de punhos graciosos na porta. Ela entra e vem logo dizendo.

- Dona Neide pediu para você tomar esse… - Para!- Interrompi. Ela segurava um copo d’água, provavelmente a Neide se preocupou com meu desespero. - Parar com… - Para! para! para, para, para!- Berrei.- Pare, Isadora…- Falei em tom de súplica.

Ela me olhou com aqueles olhos de criança assustada e deixou o copo cair. Ela se abaixou e me olhou deixando lágrimas caírem de seus olhos. - Pare de entrar no quarto assim, de surpresa… E se eu estivesse despido?- Falei calmo, tentando remediar meu brado anterior. Mas seu semblante ficou sem expressão, ela apenas me olhava, piscava e lacrimejava.

- Me desculpe, Dora… Não quis ser grosso… Eu apenas… Me abaixei para tentar aquilo com a altura. - Eu apenas errei, fui grosseiro. Ao tentar abraçá-la, ela simplesmente fugiu em movimentos lentos medrosos sem tirar os olhos de mim. Sem tirar os olhos da ameaça que eu era. Me senti desolado… A menina não era o que vinha pensando. Achava que era como se mostrara mais cedo… E, mais uma vez, quisera eu e multiplicar em 100 para fazer um verdadeiro molho com todo o meu corpo. E se eu tivesse destruído a vida dela?

Eu não podia gritar, não podia gritar! Era apenas não gritar! Mas eu era burro e alienado. Gritei. Naquela hora senti que havia perdido Isadora para sempre. O almoço entre mim e ela foi seco, mas ela mostrava sinais de irritabilidade, não a fragilidade de antes. Ela não queria olhar o meu rosto, e eu tinha medo de olhar o rosto dela. O que fiz foi comer cada garfada com gosto de fel, e ansiar por uma palavra, um olhar, um gesto ou um toque.

Na verdade, eu queria isso há muito tempo. Com o fim do almoço agonizante, ela veio até mim. Deus! Veio até mim. Seu olhar não era de raiva… - Ainda quer ir a festa comigo?- Palavras… Eu fiquei sem fala… Ela sempre me deixa sem fala. - E-eu… Vou. - Ótimo, começa às 5 da tarde, sabe? Artimanhas dos rapazes… O aniversariante é um tanto quanto superprotegido, mas vai ser divertido. Dora sorriu. Sorriu para mim. Um gesto.

Foi andando até a porta, ia sair. Não pude controlar minha curiosidade e perguntei, automaticamente. - Onde vais? Dora se virou. Um olhar. - Eu.- Disse vindo em minha direção.- Não vou ver nenhum de seus amigos, nem a casa dos seminaristas. Eu não vou a nenhum bar, nem a casa de nenhum ser do sexo masculino do qual eu possa me envolver. Não precisa sentir ciúmes. Dora beijou minha bochecha. Um toque. - Vou a casa de Paola. A mãe dela fez um vestido para mim. E saiu aos pulos de alegria.

Ela quebrou meu coração. Minha cabeça parecia um copo. Ele enchia, enchia, enchia… Até transbordar. Eu não podia suportar tudo aquilo, mesmo sem saber que coisas piores viriam a acontecer. A ideia parecia idiota ou muito aleatória, sim, mas eu precisava. Então lá fui eu pegar meu chapéu. Meu destino era a casa do psiquiatra de Dora.

Donadom disse-me onde ele morava. É um médico aposentado, ele só atende Dora por ser amigo da família. No caminho eu passei por um jardim. Ele tinha rosas brancas, o que me lembrava a inocência e beleza de Dora. Ele tinha rosas vermelhas, o que me lembrava a malícia e sensualidade.

Rosas tem espinhos, branco e vermelho são cores simbólicas nessa história. Cheguei a casa. Era um tanto quanto longe, 3 quilômetros de distância, mas a minha cabeça não calculava muito bem distância, tempo, cansaço. Eu só pensava em Dora e tudo o que ela trouxe e viria a trazer para a minha vida. Na varanda havia uma mulher, tinha seus 35 anos. Ela cantava para crianças com um violão, tocava muito bem por sinal.

- Boa tarde, desculpe o incômodo. - Ora.- Disse se levantando e me estendendo a mão.- Com quem deseja falar? Beijei sua mão, como todo cavalheiro fazia naquela época. - Com Doutor Alfredo. Ele está? - Papai está na sala de estar, lendo… Ele não gosta que incomodem… É só com ele? - Bom, na verdade estou com problemas para dormir.- Menti.

- Oh, neste caso acho que ele vai ajudar-te. Venha comigo. E vocês…- Virou-se para os pequeninos.- Fiquem aqui, não é pra sair. E ouvi uma série de “Sim, mamãe”, “Sim, titia.”, “Volte logo.” com risinhos infantis. Lembrei que até bem pouco tempo esse era o comportamento de Isadora.

A casa era, realmente, muito bonita. Grande, fresca e bem decorada, mas eu ainda tinha impressão de estar em um lugar estranho, os objetos tem uma harmonia esquisita, não é como o toca discos e o quadro de Beethoven, mais que isso… Me mandava mensagens, isso é só um exemplo, mas tinha muito mais. - Papai… Você tem visita.

Ele estava de frente para uma gigantesca estante de livros em uma poltrona vermelha… Ele colocou a mão para fora de forma que podíamos vê-la, e acenou dizendo: - Pode ir, minha filha. - Com licença.- Disse ela, olhando para mim. - Sabe, filho.- Começou.- Quando eu era jovem como você, eu fui a uma loja de penhores. Esta estante era do dono da loja… Eu gastei muito dinheiro e falácia para tê-la… Eu jurei para mim mesmo que encheria de livros, sem preconceito com os assuntos… Leria todos, com o mesmo interesse e a mesma fome…

Este é o sentido da vida. Me questionei como ele sabia que eu era jovem se nem tinha me visto? Não tinha ouvido minha voz… - Como sabe de minha jovialidade, senhor? Ele virou a poltrona e me olhou com olhar de sabedoria, sabedoria e superioridade. - Espelhos.- Respondeu.- Eles revelam as pessoas… Para si mesmas e para os outros. - Disse olhando para um espelho que havia em cima de uma mesinha perto da janela. Apontei para a cadeira em frente à mesa com um olhar de “poderia?” e me sentei quando ele acenou que “sim” com a cabeça.

- A cerca de que?- Perguntou acariciando o punho da mão esquerda. Eu estava muito receoso. Aquele homem poderia arrancar a verdade de qualquer pessoa, parecia ter o poder de controlar mentes. Quanto ele perguntou “A cerca de que?” eu iria dizer “Dora, sou apaixonado por ela e ela me faz ter vontade de me matar!”, mas pensei melhor e selecionei minhas palavras. - Dora… Estou começando a ter uma amizade com ela, mas não entendo a forma como age. Ela é infantil, as vezes… O que ela tem? Ele agilmente respondeu. - Nada. Ela não tem nada. Quando Rosa, a mãe dela, morreu ela se sentiu muito sozinha. Rosa sim tinha problemas

- Que problemas? Ele sorriu, assim, intimamente. - Ela não deixava a filha ter amigas, se tornando a única amiga de Dora. Era a única pessoa com quem brincava. Rosa morreu quando Dora tinha 6 anos, e a menina se refugiou em seu mundo interior, era onde sua mãe estava viva. E ela se preservou como uma criança, até agora. Mas é só uma fase, é como ela encarou o trauma, Donadom disse a todos que ela é doente por medo…

Para protegê-la do mundo. Ai está uma atitude que nunca aprovei. Estranhei a rapidez da resposta e a traição do código de ética médica. - E o seu problema? Sem família, um desconhecido, forasteiro. Qual se objetivo aqui? - Nenhum, senhor. É que tudo aqui… Me tratam bem. - Nem tudo é o que parece. Ele parecia me desafiar em cada palavra, em cada olhar. Alfredo me dizia com os olhos “O que vais dizer?” - Eu costumava ir e não voltar… Agora eu sei que eu nunca mais vou precisar ir. - Nunca tenha certeza, nunca se assegure, nunca faça planos. A vida é uma gota da água no mar… Não se sabe o que acontece com ela e ela é insignificante para o resto do mundo. Nunca diga nunca.

Ele se levantou da poltrona e guardou seu livro vermelho do qual não me recordo o título. - Donde vais?- Questionei. Sentia que ele tinha algo para me ensinar, e que deveria ficar atento. Alfredo me olhou e deu um sorriso irônico. - Estou gasto… Quando for velho vai sentir grande necessidade dos bem-vindos descansos diurnos. Aproveite sua energia… O porão. Quase me esqueci. - Senhor?- Perguntei. - A mãe de Dora tinha uma estranha brincadeira com o porão. Sempre quis investigar, mas agora não tem importância… Julgo eu que Isadora está curada. E se foi com sua bengala subindo o lance de escadas.

Aquele ser me dizia tudo enquanto não dizia nada. Não vi outra opção se não voltar para casa. “Tudo se encaixa. Dora não é doente, apenas sente falta da mãe.” Dora nunca foi santa. Ignorei as mulheres nuas na água, ignorei tudo pois… Sim. Eu iria a uma festa acompanhado por Isadora. Seu nome ecoa na minha cabeça e eu sussurro sem querer… Quando botei meus pés sobre nosso tapete com a simpática saudação de “Boas Vindas” senti o cheiro… Aquele cheiro. Cheiro do bolo de laranja de Dona Neide, e eu começava a associar ela a uma figura de mãe. Mãe que eu nunca tive. - És um menino bom, Gustavo.

- Dizia Neide enquanto acariciava meus cabelos. Eu estava um tanto quanto desconfiado, sempre ficava. Isso é algo que mudou em minha personalidade. Virei em direção para ela sem controlar meu olhar de bicho assustado. - Você foi muito bom comigo e com José, como um filho. Não tens família? Família. Assunto do qual ela nunca havia abordado. Não só ela. Ninguém. - Pode parecer brincadeira mas…

Nunca tive. Eu estava em casa, mas não estava em um lar. Mamãe era uma dondoca que gastava horas em festas de caridade, mas não percebia que seu gesto mais nobre seria me ajudar, ser uma mãe para mim. Papai era um burguês capitalista que só se importava com dinheiro, me colocaram em um colégio interno quando eu completei minha primeira década. Fiquei lá até os 18 anos, sem visitas…

Eu nem me lembrava do rosto deles… Fugi de tudo o que tinha a ver com eles e virei mascate. Ela me olhou de forma doce e sincera. Um olhar que só uma mãe pode lançar. - És meu filho de hoje em diante, e eu sou sua mãe. Boas novas, José volta amanhã do hospital! Meu coração se encheu de alegria com a notícia mas não tirou de minha mente aquelas estranhas questões que voltavam como raios. Algumas horas depois eu estava sendo engravatado pela minha, quem diria, mãe! Suas mãos ágeis acabaram o nó que, para mim, era a própria alameda do diabo. - É um homem feito, tem que aprender a fazer isso!- Dizia ela, em tom de “mãe”. - Eu sei, mas não sou bom em fazer nó…

- Que tal estou?- Perguntou Dora, fazendo aquelas gracinhas como colocar as mãos na cintura e dar rodopios. Lá estava ela, Isadora. Ela não tinha nada de especial. Ela vestia um vestido branco típico das meninas de sua faixa etária. Ela usava o mesmo batom vermelho-sangue. Ela usava as mesmas sapatilhas que iria deixar de lado para dançar. Ela estava com o cabelo trançado da mesma forma…

Mas ela,ELA… ELA! ELA. É que o vestido acentuava suas curvas e todos iriam querer devora-la como o morango mais bonito. É que o batom vermelho-sangue era um convite para um beijo em seus lábios carnudos e macios. É que as sapatilhas desprezadas… Quem dera fosse para ela dançar com eles. É que a forma como ela enrolava as mechas soltas do cabelo dela era motivo para agarrá-la ou trancá-la em um quarto e mandar nunca mais fazer isso. Ela era o pecado do mundo. Minha mente era a forca do mundo.

- Está linda, criança.- Exclamou Neide. Criança… Isso me fez sentir a culpa dos primeiros dias. Minhas pupilas deveriam estar do tamanho de uma azeitona, eu perdi o fôlego. Isadora simplesmente vira minha cabeça. - Acho melhor irmos logo… Onde está papai? - Ele está dormindo, teve uma péssima noite de sono perturbada por dores de cabeça. - Neste caso não pretendo acordá-lo. Ela olhou bem fundo nos meus olhos. Não faça isso, Dora. - Podemos ir? - Claro. Você quem sabe o caminho, então…

Ela sorriu e me puxou pelo braço. Saímos no crepúsculo ouvindo os “Vão com Deus”, “Tomem cuidado”, “Voltem cedo” de mamãe. - Sabe, Gustavo. Não conheço Adriel, mas Paola conhece e diz que é um bom rapaz. O que pensa a cerca de Adriel? - Não conheço.- Mas parecia que eu tinha dito “Afaste-se dele.”.

Ela se silenciou por um tempo, até que abriu um largo sorriso. - E Paola? Acha ela bonita? Era a regra dos homens. Nunca dê muito confiança para uma mulher. - Sim, acho. Chegamos ao aniversário. Uma festa bem grande, tinha a impressão de que toda a população de Minas Gerais resolveu ir à festa. Tinha muita carne, dança e música. Mas ainda era uma festa para jovens. Quando passamos da entrada do sítio, nossos mundos se separaram.

Ela era Isadora, amiga de Paola. Eu era Gustavo, amigo de Rafael. Aquela festa não merece ser descrita pois o que realmente aconteceu foi no final. Eu estava de saco cheio, é que Fabrício havia bebido demais, a ideia boba de Daniel, comprar bebida, levar algumas meninas para um canto escondido do sítio e fazermos nossa própria festa.

Teria dado muito certo se Fabrício não tivesse se embebedado e vomitado no vestido de uma garota que saiu chorando e correndo em busca de sua mãe(?). Fabrício estava ferrado. Os outros foram levá-lo para casa, e eu fiquei pois precisava ficar de olho em Dora. Senti um sopro no meu ouvido e me virei. - Dance comigo, Gustavo.- Pedia Dora. - Mas, eu…

- Apenas dance comigo. Seus olhos penetraram o fundo do meu ser. Não tinha como não dizer não. Começamos a dançar lentamente. - Gustavo! - O que foi?- Falei sentindo o cheiro de seu cabelo. - O que pensaria se eu te dissesse que eu tenho asas de verdade? Eu sorri para ela pensando que ela queria dizer uma outra coisa, mas eu percebi o que ela dizia quando acariciei suas costas e senti asas nela. Ela sorriu e eu fui ver o que havia e não havia nada.

- O que há, Gustavo?- Indagou. Naquele momento eu percebi que a linha entre a lucidez e fantasia em minha cabeça estava por um fiapo…

- Mas o motivo por sua solidão por toda uma vida é uma menina? Uma menina de muitos anos atrás?- Perguntou o médico que estava sentado ao meu lado. - Aqui estou, Doutor Oliveira, em meu leito de morte. Eu disse para o senhor que era uma história trágica, e agora começa o meu sofrer. Todos os enfermeiros que haviam cuidado de meu câncer estavam ali. Eu não tinha salvação, então o que fiz foi contar minha história, e eles estavam ouvindo atentamente a cada palavra enquanto eu voltava no tempo para contar minhas doces desventuras de 1945…

Por que 3 anos se passaram após Dora começar a arruinar o meu juízo de vez. No começo eram uns vultos, umas pessoas esquisitas. Mas nessa altura eu estava quase sufocando, me sentina uma pessoa amarrada dentro de um barril que enchia, enchia, enchia de água.

Tudo o que fiz foi dar ouvidos a Paola quando dizia que eu precisava de alguém para me divertir e de uma garota bonita para ir a festas e todas as baboseiras daquela época, e não foi surpresa quando a mesma revelou que esta garota era ela. Consumido pelo ódio e pela loucura, eu aceitei. Todos os dias eu ouvia os passos doces, mas quando eu ia atendê-los não era ninguém.

Eu tinha meus 23 anos completos! Datilografava para a polícia agora, e Dora havia mudado bastante, ela ainda tinha sua essência de menina, mas agora era uma menina-mulher. Eu não comia, não dormia direito. Eu pensava em, qualquer dia desses, pegá-la pelo braço e levar para longe. Como eu iria viver com ela? Como isso seria possível? Um grande dramalhão é o que parece, mas eu não tinha saída, eu não conseguiria… Eu dormia com Paola e sonhava com Isadora. Só neste dia as coisas foram diferentes, eu tive um experiência que nunca havia tido. Eu estava deitado em minha cama. Até que ouvi um pequeno choro.

No meu automático fui ver o que era e me sentei. A beira da cama surgia uma cabeça, um bebê, se bem que putrificado e meio azul, se tratava de um cadáver. Este bebê começou a se desmanchar, e seu molho de sangue virava vários bebês, e eles diziam que eram filhos de Dora, que eles iriam sofrer. E foi ai…

Foi ai que eu vi… Se tratava daquela mulher, a mulher que apareceu pra mim… Ela nunca mais havia me atormentado, pois havia mandado seus cervos.”Quando Satanás não vem manda empregados!”, mas ela era mais perturbadora, pois ela encantava. Ela, agora, tinha asas negras e vinha com suas palavras que, naquela época, eu não podia entender - Deixe que ela voe, está pronto para dar suas próprias asas a ela?- Disse dando uma gargalhada em seguida.

- Deixe-me em paz!- Exclamei com a garganta em chamas.- Deixe-a em paz! - É como separar o pó da água… Nem tente! Você é fraco… Mas deixa, ela mesma chegará até você. - Eu não tenho medo de você!- Menti.- Eu sei exatamente o que diz!- Menti.- Estou seguro!- Menti.- Confiante!- Menti. - E você é só coisa da minha cabeça. E de repente tudo acabou, assim, como um vulto que vem e vai embora.

- O senhor nunca pensou em ir a um psiquiatra?- Perguntou o Doutor, se aproximando de meu corpo “Quasimoto”. - Não… Naquele tempo nós enfrentávamos nossos demônios com nossa própria fé…Ou força… Ou convivíamos com eles e era o que eu fazia, foi o que eu fiz por toda a minha vida. Acordei de súbito como se o pesadelo não houvesse acabado. Ouvi os pés doces a beira da minha porta e a maçaneta girava sutilmente. Eu achava que era um sonho. Era um sonho. Dora vinha nua, como na primeira vez. Mas agora era diferente.

Me encarou por um tempo enquanto eu contemplava sua beleza dos céus. Seu corpo era perfeito, e ela agora tinha uma postura sedutora. Mas algo estava diferente nela. Isadora se aproximou de minha cama e sentou em cima de mim. Eu ia dizer algo, mas ela tapou minha boca.

- Xiiiu, menino doce.- Dizia me olhando com desejo.- Sem palavras, apenas gemidos. Eu quero ser sua. Sucumbi. - Eu não preciso dizê-los o que aconteceu depois…- Disse com um ar triste. E então chamei o Doutor Gabriel, um homem de seus 40 anos para perto. - Eu?- perguntou apontando para si. Oh, a marca de maquiagem de palhaço ainda estava em seu rosto. - Você precisa ouvir. Ele se aproximou solicito e segurou minha mão.

Eu tinha que contar. O que aconteceu foi que no outro dia, Dora não estava mais lá. A única coisa estranha era a cama, banhada de sangue, muito sangue. O lençol era vermelho de sangue, até que todo o sangue foi evaporando e flutuando até se separar até não existir. - Muito bem, Gustavo…

- Ouço bem perto do meu ouvido. Era o sussurro daquela mulher. Morrendo de medo, puxei o lençol para me cobrir completamente. Eu pensei em chamar a mamãe, em tudo, mas a coragem faltava. Mas o que mais me assombrava era a ideia de que a noite com Dora havia sido nada mais que uma ilusão, alucinação. Talvez eu devesse me consultar com aquele psiquiatra, minha cabeça está ruim já há algum tempo.

Também não é nada edificante ficar a escrever depoimentos cheios de atrocidades todos os dias, isso acaba com a energia de uma pessoa, e a cabeça também. Eu não aguentava mais, tudo me sufocava de todos os lados, eu tinha que dar ponto nisso… Mas qual era a solução? Uma pistola ou uma corda e um carro?

Sim, a pistola para estourar logo meus miolos perturbados, e a corda para amarrar a Dora… Que se dane, a infantilidade está apenas no olhar dela… Meus olhos verdes só passavam tristeza, eu era um maníaco, um morto vivo. Uma mentira. Os momentos bons em minha vida se resumem em uma grande mentira. Eu ouvi os passos doces, e agora os passos doces me fazem lembrar de tudo, do bebê, do êxtase, da mulher, do sussurro, do grito, da unha, do pé, do fio de cabelo… Toc, toc, toc! E todos os pensamentos foram abortados.

- Gustavo, preciso te apresentar uma pessoa!- Gritou Dora. Me vesti bem rápido e abri a porta. Esperava por tudo, pelo diabo, por Deus, pela morte, mas nada iria me fazer ficar tão boquiaberto. Eu estava abismado, chocado! E quem ela queria me apresentar? Quem se não uma cópia dela?

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 - Gustavo, esta é minha irmã, Bela. Ela esteve em um reformatório para meninas e agora voltou. Eu não pude esconder minha surpresa. Eu só via os lábios delas falando, mas não ouvia nada. Era como estar debaixo d’água.

- Por que nunca me falaram sobre ela?- Perguntei desconfiado. - Papai não gosta de falar, ela fez coisas erradas, por isso foi ao reformatório. Bela estendeu a mão para mim, mas eu não conseguia pegar. - Isabela!- Exclamou. - Gustavo, seu criado… Eu parecia um espantalho dormente que sofreu um AVC. 

- Espero que sejamos amigos!- Disse balançando minha mão. Oh, amigos, o que fazer se não pegar minha lâmina de barbear e cortar minha garganta ali, na frente delas? Duas Doras? É a loucura. - Você está bem?- Perguntou Dora, checando se eu estava com febre. Eu não respondi, eu ainda estava perplexo. - Você não jantou, veio direto para o quarto, ela chegou ontem antes da janta. Gustavo, você comeu? Eu não podia responder.

Não podia, as palavras não saiam. - Ele está anêmico. - Fraquinho!- Disse Bela pegando minha mão.- Precisa comer algo, Gustavo. Olha, no reformatório diziam que peste com fome não atrapalha!- Falou-me sorrindo. Eu sorri e segui ela. Dora não ligava, ficou em silêncio olhando para o teto. Comi o que Bela me dava enquanto contava suas histórias do reformatório.

Donadom estava irritado com isso, ele dizia para ela: “Bela, isto não é motivo para orgulho” e ela dizia “Ooops, pai-nosso rezarei!”. Ela era muito mais extrovertida que Dora. Ela era leve e tinha um ar rebelde e arrogante, mas era muito boa gente. Na verdade, pela primeira vez em anos eu estava feliz, ela me fazia sorrir. 

- O que você fez, hein?- Perguntei segurando sua mão e desenhando círculos sentindo sua pele macia. -Ah, coisas que eu não me lembro mais… Na verdade foi uma idiotice… - Ela deu um sorriso triste. Ironia? Faz todo o sentido…- Não quero lembrar. - Se você não se lembra é porque não é importante. Ela deu um sorriso realmente feliz. - E então, como foram os anos neste hospício?

Eu não podia me atrever a ser sincero. - Bom, sua irmã vêm melhorando. - Hum, bom pra ela.- Falou pegando um cigarro do meu bolso. - Isso não é para menininhas como você!- Falei arrancando-o. Ela olhou para os lados e constatou que não tinha ninguém em casa. - Você…- tentei perguntar, mas ela me empurrou no carpete. - Eu não sou tão menininha assim, Gustavo! - Bela… Ela se sentou em cima de mim e ficou olhando-me. - Ponha um sorriso nesta tua cara, menino… Aquilo me fez pensar, “Será que foi ela?”…

Nem me ousava a perguntar. - Melhor sair, seu pai pode interpretar mal e eu preciso ir ao trabalho. - Eu também tenho crimes para contar, Gustavo. - Sim, você tem, mas vai me pagar para escrever? Ela se debruçou em meu peito com o rosto deitado em seus braços cruzados e me lançou um sorriso encantador… Naquele momento, não existia mais Dora. - Não, você quem vai querer escrever.- Sim, eu vou querer escrever, amor meu… Era o que estava pronto para dizer. Mas eu não podia.

Eu me levantei, e ela foi se erguendo encostando em minhas pernas, como uma cobra deslizando. - Vai implorar. - Bela… Não! Ela sorriu de novo, aquele sorriso natural, sem sarcasmo. - Eu não mordo! Eu estou apenas brincando, eu sou uma garota de respeito. Olhei para a mesa que havia na sala e em cima dela havia uma carta para mim. Fui ver. Esquisito, sempre que me mandavam alguma coisa alguém avisava.

- O que é?- Pergunta Bela me abraçando por trás. - Meus pais… Meu pai está doente e eles querem que eu tome o controle da empresa. - Que empresa?- Perguntou. - A maldita empresa da família. Só se preocupam com o dinheiro…- Falei suspirando. - É triste quando os outros te obrigam a fazer aquilo que você não quer.

Me surpreendi com meu próprio ato: me despedi dela com um beijo na testa. É que eu só beijo a testa de quem amo muito… Não entendo este gesto, mas pra mim parece o carinho mais bonito, um carinho inocente… Algo que você só compartilha com quem gosta de verdade. Você pode beijar uma prostituta, mas você deve se afastar dela quando beijar sua testa. Perguntei para Donadom sobre Bela e a resposta foi:

- É uma vergonha, uma degenerada, se bem que coitada pois sofreu com a morte da mãe. Mas amo-a, talvez você possa colocar um pouco de juízo na cabecinha dela? És um rapaz tão íntegro, honesto, trabalhador, esforçado… Para resumir, passei tempos ótimos na companhia de Bela. Ela era a face próxima e divertida da Dora… Se bem que Dora não era mais tão importante para mim, e eu comecei a perceber um certo ciúmes.

Eu ensinava leitura a Dora, mas agora eu nadava com Bela. Eu sentava ao lado de Dora no almoço, mas agora eu e Bela pegávamos nossos pratos e íamos para a varanda conversar. Bela tinha esse jeito sedutor, mas era com todos, fazia parte de sua essência. Mas tudo virou de cabeça para baixo naquele sábado. Era chuvoso e frio… Dora piorou, surtou.

A gata estava grávida, havia parido. Donadom confiou que Dora estava curada, por tanto, contou que os filhotes eram do próprio filho da gata. Dora enlouqueceu. - É UM PECADO, UM PECADO, UM PECADO, UM PECADO SEM PERDÃO!- Exclamou aos berros e lágrimas. Eu senti pena e Bela ficou assustada.

- VOCÊ, TEM TUDO  A VER COM VOCÊ!- Disse apontando para Bela.- VOCÊ TROUXE O DEMÔNIO PARA CASA, VOCÊ TROUXE O MAL PARA CÁ E DESTRUIU TUDO… TUDO, TUDO,TUDO, TUDO,TUDO… - Você trouxe o demônio para cá…- Falou Bela, bem baixinho. - O QUE?- gritou Dora. - VOCÊ TROUXE ELE PRA CÁ! Com medo de seu Donadom ficar doente, mamãe mandou eu resolver. - Ou será que quer que eu mostre o livro para papai? Hein? O livro que a mamãe te deu…

- Você tem inveja por que eu ainda falo com ela!- Dora agora tinha um sorriso sarcástico e louco, que junto com seu rubor e lágrimas traziam uma face escondida de Isadora. - Você está louca, Isadora, louca! Mamãe está morta! - Não, ela fala comigo, me prometeu que vai me ensinar a voar, ela disse!- Disse com convicção. Ouvi miados esquisitos e fui olhar a varanda. A gata chorava e quando fui até a caixa vi a coisa mais grotesca: dos 5 filhotes que haviam, 4 estavam com os pescoços quebrados, mortos. - Dora!- Gritei. Ela me olhou com raiva, mas seu sorriso ainda jazia ali. Eu não podia acreditar…

- Monstro!- Exclamou Bela. Ela olhou brevemente para Bela antes de correr em direção a caixa, e eu tentei pega-la mas era tarde demais: Ela torceu o pobre pescoço do último filhote vivo. - Pronto, o primeiro sacrifício está feito. E então veio o médico por trás dela, dando-lhe uma injeção para que durma. Acho que a mamãe quem chamou, ou Seu Donadom, ou qualquer outro hóspede. - Pobre moça… Perdeu a razão. Vê-la estendida no chão foi horrível, e elas falavam da mãe delas… Eu deveria tirar essa história a limpo. - Vamos ver como ela reage ao remédio, talvez tenha sido apenas um surto…

- Disse o médico fazendo não com a cabeça como quem diz “Morreu muito jovem.”. - Eu não acredito que esteja louca.- Falei. - Vamos deixá-la dormir… Colocamos ela na cama e fomos dormir. Antes de abrir a porta do quarto eu precisava matar minha curiosidade. - Que história era aquela da sua mãe? - Mamãe… Nada… - Que livro? O que foi? - O livro… Mamãe fantasiava muito e…- Ela hesitou em dizer. - Continue, conte até o fim. - Dora sempre amou pássaros e a mamãe deu um livro pra ela, desde então era gosta de pássaros, e… - Você não fala coisa com coisa…

- Poxa, Gustavo, não faça-o difícil! - Ajude-me a te ajudar. - Não temos salvação… É tudo o que posso dizer.- Seu olhar era o de um náufrago que não podia se movimentar. Não há saída, não há volta. Abriu a porta e me deu um último sorriso.

Um sorriso triste. Irônico? Faz todo o sentido. Pela manhã tivemos a constatação de que Dora estava louca, ela dizia ser Bela, dizia que não podia ser levada, dizia “Por favor, não me levem! Eu sou Bela!” Tive pena dela, pena do que ela se transformou. Ela era tão linda, eu amei-a com todo o meu ser. Sofri por ela e hoje ela se vai dessa forma. - Bola pra frente!- Exclamou Bela ao ver Dora ser levada no carro do manicômio. - Por favor, precisam acreditar em mim, eu sou Isabela!- Gritava Dora.

O carro se foi levando meu amor adormecido. Ela segurou minha mão e debruçou seu rosto em meu ombro. Eu ainda não acreditava, foi uma hipotermia. - Preciso falar-te, Gustavo. - Tudo bem. Eu fechei os olhos e deixei uma única lágrima cair antes de irmos até o “Nosso lugar da varanda.” - Sem rodeios… Estou grávida e o filho é teu!- Disse daquele jeito direto dela. - O que?- Parecia que eu tinha acordado com blocos de gelo em cima de mim. - Desde que eu te vi eu desejei, eu fui até o seu quarto, você não prestou resistência e eu estava em meu período fértil, eu…

- Explicava de uma forma ingênua e engraçadinha. - Donadom vai me matar!- Falei levando minhas mãos a cabeça. - Já era de se imaginar, Gustavo! - Me recuso a acreditar, é uma de suas brincadeiras… - Não, Gustavo. Eu te amo, e quero ter esse filho com você. Gustavo, se eu não te amasse eu iria embora daqui, me virava… Mas tudo o que eu penso é que uma vida sem você não faz o mínimo sentido. Bela pegou minha mão e deitou em seu ventre. - Gustavo, você quer se casar comigo?

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