Minilua

Contos Minilua: A Menina #125

Sim, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

A Menina

Por: Vítor Basílio

A menina acordou assustada. Onde estava? O que havia acontecido? Os olhos embaçados. Esfregou-os lentamente. Reconheceu seu quarto com alguma dificuldade. Estava escuro, as cortinas fechadas. Seus brinquedos cobertos. Bonecas, pelúcias. Será que a mãe resolvera dedetizar a casa? Não, a menina estava ali dentro, não fazia sentido.

Ela se levantou da cama sentindo o corpo muito leve, como se fosse feito de isopor. Alcançou a maçaneta e a girou. A luminosidade do corredor fez seus olhos doerem. Caminhando devagar, a menina observava as paredes atentamente, à procura dos pais a fim de esclarecer aquilo. Chegou à cozinha e encontrou a mãe sentada à mesa. A mulher fixava o tampo do móvel, os olhos perturbadoramente encovados. Sua respiração era quase imperceptível. A menina se assustou ao vê-la daquele jeito.

– Mamãe? Mamãe, o que aconteceu? Por que você está assim?

A mãe continuou imóvel. A menina resolveu se aproximar. Mal moveu as pernas quando ouviu o barulho da chave na porta principal. O pai chegara. Inconscientemente a menina saiu correndo e se escondeu atrás da porta. Ele entrou no cômodo. Tinha o rosto fechado, numa mescla de pesar e enfado. A mãe apenas ergueu os olhos.

– Muda essa cara, Mariana. Não adianta ficar assim, não vai resolver nada – disse o homem se sentando em frente à esposa.

– Como você pode dizer tal coisa? – rebateu a mulher saindo de sua apatia – Como você pode ser tão frio? Isso não é algo simples que pode ser processado instantaneamente.

– Eu sei. Eu quero apenas que você não torne isso maior do que é.

A mulher ficou lívida.

– Roberto, pare e pense um minuto sobre o que você está me pedindo. Faça isso um momento e reflita, por favor.

– Olha Mariana, é o melhor pra nós dois. A melhor opção dentre tantas ruins. Tente me entender.

A mulher voltara a sua posição inicial. O homem suspirou alto e foi até a geladeira. Apanhou uma lata de cerveja e tornou a se sentar.

– Eu só quero que você saiba que esse divórcio não será fácil para mim também. Nós temos uma filha, pelo amor de Deus!

– Então por que você não pensou nela antes de se meter com aquela vadia?

De trás da porta a menina olhou abismada para a mãe. Nunca a vira usar aquele linguajar antes. O pai ficou sem resposta. Deu mais um gole na cerveja.

– Eu sairei logo de casa. Vou começar a arrumar as malas daqui a pouco e passarei a noite em um hotel. Resolvemos o resto durante a semana.

– Quero que isso seja o menos penoso possível para a Jéssica – disse a mãe.

– Claro, eu também. A última coisa que quero no mundo é machucar a minha filha.

A mãe ia repetir a pergunta de há pouco, mas desistiu. Não adiantava. O pai terminou a cerveja, se levantou e foi até a pia, onde deixou a lata. Saiu da cozinha e foi para o quarto, deixando esposa e filha sozinhas.

Os pais se divorciando? Jéssica não podia acreditar. De repente sentiu seu corpo ser tomado por uma corrente de frio, um zumbido alto dentro de sua cabeça e o chão amolecendo. Ela se debatia violentamente.

Então tudo parou. Retomou bruscamente a sensibilidade de seus membros. Estava deitada em sua cama, coberta dos pés a cabeça. Lentamente descobriu o rosto. O quarto estava em perfeita ordem, seus brinquedos, bonecas, pelúcias. Não estavam cobertos como antes.

Por que estariam? Olhou o relógio no criado-mudo. Cinco da tarde. De qual dia? A porta do quarto se abriu. A mãe entrou a passos lentos, abatida e cansada. Parecia estar a vários dias sem dormir.

– Oi filha – sua voz estava ligeiramente rouca – dormiu bem?

– Não, mamãe, tive um sonho muito esquisito. Você e o papai estavam sentados na mesa da cozinha falando sobre divórcio. E eu estava escondida atrás da porta, ouvindo tudo.

A mãe encarou a filha com surpresa. Depois deu um sorriso forçado e lhe afagou os cabelos.

– Filha, vem aqui um instante. Tem uma coisa que você precisa saber.

A menina desceu da cama, deu a mão para a mãe e a seguiu. Novamente a claridade do corredor, em contraste à escuridão do quarto, feriu seus olhos. Esfregou-os com a mão livre enquanto caminhava. Chegaram à sala. Assim que cruzou a divisão entre o corredor e a sala, a menina estacou. O pai estava em pé próximo à porta, com três malas grandes em volta. Seu semblante se assemelhava com o que a menina vira no sonho.

– Filha, sente-se. O papai tem uma coisa a dizer pra você – falou o homem se aproximando da filha e a guiando até o sofá.

Ele pigarreou, torceu as mãos, deu uma volta ao redor da mesinha de centro e começou.- Filha, eu acho que só há um jeito de dar essa notícia, e é sendo direto. Sua mãe e eu decidimos nos divorciar.

A menina encarou o pai por um longo tempo. Depois rolou os olhos até a mãe, chorando baixinho no canto da sala. Prontamente sentiu a familiar corrente de frio, o zumbido alto na cabeça, o chão amolecendo. Só que dessa vez muito mais forte, como se seu corpo fosse açoitado por descargas elétricas de alta voltagem. De repente…