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Contos Minilua: A manhã mais fria #260

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A manhã mais fria

Por: Jonas Vinícius

Tudo começou num atípico domingo de manhã – fazia um frio muito incomum, tanto para época, quanto para Belo Horizonte. – um domingo que aconteceria algo muito estranho, que mudaria para sempre minha vida, todavia, devo relatar alguns fatos chaves acontecidos três dias anteriores a este, começaremos então com a quinta-feira.

[ Quinta-feira ] – Dia 12 – Noite

Estava voltando de um curso técnico que fazia no período da tarde no centro da cidade, o prédio da instituição ficava a distância de minha casa, então apressei-me, peguei a primeira lotação e literalmente corri para a estação de metrô onde aguardaria por mais quarenta minutos.

Tudo ocorreu como planejado o metrô veio e diferente de outras ocasiões estava, se é que pode-se dizer, vazio, claro que não havia lugar para se sentar, contudo, haveria espaço suficiente para não ser incomodado por ninguém, viajei tranquilamente por mais ou menos metade do percurso, foi então que as coisas começaram a ficar estranhas, porque a partir desse meio trajeto algumas coisas bizarras começaram a acontecer, alguns podem dizer: “não passa de coincidência” – porém eu ainda noto a importância desses fatos para o que aconteceria na manhã de domingo, vamos aos fatos:

Primeiro, as estações que eram menos movimentadas, onde os bairros eram de menor importância ou não eram tão ativos como em outras partes apresentavam movimentações incomum, entretanto, as pessoas dessas estações não embarcavam, ficavam meramente olhando para frente como se aqueles vagões abertos em sua frente não existissem, as pessoas dentro do trem também não notaram isso, ficavam ao celular, muitos os quais sequer perceberiam a entrada de um assaltante ou algo do tipo, fiquei surpreso com isso e resolvi fazer o mesmo que os outros passageiros, e é aí que algo que eu considero uma peça chave aconteceu, primeiro era a data, meu celular marcava um horário incompatível com a do metrô, apesar deste ser sincronizado com a Internet, enquanto o do metrô batia às 19:30 meu celular exibia em sua tela 6:30 da manhã anterior, se você for uma pessoa bem analítica já percebeu o porquê disso ser importante, se ainda não, nem terei o trabalho de explicar, afinal há incógnitas ainda mais complexas para serem resolvidas, e essa deixarei para o final.

Cheguei em casa, fui direto para minha cama e dormi numa profundidade como nunca antes havia dormido, acordei às 23:40, minha mãe estava gritando, parecia que havia se machucado, prontamente corri para ver o que estava acontecendo e encontrei no quarto meu irmão mais novo, meu pai e um outro vizinho, eles estavam em torno da cama,e tive que empurrar um pouco entre eles para conseguir visualizar alguma coisa, notei meio sem jeito que minha mãe estava chorando, já não gritava mais.

Perguntei o que havia acontecido, e segundo ele, ela, minha mãe, se sentirá mal a noite, porém não conseguia explicar o porque, pois não gritava ou chorava por dor, mas por um sentimento triste, irremediável.

Era como se por um momento ela percebesse que Deus havia a visitado, e seu perfeito vislumbre a fizera chorar pelas podres imperfeições humanas que possuía, enquanto ele me contava notei naquele instante duas coisas que os demais não haviam observado – primeiro a cama, o lençol que cobria a cama possuía várias palavras, que apesar da escuridão vislumbrava como: Deus, Perfeição, Humanidade e Hóspede; de acordo com as horas, na verdade essa foi a mais surpreendente, o relógio do quarto dos meus pais não mostrava 23:40, havia transcorrido um tempo até então, e sim, 10:40, isso me espantou muito, analisando bem poderia ser apenas coincidência, mas algo me dizia que não, comecei a notar uma relação entre os fatos que ocorreram comigo com os delírios de minha mãe – creio eu que você já tenha notado algumas coisas estranhas até aqui, talvez você diga que foi mera coincidência, mas, se você for alguém mais observador, perceberá que não é apenas coincidência.

Decidiram levar minha mãe ao hospital, não consegui dormir muito bem a noite, mas o fiz em recomendação ao meu pai, ele disse que não poderia faltar nem a aula nem ao curso por uma coisinha boba como essa, meu irmão mais novo – ele tinha 14 anos, três anos a menos que eu – foi dormir na casa de minha vó, e eu insisti em ficar em casa, onde o resto da noite transcorreu quieta e melancolicamente.

[Sexta-feira] – Dia 13 – Manhã

O dia seguinte raiou claro e quente, o relógio do meu celular despertou e havia retomado ao normal marcando 6:10, hora em que normalmente acordo para ir a escola, os eventos que ocorreriam nessa manhã não seriam tão relevantes quanto os outros, porque em suma, resumiria-se a ligações do meu pai sobre o estado de saúde de minha mãe – ela estava bem, voltaria para casa amanhã, e não se lembrava dos acontecimentos da noite passada – o relógio do quarto dos meus pais, que agora marcava 17:20, enfim, ainda no quarto deles encontrei quatro anotações de nomes de remédios eram eles: Dilena, Urbanil, Sulpan e Elum, todos descobri mais tarde eram remédios tarja preta, contudo sabia que minha mãe não utilizava desses químicos, claro, para ter certeza revirei todo o quarto e como previa nada encontrei, sai de casa e cheguei uns 20 minutos atrasado, como não podia entrar antes do sinal para o próximo horário aproveitei o momento para analisar algumas das coisas que havia encontrado naquela manhã.

Peguei meu caderno e anotei todos os fatos em ordem cronológica, aproveitei a empolgação e escrevi até mesmo sobre os fatos ocorridos no dia anterior, obviamente minha prioridade foi para os remédios, talvez uma mensagem subconsciente que minha mãe estava querendo passar, infelizmente demorei um pouco para entender, e era realmente isso, uma mensagem estava escondida entre os nomes dos remédios, era tão simples que me envergonhei de não tê-la notado, espero que até esse ponto você já tenha descoberto do que estou falando, se não, serei generoso dessa vez e explicarei; na verdade os nomes dos remédios quando ordenadas formam a palavra Deus, veja: Dilena, Elum, Urbanil e Sulpan, era simples de mais, mesmo assim levei um certo tempo para descobrir e ainda mais para aceitar o fato disto ser realmente uma mensagem. O sinal toca, vou para a sala de aula e finjo prestar atenção, enquanto na verdade fico em delírios pelo que está acontecendo.

Dia 13 – Tarde

Quero lembrar antes de prosseguir que isso não se trata de um diário ou algo do gênero, é apenas uma forma de organizar cronologicamente todos os acontecimentos antes da manhã do dia de domingo.
Após a aula corri para pegar o ônibus para me dirigir ao curso, que ficava tão distante da escola como da minha casa, o tráfego estava muito intenso, então levei o dobro do tempo para chegar, e quando cheguei, enfim, algo assustador havia acontecido, o professor de responsabilidade social havia se suicidado no prédio, obviamente em consequência as aulas haviam sido canceladas, não pude entrar no prédio, e o corpo, que ainda estava lá dentro, não pude ver.

Descobri algum tempo mais tarde que ele havia se suicidado com um tiro em frente a secretaria, uma outra colega me contou que ele estava estranho naquele dia, e que falava coisas sem sentido, vi que não tinha outra saída e tive de ir embora, depois disso esqueci completamente dos acontecimentos recentes, apesar de não ter convivido muito com o professor, ele era novo e estava substituindo temporariamente uma outra professora, sentia que tinha perdido alguém próximo. Depois de tudo isso decidi visitar a minha mãe que estava em um hospital próximo, não perguntei nada sobre a noite passada nem sobre o suicídio do meu professor, ela convenceu-me a dormir na casa de minha avó, foi o que fiz sem nem mesmo relutar.


Dia 13 – Noite

Cheguei na casa de minha avó, meu irmão estava assistindo TV, e minha avó, como que por instinto, entupiu-me de comida e perguntas sobre o estado de saúde de minha mãe, felizmente uma senhora que morava perto veio visitá-la, aproveitei a oportunidade e fui para o quarto, logo ao entrar fui seguido pelo meu irmão, ele me olhava surpreso como se estivesse temeroso quanto a algo, e então se ajoelhou ao lado de minha cama, e chorou, chorou como se alguém muito próximo estivesse morto e estirado a sua frente, fiz de tudo para acalmá-lo e quanto mais o fazia mais chorava, tentava entender mas não via lógica em tudo isso, estendi minha mão e dei-lhe um tapa fortíssimo no rosto, as marcas de minha mão ficaram marcadas em seu rosto, ele parou de chorar, então, aproveitei e pedi para que me contasse o que estava acontecendo, ele apenas me disse, Deus não permite intrusos.

“Deus não permite intrusos”
Na verdade ele detesta tudo o que é relativo, tudo que trás mudanças, afinal Deus não seria apenas o absoluto ?

[Sábado] – Dia 14 – Inicio da Tarde

Não sei como, mais acordei apenas na tarde do sábado, de acordo com meu celular 13:00 horas, pergunto-me o que havia acontecido comigo depois da conversa com meu irmão, apenas percebi que ele não se encontrava na cama, nem mesmo minha avó estava na casa, tudo estava vazio e mórbido. Procurei algum bilhete, nessa busca encontrei apenas um prato sobre a mesa com comida, parecia quente, então presumi que ela a fizera recentemente e saíra com meu irmão para comprar algo, porém, algo estava errado, algumas coisas nunca seriam feitas na casa de minha avó, primeiro a TV estava ligada em um canal de notícias, sem que ninguém estivesse assistindo, segundo a torneira do banheiro aberta fortemente, como se estivesse assim apenas porque queria, foi então que notei um padrão estranho em tudo isso, os jornais daquele dia estavam noticiando um forte tsunami ocorrido na costa leste do Japão, na região de Kanto, antecedido por um terremoto – coincidentemente seu nome era algo como Kami – com um escala de 8,0 na escala Richter, porém, de acordo com alguns correspondentes não se tinha conhecimento de quantas pessoas haviam sido vitimizadas pela catástrofe.

Fui ao banheiro e fechei a torneira que estava aberta, sim eu a esqueci, sentei em frente a televisão com alguns papéis e anotações sobre tudo o que estava acontecendo e o que já tinha acontecido, desde a modificação na hora e data do meu celular, ao repentino desaparecimento de minha avó e irmão, não contei quanto tempo fiquei em frente a TV, apenas lembro que adormeci.

Dia 14 – Algum momento da tarde – Sonho

Deus é o absoluto, ele é o tudo, e o nada, é o tempo e o espaço, ele não criou a humanidade, criou o universo, somos apenas consequência da existência do mesmo. Não sabia onde eu estava nesse sonho, não conseguia enxergar, todavia, não havia escuridão, não existia luz, nem fluxo de energia, como eu sabia disso ? Neste sonho eu poderia sentir tudo, porém não sentia nada, talvez eu estivesse morto, e se eu nunca tivesse existido todo esse tempo ? então o que eu fazia naquele mundo, naquele universo.
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Dia 14 – Noite

O sábado já estava terminando quando acordei, meu celular estava desligado, a televisão contudo permanecia imutável, a única coisa que havia mudado era o fato das reportagens de tremores terem cessado, o que passava naquele momento era um pronunciamento do então Presidente da República, a televisão não reproduzia mais o som, a estática rompeu com qualquer possibilidade de escutar.

Desliguei a televisão e terminei de anotar todas as informações que já tinha, liguei novamente a TV, e o que vi foi surpreendente, de diversos pontos o programa exibia pontos do céu europeu, norte-americano e de certas localidades da Asia, e a coloração era estranha, não era azul, negro ou vermelho, estava simplesmente com uma coloração alaranjada, as pessoas destas localidades corriam com medo, não sei explicar por qual razão, mas, vendo eles correndo daquela maneira me fez querer fazer o mesmo, foi o que fiz, peguei os papéis com as anotações que tinha, coloquei-as em uma mochila, assim como alguma comida e, decidi a partir dai, ir para o hospital, onde minha mãe a muito já deveria ter saído.

Fui ao ponto de ônibus do bairro, nada. Nem sequer um carro passava, nem pessoas estavam transitando, senti no meu bolso meu celular vibrar, ele estava carregado, 45 por cento de bateria, uma mensagem estava registrada nele, nela dizia: ” Vamos encontrar a mãe enfrente ao Bar Lundin” – ao lê a mensagem minhas pernas quase que instantaneamente enfraqueceram, cai de joelhos olhando para tela, a data da mensagem era do dia anterior, a 13 horas atrás, enviada por Elaine; Elaine, resolvi responder a mensagem, e enquanto a fazia, perguntava quem era, onde estava, e outras coisas fundamentais, alguma coisa me dizia para não o fazer, mais fiz como obrigação, entrei em um bar, que apesar de estar aberto não se encontrava uma alma viva, sentei em uma das cadeiras e tentei raciocinar, agora chegamos em um momento que vamos juntos rever tudo o que anotei, os fatos e acontecimentos desde então.

Primeiro, as horas de qualquer aparelho eletrônico próximo a mim marcava 13:00 antes ao do horário comum; Segundo, sonhos e delírios com Deus por parte da minha mãe, que inclusive deixou uma mensagem oculta em um papel; Terceiro, o suicídio de meu professor, poderia ser meramente coincidência, mas algo me dizia que não; Quarto, terremotos em toda Asia, liquidando com toda costa leste do Japão, nomeado como Kami, ou Deus, outra coincidência ?; Quinto, uma mensagem de treze atrás de uma pessoa que não conhecia, pessoas que lotavam regiões que comumente eram vazias, e que não percebia a presença da condução, bem como os passageiros de dentro não percebia a estranheza desses atos. – com tudo entre as entrelinhas decidi ligar a TV do estabelecimento, dessa vez a estática não atrapalhava, porém o que me chamou atenção era a chamada da noticia: Projeto Deus – tudo começava a encaixar, comecei a prestar atenção nas noticias, mas, anotava toda a informação que passava em baixo da televisão. Uma série de mensagens subsequentes veio ao Projeto Deus, entre elas coisas como, Tempo, Vida, Novo e Apocalipse, um cientista estava sendo consultado na ocasião, ele dizia que não sabia-se o que estava acontecendo, os sinais de rádio falhavam, e a possível causa seria uma forte tempestade solar. Eu sabia que não se tratava disso, é algo mais, virei a noite e o domingo chegou.

[Domingo] – Dia 15 – Manhã – Juízo final

Chegamos ao ponto chave, eu diria ao ponto crucial, onde tudo mudaria a partir das coisas subsequentes a madrugada do dia de domingo, durante esse período as temperaturas caíram drasticamente, a cada hora que passava o clima esfriava um grau, as moléculas não tinham mais motivos para se movimentarem e, estavam parando gradativamente até atingirem a marca de pesadas névoas, a televisão do bar não funcionava mais, os equipamentos com certeza estragaram por causa do frio.

A mensagem foi respondida, assustei-me com isso, e ainda mais com a possibilidade do meu celular ainda receber mensagens, no momento pensei se tratar de meus familiares, algum parente, porém não era; Elaine, novamente essa pessoa, e ela me respondeu, me chamou de Arthur, e disse que os dias deles juntos foram perfeitos, mandou algumas fotos em anexos, e então a imagem que vi foi algo que me fez entrar em pânico.
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Doppelgänger, segundo tenho conhecimento, trata-se de uma cópia maligna sua, quem a vê terá má sorte ou morrerá após o encontro, porém o que vi não era um doppelgänger, a pessoa que vi não se parecia em nada comigo, suas roupas, aparência e sorriso, nem ao menos o lugar era semelhante, contudo, senti que eu era aquela pessoa, ele me equivalia e eu a ele, a sensação dos abraços nas fotos dele com a que supus ser Elaine, eu conseguia sentir, era como se eu estivesse namorando com ela o tempo todo. alguém entrou no bar correndo, era um homem de branco ele estava sujo de sangue e com uma arma na mão, não sei o que aconteceu, ele atirou em mim, e eu morri, não sei o que aconteceu com esse universo, não sei o que aconteceu com meu irmão, minha avó ou mesmo meus pais.

[Arthur] – Seminário cientifico de 2010 – Espaço e tempo

Contei tudo que vi, sei que não sonhei com tudo isso, o que vi e senti foi real, eu entrei em contato com outro mundo, com outras pessoas, vivi em uma universo que em sua morte estava colidindo com outro muito maior; O nosso, neste universo a pessoa que me equivaleria morreu baleada por um louco, não sei o porquê.

Apenas com essas informações não consigo resolver essa equação, mas, algumas perguntas me vêm a mente, o que seria Deus ? Por que nosso universo está intacto ? Poderá acontecer o mesmo conosco ? – aos que não acreditam podem nomear-me como louco, aos que acreditaram tirem as suas próprias conclusões, eu continuarei a minha investigação, aos interessados em breve trarei novidades, boa noite.