Contos Minilua: A lápide na neve #99

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A lápide na neve

Por: Lucas Garibaldi

Olhei para cima, o céu estava nublado e tinha um vento estranho soprando no ar. Não havia uma alma sequer nas ruas e o único som que era possível ouvir eram os das folhas que se arrastavam pelo asfalto.

Eu estava sentindo um ligeiro desconforto desde que havia chegado neste lugar, aparentemente abandonado. Era como se eu não fosse convidado, como se eu estivesse invadindo algum solo antigo e sagrado, como se houvesse alguma força adormecida que não quisesse ser perturbada, mas ao mesmo tempo, sentia que não seria uma boa ideia tentar fugir.

Engoli seco e comecei a andar, seguindo a rua que estava em frente a mim. Ela estava tão vazia e um silêncio tão profundo cercava o lugar, que eu podia ouvir o ecoar de cada passo que eu dava. Olhei para os lados, todas as casas pareciam estar vazias por muitos anos.

Jurava ter visto vultos brancos fugindo rapidamente do meu campo de visão em algumas janelas. Claro que aquilo fizera meu coração se acelerar um pouco, mas o que mais me deixava desconfortável, era o fato de eu não poder ver o fim da rua. Era como se ela continuasse em um declínio gigantesco.

Não sei por que, mas me senti muito cansado de repente, meus passos começaram a ficar cada vez mais devagar, e logo eu estava ofegante. Mas, o pior de tudo, é que tive uma vontade súbita de chegar ao final da rua o mais rápido possível, estava com aquela sensação de estar sendo perseguido, como todos nós temos uma hora ou outra.

Juntei coragem para olhar para trás e tive vontade de gritar. Havia uma pessoa, ou coisa, no início da rua que agora parecia estranhamente longe. Por mais distante que ela parecia estar, eu ainda conseguia ouvir sua respiração. Era abafada e longa e me fazia sentir imensamente inquieto.

Tudo aquilo não fazia sentido. Como eu podia ouvir tão bem sua respiração quando a coisa estava tão longe a ponto de eu não poder discernir sua figura? Ainda mais, ela exalava uma aura maligna, uma aura perigosa.

Eu sabia que tinha que manter distância, mas eu estava tão cansado e minhas pernas não pareciam querer obedecer. Senti minha espinha se arrepiar, agora, meus passos não eram os únicos que retumbavam naquela rua sem fim, olhei para trás novamente apenas para ver a criatura começar a caminhar sem pressa.

Foi aí que decidi correr, não importava se os nervos das minhas pernas explodissem, não deixaria tudo acabar ali. Mas quando me preparei para fazer tal ato, me surpreendi. A fadiga já não estava mais lá, ou melhor, era como se ela nunca tivesse estado. Era como se minha mente estivesse pregando truques em mim e rindo cada vez que eu os descobria.

Após o que pareceu ser dez minutos depois cheguei até o “final” da rua, ou pelo menos até a parte em que meus olhos alcançavam. Nunca em minha vida havia sentido tanta desesperança. A rua não continuava em uma descida, e sim acabava em um abismo.

Era impossível ver o outro lado da rua, se é que havia algum outro lado. Não duvidava que ali talvez fosse aonde o mundo acabava. Olhei para baixo. Também não podia ver o fim do abismo. Era escuro lá dentro e eu não tinha chance alguma de sobreviver à queda. Talvez tudo devesse acabar ali.

Virei para enfrentar minha ruína apenas para descobrir que a criatura havia sumido. Não tive tempo de respirar aliviado, pois senti algo puxar o meu pé. Não consegui nem ao menos perceber quem havia feito aquilo, pelo o que eu sabia eu podia ter muito bem tropeçado, talvez fosse minha mente pregando outra peça.

Mas nada aquilo importava, pois já era tarde, eu estava caindo. Caindo naquele abismo que talvez não tivesse fim. Talvez eu caísse pra sempre ou talvez eu simplesmente virasse uma confusão de tripas quando finalmente chegasse ao chão. Mas o que aconteceu não foi nenhum dos dois.

Eu caí com um baque surdo. Estava deitado em algo fofo e muito gelado. Abri meus olhos alguns segundos depois. Era neve. Levantei-me e vi que eu estava em um bosque no qual o chão estava coberto de neve, e percebi que ela ainda caia suavemente, fazendo o cobertor gelado ficar cada vez mais grosso.

O que mais me aliviou foi que agora eu podia ouvir sons. Sons de pássaros e sons de um rio correndo em algum lugar perto dali. Mas também já deveria ter percebido que nada que é bom durava naquele mundo de desolação. Eu senti um frio imenso dentro de mim que não era causado pela neve ao ver que a criatura no qual eu havia me perseguido estava diante a mim. Era um homem no final das contas.

Pelo menos eu acho. Não pude dizer por que ele usava uma máscara de gás. Uma daquelas que a infantaria alemã havia usado na primeira guerra mundial. Era por isso que sua respiração soava tão densa.

Encaramo-nos por algum tempo até eu tomar coragem e perguntar o que ele queria de mim. Ele me deu uma pá que eu nem havia percebido que ele estava carregando. Depois ele me apontou para um pedaço de pedra talhado em um canto do bosque. Sem saber por que, tomei a pá de suas mãos e andei até onde ele apontara e vi que era lápide.

Não me surpreendi ao ver que era o meu nome que estava escrito nela, de alguma forma, eu já esperava aquilo. Perguntei para o homem se ele queria que eu cavasse o meu próprio túmulo. Ele não respondeu e nem acenou com a cabeça, apenas continuou me encarando. Eu estava prestes a perguntar novamente quando ele ergueu sua mão em direção a mim. Ele estava segurando um pedaço de papel.

Aproximei-me e cautelosamente aceitei. Nele havia escrito uma só palavra: “LIBERDADE”. No começo eu fiquei desapontado, mas logo meus olhos se arregalaram, pois tudo fazia sentido. Era isso. Eu só precisaria cavar para terminar tudo aquilo. 

Ignorei o frio que lentamente congelava meus ossos e cavei. Cavei por horas a fio com a estranha figura me encarando. O homem usava várias camadas de roupa preta, talvez por isso que ele não tremia ou demonstrava sinais que sentia frio. Mas também suspeitei de que mesmo se ele ficasse completamente nu o frio iria afetá-lo.

Por mais que ele tivesse forma de um homem, duvido que ele fosse algo humano, duvido que ele pertencesse a esse mundo ou… ao mundo que eu costumava viver. E sua máscara… Sua respiração me incomodava profundamente e até cogitei pedir para que ele a retirasse, mas fiquei com medo do que eu poderia ver o que havia por detrás dela.

Finalmente, o buraco estava cavado. Mais ou menos do meu tamanho exato. Larguei a pá que caiu sob a neve fofa. Eu não sentia mais minhas mãos e pés e por mais que estivesse sentindo um frio terrível, não estava com o mínimo sinal de febre, gripe ou hipotermia.

Alguns segundos após o homem da máscara perceber que meu trabalho estava feito, o vi puxando uma pistola que estava bem camuflada entre suas peças de roupa. Engoli seco, mas sabia que aquilo fazia parte. Respirei fundo e disse “Estou pronto”. Posicionei-me de um modo que tivesse certeza que cairia exatamente dentro do meu túmulo e esperei. O homem apontou a arma para mim e atirou sem delongas.

Escuridão. Tudo era escuridão. Agora tinha certeza que tudo havia acabado. Abri meus olhos. Eu estava acordado.    

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