Contos Minilua: A investigação #171

Pois é, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!




A Investigação

Por: Elson Miranda

Puta que pariu! Que fedor de merda! Parece até que acenderam um incenso de bosta aqui! – Gregório tapava o nariz com nojo! – Rindo descontroladamente.

- Fala baixo porra! Dona Marlene, a viúva, está na cozinha preparando café pra gente e foi muito gentil em ter nos acompanhado até aqui -  O detetive Ivan Lemos fechou a porta com força! - O que mais você queria? O coitado foi todo retalhado nesse quarto,  espalharam as vísceras do infeliz pelo chão, por isso fede tanto! Com tantos anos de trabalho, vendo estes mesmos cenários, é muito estranho que você não tenha se acostumado, hum?

– O detetive Ivan acendeu um cigarro, deu uma tragada e soltou uma nuvem de fumaça que ia se desfazendo até chegar no teto, enquanto isso com uma trena tomava medidas das marcas de sangue pelas paredes!

- Então vamos agilizar logo essa sua reconstituição, afinal a perícia já foi feita e tudo foi fotografado, só voltei aqui por pura insistência sua! Minha garganta está seca de vontade de tomar uma gelada! – A impaciência de Gregório era algo que não atrapalhava em nada a concentração do detetive Ivan, desde que começaram a trabalhar juntos a uma semana.

- Algo está errado aqui! Tem um ponto nessa cena que não se encaixa! – Ivan girava olhando o chão, para Gregório e depois apontava para o teto.

- Cara, a viúva está com o braço quebrado e a cara toda ferrada, além dos inúmeros ferimentos sofridos pelo corpo, ela está até parecendo a porra do Frankenstein, só escapou porque fingiu que estava morta. Ela já nos informou no interrogatório que eles foram atacados por um maluco sádico encapuzado, que fez toda essa barbárie com eles.

Agora ela está sob proteção policial 24 horas por dia, só foi liberada para vir até aqui com a gente. O que mais você está procurando? Não tem mais nada, ponto final! Vamos embora logo daqui! – Gregório já estava ficando aflito – “Em algum lugar nessa maldita cidade tem um bar com uma cerveja estupidamente gelada me esperando”, pensava ele querendo se ver livre daquele lugar o mais rápido possível.

- Calma! Nem sempre a verdade está no que nos é dito meu camarada! Dona Marlene poderia estar nos escondendo algo, por isso temos que procurar um pouco mais, tudo parece estar exatamente como foi relatado, mas não é o que eu estou vendo aqui! Repare nesse ponto onde o cadáver estava caído e a direção do sangue enquanto ele estava sendo golpeado.

A direção dos golpes fizeram estas marcas na nossa frente pelo chão até chegar no teto e devido ter alcançado o teto, com certeza foram golpes violentos e rápidos, este alguém estava possesso de ódio e pelo ângulo dos esguichos de sangue e a posição do assassino sobre o corpo no momento dos golpes, o assassino deveria ter provavelmente 1,80 de altura, certo?

- Sim. Concordo! E agora entendi porque me chamou para te ajudar na sua reconstituição, porque tenho altura compatível. Ok! Mas e o que isso tem a ver com a viúva, a Dona Frankenstein? – Gregório fez uma cara nitidamente sarcástica.

- Simplesmente porque ela mentiu no depoimento! – Nesse ponto o detetive Ivan olhou para Gregório com mais atenção.
- Você está dizendo que… – Gregório sorria nervosamente.
- Isso mesmo meu camarada! Não houve nenhum arrombamento para invadir a casa e eles não abririam a porta para alguém desconhecido, pois já era tarde da noite! Ela mentiu sobre a casa ter sido arrombada.

- E por que diabos ela faria isso? Afinal a perícia concluiu que a casa havia sido de fato arrombada. Por que encobrir o assassino?  – Gregório sentia o chão se abrindo.
- Você já vai saber. Primeiro porque alguém muito esperto estudou a rotina dos dois e planejou o ataque, bem que poderia ser alguém da própria família, hum? Ele entrou pela janela do quarto que já estava aberta, atacou os dois e antes de sair, simulou o arrombamento da porta dos fundos.

Portanto, Dona Marlene em seu depoimento, não quis que o caso ficasse ainda mais complicado. E o que dizer dos dois filhos do casal? Não se tem notícias dos dois a mais de 30 anos, pois foram deixados para adoção sabe se lá onde.

- Cara, a mulher está toda esculhambada! Acha mesmo que ela iria proteger quem quer que tenha feito isso com eles? A perícia foi feita, houve arrombamento, havia sinais de luta, mas não havia resíduos de pele debaixo das unhas do defunto, nem cabelos ou impressões digitais, nem nada em lugar algum.

O assassino estava encapuzado, sequer falou uma única palavra durante todo o tempo. Tudo muito perfeito! Com certeza algo vindo de uma mente doente, mas daí querer envolver a  Dona Frankenstein, eu acho muito improvável. Pelo o que você me disse antes de sairmos para cá, um dos filhos já estava sendo localizado e está para chegar a qualquer momento, acho que talvez ele possa nos dar mais algumas pistas que nos leve para alguma direção, algo mais concreto, no entanto…

- Ele não vai chegar! Disso eu tenho certeza!
- Porra Lemos! Agora você está pegando pesado! Que palhaçada é essa?
- Ele não vai chegar… porque ele já chegou!

Nesse momento, alguém bate na porta:
- O café está pronto! – Dona Marlene os convidava com voz chorosa.
- Em um minuto eu já te explico tudo! – Ponderou o detetive Ivan.
Caminharam até a sala de estar, Gregório pegou uma xícara de café, tomou alguns goles meio sem jeito. Ele queria mesmo era sair logo para tomar uma bendita cerveja, aquela conversa toda estava deixando ele suando de nervoso!

De repente ele se sentiu tonto, a xícara caiu de suas mãos e se espatifou no chão. Ele tentava falar, mas estava se sentindo sufocado, se apoiou com uma das mãos na parede e foi deslizando até tombar no chão. Ele olhava com os olhos arregalados para Dona Marlene e para o detetive Ivan, esse último sorria…

- Gregório! Gregório! Sua máscara caiu! Achava mesmo que não seria descoberto! Não existe plano perfeito, meu camarada! A propósito eu consegui um vídeo de monitoramento da casa dos vizinhos ao lado, você se descuidou durante o tempo que vigiava essa casa! Você parou seu carro na rua de trás no dia do assassinato, fiz até um levantamento da área onde seu celular estava na hora do crime.

- Como? Como?… Gregório arfava… não estava acreditando…
- Da mesma forma que você descobriu que era um dos filhos que foi deixado para adoção, eu também o fiz, bem antes e investigando mais um pouco descobri você também. Somos irmãos! Por isso, fiz de tudo para te colocarem como meu parceiro. E fiquei esperando o momento certo para me aproximar dos nossos pais, assim me mantive a distância.

Mas o que eu não esperava era você ter feito o que fez! Sua vingança não tinha motivos! Naquele tempo nossos pais não tinham condições para nos criar e eles nos deram para adoção num ato de amor, e você retribuiu com a morte. Sua cobiça também ficou sem limites, pois você sabia que eles estavam a procura de nós dois, que nós seríamos seus legítimos herdeiros.

Pensa que eu não o observava quando ia às agencias de seguros, a bancos e ficava perseguindo os dois nos fins de semana? Ficaria mais fácil para você matá-los antes de qualquer envolvimento familiar, uma vingança rápida e logo, você seria o primeiro a aparecer para receber o grande premio da herança.

Mas seu plano estava cheio de furos e você ficou muito descuidado. Eu procurei nossa mãe no hospital e expliquei tudo a ela, inclusive sobre o que você fez. Então, planejamos uma forma de você pagar pelo o que você fez. Dona Marlene, a viúva, andou pesarosamente até a porta, antes de sair da casa deu um último olhar para Gregório, cuspiu no chão e saiu!

O detetive Ivan, foi até o sofá, abriu uma bolsa preta e desenrolou um grande plástico no chão. Depois pegou uma corda e um punhal. Gregório ainda pensava na maldita cerveja gelada quando o punhal atingiu no fundo de seu coração!

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