Minilua

Contos Minilua: A coleção de bonecas #30

E antes de continuarmos, apenas um pedido: Sempre que possível, procurem revisar os textos. Lembrem-se: agindo assim, a edição tende a ser mais rápida. Um forte abraço, e uma ótima leitura!

                                                             A coleção de bonecas

Por: Caroline Maia

O céu estava azul e limpo, nem se quer uma nuvem no céu apaziguava o sol leve, porém intenso. O trigo dourado refulgia sob seus raios, tombado pela leve e gélida brisa que soprava durante a manhã. A pequena camponesa, tão branca quanto à neve que cairia nos próximos meses, com as bochechinhas gorduchas rosadas pelo frio e de cabelos tão dourados quanto o trigo, andava pelo meio da plantação, olhando os pequenos insetos que por ali ficavam. Eventualmente tropeçava em um ou outro buraco.

– Bom dia, senhor Espantalho!- disse ela contente para o velho, murcho e esfarrapado espantalho que ela tanto insistira para a mãe costurar. – Você nunca me responde não é mesmo?

O espantalho permaneceu imóvel, na sua quietude de farrapos e migalhas.

– Hum, vou andar mais um pouco. Ainda não fui falar bom dia ao senhor Coelho.

Além da plantação, por de trás da cerca e das moitas, um par de olhos azuis muito intensos observava cada passo da menina. Ela sempre fugia dele, talvez fosse pelo seu cheiro rançoso ou por sua aparência desgrenhada, ou pelos dois.

A menina por sua vez chegara à outra moita onde embaixo se escondia um coelho não tão grande nem tão pequeno. Era branco, salpicado de manchas pretas. Os olhos aguados olhavam a menina. Acostumado com a sua presença, não fugira quando a garota se ajoelhara para olhar em baixo da moita.

– Bom dia senhor Coelho! Vê como os trigos estão grandes e bonitos? Logo estarão prontos para a colheita e vovó fará pães e bolos. Trarei-te como sempre é só não sair daí. Até logo senhor Coelho!

A menina levantou-se, limpando a saia e joelhos sujos de terra. Já ia partindo quando uma voz atrás de si disse:

– E a mim, não diz bom dia?

A menina parou gélida.

– Por que não me responde? Você não é como o espantalho.

Continuou imóvel.

– Vamos meu anjo, olhe minha face. Nunca te fiz mal, por que reagir assim?

-Sai daqui. Vou chamar minha avó!- disse com a voz chorosa.

– Mas ela está tão bem lá dentro, em seus afazeres. Acho que ela não vai gostar se você chamá-la.

-Pare…

– Vamos, venha comigo… Você não quer brincar? Eu tenho muitas bonecas…

Assustada, a garota saiu correndo pelo trigal, fazendo seu cabelo farfalhar, confundindo-se com o trigo. O homem permaneceu parado, olhando a menina fugir mais uma vez. Era a última vez que ela fugiria. Sorriu expondo seus dentes podres e limosos e virou-se, partindo para sua gruta.

A menina entrou correndo dentro da casa. Chorava copiosamente.

– VOVÓÓÓ. VOVÓÓÓÓÓ!

Uma senhora de aparência doce e calma veio correndo de encontro enquanto limpava as mãos no avental. A menininha assustada abraçou-a pela cintura.

– O que foi meu anjo? – perguntou, abaixando-se para abraçar a menina assustada. – Você se machucou querida?

– Vo-vovó… O homem… O homem da gru-gruta vovó… – e caiu em pranto novamente.

A avó puxou uma cadeira e sentou a menina no colo, ninando-a.

– Meu amor… Não existe ninguém naquela gruta meu anjo.

– Tem sim!

– Calma… Eu vou mandar o vô ir lá ver assim que chegar amanhã pode ser?

– Pode…

– Agora vai lá na sala assistir TV.
– Tá…

Pelo resto do dia a menina ficou dentro de casa. Esquecia-se do acontecido conforme as horas passavam. Se estivesse saído, teria visto que o espantalho que tanto esperava falar havia sumido do trigal.

Logo a noite caíra e chegara a hora de a menina dormir. Ajeitou-se confortavelmente em sua cama, puxara o ursinho e submergira em seu mundo de sonhos e fantasias. Acordou algum tempo depois. Na escuridão, ouvia algum barulho estranho. Um cheiro conhecido de capim velho invadia o quarto.

– Vó? – disse com a voz fraquinha.

A luz acendeu-se. Por um momento a menina pareceu confusa e logo depois aterrorizada. Bem na sua frente estava o homem da gruta, vestido de espantalho, aqueles olhos azuis penetrantes a olhando.

– Olá. – disse ele suavemente.

A menina abrira a boca para gritar quando ele deu-lhe um soco na cabeça, fazendo com que caísse desacordada. Enfiou a menina em um saco de estopa e saiu calmamente.

– Você vai ficar linda na minha coleção de bonecas… Linda… – falou bem baixinho.

Caminhou com a garota no colo por uns dez minutos até chegar a sua gruta. Era razoavelmente grande e uma fogueira garantia a iluminação. Em cima da fogueira, uma panela enferrujada borbulhava um líquido.

Repousou a menina em um canto, tirando-a de dentro do saco. Dirigiu-se a panela, remexendo o líquido dentro. Já havia formado uma película por cima. Solidificava-se com extrema facilidade.

Meio zonza, a menina abriu os olhos. Onde estava? O cheiro de… Palha velha! Arregalou os olhos.

Nas paredes, a forma de várias meninas com tamanho parecido ao seu sobressaíam-se. Eram formas de resina… Plástico, algo do tipo. Podia ver por entre a capa que as protegiam os seus restos. Algumas estavam terrivelmente apodrecidas, verdes, inchadas, com os ossos aparentes, com vermes as decompondo… Porém de outras só restara os ossos amontoados. A resina que as cobria garantia que seus traços delicados não se perdessem no tempo.

Horrorizada, mal podia se mexer, muito menos balbuciar qualquer coisa.

-Lindas não? – falou o homem.

Assustou-se. Havia praticamente esquecido da presença do homem. Levantou-se de um pulo e tentou correr, mas o homem a segurou pelo braço.

-Shhhiiu. Não fuja. As minhas bonecas querem uma irmãzinha…

– Me larga! Me larga! Eu vou contar pra minha avó e…

Sentia o mundo girar. Agora via o homem segurando uma seringa muito velha e vazia nas mãos. Ele havia lhe aplicado uma injeção…Sentiu-se carregada até ser encostada em um vão na parede, ao lado de uma menina em estado de putrefação.

O mundo girava lento… Não tinha forças pra se mexer ou querer se quer correr. Era tudo tão cansado… Ficará devendo um pão ao senhor Coelho… E nem vira o senhor Espantalho falar…

O homem voltara com a panela que fervia no fogo e derramou o líquido contido sobre a menina. Ela sentiu lentamente aquilo escorrendo por seu corpo e rosto, mas não sentiu dor nem medo. Antes que o líquido terminasse de percorrer seu corpo os sentidos finais já havia lhe abandonado. Fazia então, parte da coleção de bonecas.