Minilua

Contos Minilua: A casa de 81 portas #146

Sim, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

A casa de 81 portas

Por: Lucas Rodrigues

Acordei tarde pra ir para a escola neste dia, mas não me sentia nem um pouco cansado, a disposição corria nas minhas veias, estava afim de fugir da monotonia insuportável que a rotina me proporcionava para a minha infelicidade, senti que era a hora de viver novas experiências e acabar com o tédio que subia à minha cabeça todos os dias.

Na escola eu tinha ouvido comentários sobre uma casa que ficava em um lugar completamente desabitado, no início fiquei bastante curioso, pois como eu estava querendo que a minha rotina mudasse, seria de suma importância eu sair de casa e conhecer um lugar novo, pois como o mistério era falado por quase todos os alunos do colégio, eu teria uma imensa chance de resolve-lo.
Depois de escutar a conversa, eu vi que era um mistério daqueles de deixar com várias questões na mente. Como resolve-lo? Simples, indo até a casa e vasculhar todos os cômodos até achar algo extraordinário… sim, extraordinário, pois como era um mistério intrigante, já era de se esperar que a casa fosse mal-assombrada.

No mesmo dia, cheguei em casa, não havia ninguém, meus pais tinham ido visitar minha tia Bárbara, que estava muito doente e precisava de um apoio.

Aproveitando esse momento, peguei minha mochila no meu guarda-roupa, coloquei algumas coisas importantes das quais iria precisar, como: bússola (afinal de contas era um local desabitado, ou seja, não havia uma alma viva que pudesse me ver e eu poderia correr o risco de me perder), garrafa com água (como não sou de ferro, precisava me hidratar o máximo possível), sanduíche de presunto (com certeza eu iria sentir fome, até porque fiz esse sanduíche em homenagem ao Chaves, que é a minha série preferida), taser (aquela arma de choque, eu iria precisar claro, algum malfeitor poderia querer me assaltar ou até mesmo sequestrar), uma câmera (eu queria filmar toda a missão, deixando tudo gravado eu poderia provar pra todos que eu realmente entrei naquela casa) e por último e não menos importante, coloquei dentro da minha mochila um revólver que meu pai tinha, não era bem um revólver, era uma pistola de 22 milímetros.

Com todos os apetrechos de utilidade muito bem guardados, coloquei minha mochila nas costas e parti em busca da aventura mais emocionante de todas – pelos menos pra mim era emocionante, era o primeiro mistério que ia resolver – pois não iria perder nada, nem deixar um detalhe sequer passar despercebido.

No meu trajeto para ir a tal casa, peguei carona num caminhoneiro que passava numa pista, ele era gentil e me ofereceu ajuda, até porque não queria ir a pé pra um lugar estranho e desabitado, isso seria extremamente exaustivo.

Olhava o mapa com bastante atenção, com relação a esse mapa eu tinha pegado “emprestado” de um colega, mas ele nem sabia. Chegando ao ponto principal do local, agradeci ao caminhoneiro pela gentileza de me conduzir àquele lugar, que por sinal, era quase um deserto pois não havia nada além de plantas queimadas (talvez pelo sol forte que fazia lá) e solo arejado com algumas pequenas amostras de grama.

Caminhei por um longo trajeto procurando pela casa, peguei o mapa que tava no meu bolso, vi uma frase em cima com letras garrafais e estava escrito: “mapa para chegar à casa de 81 portas”. Então esse era o nome da tal casa, uma casa com oitenta e uma portas era no mínimo estranho pra mim, mas deixei esse questionamento pra trás e segui em frente.

 

Depois de quase duas horas de uma longa caminhada, com o sol fortíssimo queimando a minha cuca, consegui avistar a casa de longe. Corri o máximo que pude pra me aproximar, não aguentava mais de ansiedade pra conhece-la. Era grande, porém, tinha um aspecto muito antigo, não parecia ser uma casa dos tempos atuais, acredito que era do tempo em que o Brasil estava em processo de independência, mas esses detalhes não me importavam muito, pois o que interessava era o seu interior.

O que fazia as pessoas temerem tanto o que estaria dentro daquele casarão enorme? Falando em temer, eu já tinha escutado comentários no colégio acerca do mistério da casa, alguns afirmavam que as pessoas que visitaram-na, após passarem por experiências paranormais dentro dela, sofreram com problemas psicológicos e desenvolveram uma síndrome do pânico, cuja esta seria provocada por uma força sombria que habitava dentro da casa.

Não acreditei em tais relatos, olhando o exterior eu achava a casa um tanto inofensiva, mas decidi entrar nela para comprovar se realmente as histórias sobre os visitantes anteriores eram verdade e não só isso, também queria comprovar se realmente existe algo sobrenatural naquela casa que tanto atormentaram as pessoas que a visitaram há anos atrás.

Escolhi, aleatoriamente, uma porta para entrar, afinal eram oitenta e uma portas, não havia uma porta de entrada e muito menos de saída. Me adentrando num cômodo qualquer (parecia ser a sala de estar), dei alguns passos pequenos, lentamente, mas o chão, que era de madeira, fazia barulhos perceptíveis e isso me incomodava porque o barulho se tornava cada vez mais alto à medida em que eu andava chegando a ecoar por toda a casa.

Parei por um momento, olhei para todos os lados, a sala tinha um cheiro ardente de mofo, nem mesmo tampando o nariz adiantava para ignorar aquele odor fortemente incômodo.

Nas quatro paredes haviam quadros, bem antigos por sinal, mas as imagens dos mesmos era borrada e mal dava pra ver o desenho que se encontrava estampado neles. Na sala também havia aberturas (uma em cada parede) que davam pra corredores, eram três aberturas bastante largas, mas eu era alto o suficiente para atravessa-las, mas um receio tomou conta de mim e senti um certo medo de entrar no corredor, pois era escuro, bastante escuro, eu temia que algo estivesse me esperando, mas o receio que sentia logo se transformou em curiosidade, pois eu havia tomado coragem para entrar no corredor.

Andei bem devagar, mesmo assim a madeira do chão ainda fazia barulho. Me aproximei da abertura, a escuridão me intimidava e fazia meu medo crescer ainda mais, mas a situação piorou quando eu ouvi um grito seguido de um choro, ambos bastante agudos e ainda ecoavam por toda a casa. Ouvindo esses gritos e choros, meu corpo suou completamente, meu sangue gelou, estava estático, não conseguia mover nem mesmo meu dedo mindinho da mão.

Me agachei, coloquei as mãos nos ouvidos mas mesmo assim não conseguia parar de escutar aqueles gritos, aquele choro, tudo numa mesma sincronia de modo que me fizesse sentir uma angústia terrível, uma tristeza invadia meu coração, meus sentimentos estavam abalados, não conseguia entender o porque de sentir tamanha dor, tamanha tristeza naquele momento. Pensei na minha mãe, no meu pai, em toda a minha família, não conseguia para de chorar, os gritos e choros não cessavam, eu já estava saturado, nunca tinha me sentido tão abalado emocionalmente em toda a minha vida.

Os gritos e o choro eram de uma mulher e de uma criança, já me dava conta de que eu não estava dentro de uma casa comum… o mistério era real, aquela casa era realmente mal-assombrada!
Entrei no corredor com os olhos fechados, enfrentando a escuridão, pois minha missão de nada iria valer se eu não investigasse a casa aprofundadamente.

Passando do corredor, entrei direto em outro cômodo, este parecia ser um quarto ou talvez a cozinha, não dava pra saber, pois não tinha mobília nenhuma na casa. Procurava por objetos, mas não achava nenhum, nem embaixo dos quadros havia alguma coisa de valor.

Como já tinha percebido que a casa não era nada normal, liguei minha câmera e a coloquei em cima de um criado-mudo, que era a única mobília a qual eu não tinha reparado.
Deixei minha mochila no chão, que estava imundo. Ainda um pouco abalado por ouvir aqueles choros e gritos, eu falei pra câmera algumas coisas referentes à minha chegada e à experiência desagradável pela qual passei logo quando entrei.

Assim que desviei o olhar para trás, minha atenção se voltou para algo oculto, não estava vendo, mas eu estava sentindo, uma energia negativa emanava sobre aquele cômodo de uma forma assustadora.

Fiquei olhando para todos os lados, tentando entender de onde vinha aquela energia maligna, mas pra minha sorte eu tinha os sentidos bem aguçados pois aquela energia estava intrinsecamente ligada aos meus sentidos, como se eu já soubesse o que estaria me rondando, algum tipo de entidade se encontrava lá e estava disposto a descobrir, porque se eu já tinha chegado àquele nível me sentiria um fracassado em ter que desistir de um mistério sem resolve-lo completamente.

Meu desespero não tinha cessado, só aumentava, pois tinha plena certeza de que algum ser ou outra coisa de origem sobrenatural estava me cercando e queria me atacar, só estava esperando o momento certo, pois pelo o que se via eu não era um visitante especial, aquilo não era um comitê de boas-vindas.

Eu tinha reparado em um lustre que ficava no teto, estava a alguns metros acima de minha cabeça, era mais um objeto no qual eu também não havia reparado, pois eu ainda estava tomado pelo temor à tal entidade.

O lustre balançava de um lado para o outro, eu acompanhava o movimento com os meus olhos, não é que eu estava esperando o pior acontecer, é que o lustre era tão brilhante e tão chamativo que era impossível não ficar observando. Em uma fração de segundos, o ferro que mantinha o lustre no teto se desprende fazendo-o cair, mas para minha sorte eu também fui rápido o bastante pra escapar, dei um pulo e caí no chão, o lustre se despedaçou totalmente.

Não esperava que isso fosse acontecer, o lustre parecia em tão perfeito estado, mas foi a partir desse momento que minha desconfiança aumentou ainda mais, a ficha já tinha caído, eu estava sendo perseguido por fantasmas! Sim, fantasmas, naquela casa realmente havia fantasmas, eu já não tinha mais nenhuma dúvida.

Me levantei do chão, peguei minha câmera para novamente falar sobre o ocorrido, porém, ela não estava funcionando, verifiquei as baterias, estavam em perfeitas condições, com certeza isso foi obra dos espectros malignos que habitavam essa casa, minhas suspeitas eram de que esses espectros eram os próprios antigos moradores da casa, ou talvez os moradores eram pessoas muito ruins e quando morreram se tornaram demônios, enfim, eram muitas suposições que afligiam a minha mente, mas só tinha uma certeza: aquela casa era amaldiçoada.

Decidi sair daquele cômodo, larguei minha câmera no chão, não precisava mais dela, já que não funcionava mais. Tentei entrar pela única abertura daquele cômodo que dava para outro cômodo, estava escura como as outras da sala de estar, já estava sem medo da escuridão, mas quando coloquei o pé para entrar fui empurrado para trás com uma enorme força, cheguei a bater com as minhas costas na parede, o impacto foi tão forte, que quando tentei me levantar senti uma forte dor na coluna, mas a dor passou rápido, porém, continuei no chão sem entender o que realmente havia acontecido.

Olhei para a abertura, a escuridão ainda continuava ameaçadora, sentia que algo estava lá dentro e queria me impedir de entrar, talvez seja a entidade maligna que eu estava lidando, com certeza ela não me queria por perto. Dentro daquela abertura escura começava a surgir algo que me chamava a atenção, eram dois olhos, olhos grandes e brilhantes, pareciam ser de uma criança, mais especificamente de uma menina.

Me levantei, olhando fixamente para aquele olhar vivo e amedrontador, mas o que veio depois foi suficiente para me dar mais medo ainda. Dentro daquele escuro surgiu um sorriso, bastante medonho, juntamente com aqueles olhos penetrantes formando um rosto de uma criança-demônio, ou sei lá o que era aquilo, não queria saber, pois tomei coragem e fui enfrentar aquela escuridão mórbida, atravessei a abertura, cheguei ao corredor, estava com os olhos fechados, queria fingir que tudo aquilo era um pesadelo, mas era mais real do que imaginava.

Correndo feito um louco e gritando bastante, eu queria sair daquele corredor, senti várias mãos me tocando, parecia que estavam tentando me impedir de seguir em frente, abri os meus olhos e vi coisas que me deram arrepios contínuos, haviam várias rostos negros, cada um com um sorriso e olhar demoníaco, me tocavam como criaturas perversas, eram demônios que estavam tentando me derrubar, eles davam risadas maléficas que arrepiaram cada vez mais, eram espectros malignos que vivam naquela casa.

Passado todo o sufoco no corredor com aquelas criaturas infernais, consegui passar o corredor e entrar em outro cômodo da casa, já não queria mais ficar ali, minha sanidade mental estava comprometida ao mesmo tempo em que meu coração batia acelerado.

Me sentei em um canto da parede pra descansar, e recuperar o fôlego, tentei ligar pra minha mãe mas eu tinha lembrado que eu não havia trazido meu celular, pensei: “Que merda. E agora? Não vou conseguir sair daqui sozinho, tô perdido.” Os pensamentos negativos invadiam a minha mente, talvez eu os adquiri no corredor com aqueles pequenos demônios, que quase consumiram meus pensamentos, minhas lembranças… se eu ficasse mais alguns minutos naquele corredor talvez eu já estaria morto.

Me levantei, fiquei cambaleando como se fosse um bêbado depois de uma noitada, já não sabia mais o que era real e o que era fantasia, eu tinha que sair daquela casa, cometi um erro tendo que me meter nesse mistério, me arrependi amargamente, alimentei uma falsa esperança de que com a resolução do mistério feita por mim eu obteria o respeito e a consideração de todos os meus colegas e amigos, triste ilusão.

Cheguei até um corredor estreito que dava pra outro cômodo, mas eu relutei em atravessa-lo, com medo daqueles fantasmas voltarem e me pegar desprevenido, isso de novo não, já tinha ficado traumatizado com os dois corredores anteriores, aquilo já foi o suficiente.

Dentro do corredor apareceram duas figuras, uma mulher e uma menina, eram fantasmas, parecia que as duas conversavam pois estavam de costas e bastante juntas, fiquei curioso (foi difícil de resistir) e me aproximei, elas viraram o rosto e pude ver as duas faces… horrendas!

Os rostos das duas estavam desfigurados, tinham uma coloração cinzenta, os olhos quase saindo e elas expeliam um líquido preto, achava que era sangue, mas não era. Vomitei umas três vezes, minha barriga começou a doer de tanto que eu vomitei, acho que meu café da manhã foi para o ralo, que pena estava tão delicioso naquele dia.

Quando olhei novamente para o corredor a menina e a mulher já não estavam mais presentes, sumiram misteriosamente, sem deixar nenhum vestígio. Por sorte, havia uma porta ao meu lado, era umas das portas de entrada, aquela era minha chance de sair daquela casa maldita de uma vez por todas.

A porta estava aberta, pois a fechadura estava parcialmente enferrujada. Depois de sair daquela casa me senti como um prisioneiro sendo libertado saindo de seu cativeiro, mas não estava feliz, estava arrependido, e todo esse arrependimento me fez pagar um preço muito alto.

Me distanciei alguns metros da casa, olhei para ela com os olhos marejados de lágrimas, coloquei minha cabeça entre os joelhos e tive uma crise de choro que durou meia hora. Só Deus sabe o quanto eu sofri naquela casa, perdi minha felicidade, sendo vítima de fantasmas e demônios atormentadores.

Agora sim eu acredito na história das pessoas que visitaram essa casa, pobre gente… devem estar tomando remédios anti-depressivos nesse momento… acho que em breve irei me juntar a eles, não porque mereço, mas porque é necessário. Nunca irei saber o que levou essa casa a ser habitada por seres sobrenaturais.

Será que os moradores tinham um pacto com o demônio? Enfim, ninguém sabe, respostas nunca irão ser encontradas, mas perguntas continuarão a surgir à medida que a repercussão desse mistério se espalhar mundo afora. Assim que terminei de chorar, a polícia veio até o local junto com meu tio Geraldo, ele me abraçou chorando e me entregou uma carta sem dizer uma palavra, apenas chorava.

Li a carta do começo ao fim, mas o trecho que mais me perturbou foi: ” Renato, seus pais morreram num acidente de carro quando voltavam de uma visita, o carro bateu em uma caminhão e capotou várias vezes e chegou a explodir. Seus pais morreram carbonizados no acidente.”
Naquele momento não me faltava mais nada… todas as coisas ruins que eu nunca imaginavam que iriam acontecer na minha vida aconteceram, e não tenho dúvidas… eu fui amaldiçoado, foi a casa, as energias negativas, tudo isso afetou a minha vida… acho que já chega, não tenho mais nada pra falar, apenas lamentar.

Epílogo

Renato foi internado em uma clínica psiquiátrica para tratar a depressão, recebendo apoio psicológico. Ninguém na escola recebeu mais notícias dele, estava sendo tratado com desaparecido, alguns especulavam que estaria morto.

Dois meses se passaram, pastores evangélicos, padres e até espíritas tomaram conhecimento do mistério da casa de oitenta e uma portas, a maioria deles não chegaram a entrar na casa, pois sentiam de longe a energia negativa que havia dentro da casa e as suspeitas de uma entidade maligna habitante era quase uma verdade.

Passado mais dois meses, a prefeitura da cidade decidiu demolir a casa, pois as suspeitas haviam se confirmado. Três meses se passaram e o inacreditável foi testemunhado por vários pastores que retornaram ao local para ver a casa demolida, porém, a casa estava completamente intacta, o que dá a entender que a entidade reconstruiu a casa de forma sobrenatural.

Todos ficaram espantados e com várias perguntas na cabeça, perguntas que nunca foram respondidas e jamais serão.