Minilua

Contos Minilua: 7 dias, 7 vidas, 7 mortes #110

Bem, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

07 dias, 07 vidas, 07 mortes

Parte I

Por: Mimi Rocha

Nem flores tive no meu último enterro… Nem rosas, nem choro, nenhuma comoção. Nem mesmo uma lágrima que fosse jogada sobre meu corpo gelado. Não tocaram minha música favorita, nem um prato de comida para as visitas.

Fiquei ali horas estatelada como se fosse um nada, como se minha existência fosse totalmente dispensável. E de fato era, ou será que não? Posso mostrar que tudo não foi em vão…

Ainda que os vizinhos odiassem minha presença, sempre quis encantar a todos os moradores do bairro com minha bela voz, portanto penetrei todas as madrugadas e cantarolei com auxilio da lua lindas melodias que ressoavam nos ouvidos mais distintos até os mais simplórios habitantes da agitada e esfuziante Rua Madalena. Meus olhos cor de terra brilhavam a cada toque e refletia em sua textura a brancura lunar.

Sempre fui a dama das ruas, e meus shows eram para todos os que queriam ouvir um bom som. Minha plateia continha todo tipo de gente: Mendigos enrolados em um jornal amassado para sobreviver ao frio soturno, casais de amantes fugindo para mais um encontro apaixonado e suas respectivas senhoras gordas que cuidavam de suas vidas penduradas na janela após a novela.
Inclusive crianças que brincavam com suas bonecas de trapos feitas com louvor por suas mães após um dia de trabalho na fábrica.

Toda sorte de gente passava por meus encantos. Alguns sorriam maravilhados, outros enfurecidos tacavam-me botas, água, até frutas podres ou vasos de plantas inutilizados.
Mas, naquele dia…

Da minha primeira morte, lembro-me bem daquele rosto de feições longilíneas, ele trajava um sobretudo preto que cobria-lhe o corpo com aparente elegância, fumava um cachimbo velho e por vezes baforava longamente pro ar.

Não me deu muito tempo para observar suas características, sacou uma arma que a roupa preta escondia, aquelas luvas denunciavam seu crime…
Quanto senti minhas veias saltarem aos olhos, um tiro somente foi necessário para alvejar meu coração. Cai inerte em algumas latas de lixo, que estavam abaixo de mim, o mesmo lixo que me alimentava todas as noites com peixes, mariscos… 

Não tens noção do que os homens jogam fora! Ainda sufocando em silêncio e sentindo aquele mesmo cheiro que me satisfazia em tempos de solidão, olhei para o meu assassino com questionamentos pertinentes. Já era tarde demais.

Morri pela primeira vez, a angústia já começava invadir meu corpo quando senti um sopro em minhas narinas, meu bigode começou a se mexer lentamente… Vi novamente o amanhecer, mais um dia se levantava aos meus olhos. Hora de recomeçar…

Após minha morte e comecei a pensar em mudar de ares… Mudei de rumo, de rua, de sentido, Resolvi ir para um bairro chique de Santos. As pessoas eram tão bem perfumadas, as dondocas sempre ocupadas com seus saltos enormes, quase me pisavam…

Não conseguiam notar a presença de uma estrela! Senti fome, estava exausta de tanto andar por todos os lugares, sentei-me a beira de uma vala qualquer, não tinha lodo saindo das sarjetas, foi o canto mais limpo que já tomei banho, ataquei a primeira lata de lixo. 

Hoje o banquete tinha atum, filé de peixe em bom estado de conservação e até leite fresco que para minha alegria só venceria amanhã. Já a noite, satisfeita e contente com meu novo lar resolvi me preparar para o grande show. Subi sorrateiramente em uma árvore de folhas ralas, a única em meio aos arranhásseis gigantescos em tanto tempo de existência nunca havia visto senhoras tão distintas proferirem tantos xingamentos em menos de meia hora de cantoria.

Ou será que ouvi errado e elas estavam me elogiando? Fui interrompida com várias sirenes de ambulâncias, carros de polícia, uma carrocinha e até o BOPE.
Fiquei lisonjeada! Quantos admiradores ilustres! Todos vieram me prestigiar! Um rapaz troncudo fardado com as roupas do exército subiu em uma escada, -Um fã, -, pensei.

Ele me agarrou pelo pescoço sem se preocupar se me machucaria, me jogou dentro de uma gaiola como se eu fosse uma qualquer e partiu em disparada para esse lugar terrível… Coberto de marcas de sangue nas paredes, grades por todos os lados e uma luz que piscava constantemente.
Percebi que havia muitas iguais a mim, mas obviamente eu sou a mais bela de todas. Haviam ainda outras espécies, outros tipos, cachorros, e até animais silvestres, deitei-me no chão gelado daquela sela e tentei dormir atormentada por pesadelos horríveis.

No dia seguinte acordou-me com gritos o zelador, sua roupa estava marcada com rastros de patas por toda parte do avental engordurado, arranhões também compunham seus trajes de horror, colocou-me em uma caixa apertada, bati a cabeça com tremenda rispidez.

Enquanto saia desfilando comigo embaixo do braço os outros animais me observavam com olhar penoso não entendi ao certo o porquê até chegar a uma sala com luz forte sobre uma mesa, retirou-me com violência da caixa e jogou-me sobre a mesa fria agarrando minhas patas logo em seguida prendendo-as a uma fivela preta com fechaduras douradas.

Virou-se de costa e logo após em um súbito pegou uma seringa contendo um líquido verde viscoso que estava sobre a outra mesa e naquele momento me desesperei…
Agora entendi o propósito de estar ali, ele levantou meu pelos e sem cerimônia enfiou a agulha. Senti meu ser inteiro se estremecer, em poucos segundos estava cuspindo sangue e saliva pela boca, meus olhos viravam como uma montanha russa desgovernada e senti meus batimentos cessarem lentamente.

– Leva essa e traga a próxima, Pedro… Essa aqui já era – sorriu secamente.
Como ele poderia ser tão doentio? Essa foi minha segunda morte.
Acordei meio atordoada em meio a milhões de outros iguais a mim… Bocas abertas, olhos revirados, a cena era grotesca e digna de filmes de mutantes. Levantei-me com toda elegância que ainda possuía sem olhar para traz.

Perto dali havia um hospital psiquiátrico onde resolvi me refugiar, eu precisava de um banho… Sentei-me perto de uma árvore frondosa no meio do jardim, comecei minha higiene particular enquanto observava algumas pessoas que conversavam em meio às flores; outras rodopiavam infinitas vezes; e outros ainda mais introspectivos conversavam solitariamente com a parede.

Alguém se aproximou de mim, me perguntou meu nome e antes que pudesse dizer qualquer coisa segurou-me nos braços, fez-me um carinho…
Que há tempos não recebia e como fiquei em estado de êxtase por esse gesto! Olhou dentro dos meus olhos rasgados aquele homem de barba comprida e negra como a escuridão, possuía em seu olhar uma série de perguntas por seu tom evidentemente enigmático.

– Você agora é minha…, – disse. Toda minha!-, completou.
Achei estranho, mas melhor não contrariar. Levou-me pro seu quarto dentro de sua blusa branca com abotoaduras enormes e deitou-me sobre sua cama macia, acariciou minha cabeça mais uma vez, ronronei de prazer. Aquele humano sabia como tratar uma dama da noite.

Dividiu seu jantar comigo, sempre com um largo sorriso que lhe cobria o rosto inteiro. E teríamos uma bela relação, exceto pelo fato que acompanhou a madrugada.
Todos dormiam nos outros quartos, o sanatório exalava silêncio por todas as partes, a enfermeira certificou-se que todos estavam calmos, eu estava confortavelmente escondida tirando uma soneca debaixo dos panos do meu protetor.

Quando de repente levantou-se e acendeu umas velas vermelhas pelo quarto inteiro agarrou minhas patas como fizera o zelador e prendeu-me na cama. O que estava acontecendo? Proferiu um cântico estranho, sussurrava algumas palavras em uma língua desconhecida, estava bem agitado…

Cortou seu pulso e jogou gotas de sangue pelo meu pelo, eu estava assustada e queria ir embora, debati-me enquanto pude, minhas garras afiadas tornaram-se inúteis, não tive mais reação alguma enquanto ele terminava seu ritual, meu corpo parecia estar adormecido e minha visão dele tornou-se cada vez mais turva e inconsistente…

Já chorava minhas últimas lágrimas de desespero quando ele finalmente me tirou daquela agonia enfiando uma faca de serra sobre minha barriga, abrindo em mim um buraco que iria do pescoço até próximo da cauda.

Bebeu meu sangue, comeu minha carne e se lambuzou em cada pedaço que havia dentro de mim, foi interrompido pela enfermeira que estranhou a calma vinda de seu quarto, ainda teve tempo de espalhar meu sangue por toda parede “Estou voltando – Liae Vlamae Lilae Mentae” já era tarde para que alguém me salvasse dali então apenas aceitei meu destino, estou indo novamente para o mundo dos mortos, e já estamos na terceira vez… […]